Críticas

Orgasmatron

por Juliene Codognotto

Nenhum Comentário 08 July 2008

Um cabaré de palhaço

Se você freqüenta a USP – pra estudar, dar aulas, pesquisar, aprender línguasde graça ou fazer piquenique – deve saber que ir pra lá é quase como ir pra outro planeta dado o perrengue considerável que é chegar à mini Brasília-paulistana. Não bastasse o caminho, lá dentro é tudo distante, aparentemente vazio, anti-mobilização e anti-convívio-social, embora cervejas e barraquinhas de lanche lutem para construir pequenos aglomerados de estudantes em vésperas de férias. Foi neste local aprazível – onde se vende tapiocas honestas – que assisti ao cabaré preparado pelos alunos da EAD.

Recebidos desde o foyer por personagens estranhos, somos surpreendidos por um palhaço.  Entre putas, cafetões, garçons e músicos, um palhaço. Daqueles mais doces.

“Levanta todo mundo a mão direita!”

(…)

“Pronto, pode abaixar”

(…)

“Vou ver se eles estão prontos.”

“Não estão prontos.”

Tudo isso enquanto esperamos para entrar num ambiente de mulheres seminuas e performances escandalosas. No entanto – não sei se é a proposta ou se eu percebo assim porque fui recebida por essa ingenuidade e fiquei contaminada – todo o espetáculo tem essa atmosfera tão cara ao palhaço, a atmsfera da crítica por meio do humor, por meio de um olhar ingênuo e simples que revela estruturas complexas. Trata-se, na maior parte das cenas, de uma crítica que aparece em personagens aparentemente banais, como é o caso da Bertha, a senhora-administradora-da-sala, que aparece timidamente no início, mas remete à figura do comando, remete à autoridade oprimindo o moço que limpa o teatro.

O que se sucede é uma seleção de cenas, muitas delas já conhecidas do público, que ganham outra cara por estarem no espaço do cabaré, um espaço onde qualquer politização e polêmica vira riso e chacota, sem perder seu caráter político, já que, desta maneira, pressupõe a proximidade do público e, portanto, sua participação ativa para completar a obra. Trata-se de um encontro longo entre artista e platéia para construir uma obra que está claramente em processo, possivelmente devido ao fato de a montagem ser um experimento, um estudo. Assim, assistimos a cenas que arrancam aplausos do público (cabaré sempre dá essa vontadezinha de aplaudir antes da hora, né? Deve ser a informalidade), outras que arrancam bocejos e, claro, aquelas consagradas performances fecha-buraco, que é pra dar tempo da galera se trocar.

Tanto nas cenas mais elaboradas, quanto nas tapa-buracos, não se pode deixar de destacar a entrega dos atores, talvez uma vantangem de serem artistas que estão em constante aprimoramento e que estão muito a fim de testar seus estudos. No entanto, isso não traz só vantagens, traz também um espetáculo grande, não por dificuldade de cortar cenas, mas, provavelmente, pela necessidade de dar espaço às experimentações e aprendizados de cada aluno.

O diferencial deste cabaré, ao meu ver, foi a temática: “Quando um homem ajuda o outro”. Diferentemente do cabaré do Folias, por exemplo, que ia buscar na história brasileira motivos para rir, o da EAD vai pegar as piadas no nosso dia a dia, de modo que mesmo as cenas que resgatam momentos históricos o fazem para falar do hoje, do homem de hoje e de suas bizarrices, seus medos, suas angústias e, sobretudo, da decadência de suas relações sociais. Ao rir do hoje, Orgasmotron consegue despertar no espectador uma identificação imediata por meio de reflexões sobre temas muito próximos dele.

No final me dei conta de que, apesar de cativada por algumas cenas do cabaré, o que eu estava esperando mesmo era a volta daquele palhaço, seja para oferecer todynho no intervalo, seja para desconstruir o próprio trabalho do grupo ao refazer cenas “sérias” e densas de maneira descompromissada, seja, ainda, para recitar a curta história Se os tubarões fossem homens, de Brecht. E depois de ouví-la, não adianta querer focar em outra coisa, é hora de ir pra casa e aproveitar que o busão demora pra ir pensando em tudo que este texto propõe.

0,7% do total de peixinhos pequenos fazendo a revolução na civilização do mar.

E você, o que acha?

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