Críticas

120 Dias de Sodoma

por Leca Perrechil

12 Comentários 27 August 2007

Sade Sassaricando no Satyros 

Fotos: Divulgação


Em meio às constantes crises políticas nacionais, muitos grupos, autores, diretores realizam peças que criticam a interminável corrupção e o jogo do poder, como ato de intolerância ao sistema vigente através do teatro. A partir disso, temos obras como Motel Paradiso e Às Favas com os Escrúpulos, de Juca de Oliveira, Sua Excelência, O Candidato, de Marcos Caruso, e 120 Dias de Sodoma, da Cia. Os Satyros.

Enquanto Juca e Caruso utilizam de leves comédia familiares para fazer suas críticas, Os Satyros entram no universo do Marquês de Sade, com todas ironias, estupros, torturas, perversões e depravações; que o autor tem direito. E é ai que entram os personagens Duque de Blangis, Bispo de Blangis, Presidente Curval e Ministro Durcet – célebres figuras públicas e cidadãos respeitados, que fora do âmbito público são quatro libertinos em busca de satisfazer, da forma que for, seus desejos mais profundos. Eles representam membros importantes dos dois poderes que mais atingem e controlam a sociedade da época: a Igreja e o Estado. Outra crítica também passível de questionamento é – se existem os opressores, também existem aqueles que se deixam oprimir. Por isso, a mensagem da peça é tão atual: os políticos fazem o que querem no poder, e o povo permite quase sem questionar.

Na adaptação do diretor Rodolfo García Vázquez, os quatro libertinos promovem um “deboche” (no sentido de devassidão, putadia, você entendeu, não é?) que deve durar 120 dias, em um castelo isolado, longe de tudo e todos. Para isso, raptam cinco garotas e cinco rapazes virgens, de idades entre 12 e 15 anos, e contratam quatro fodedores, duas contadoras de histórias, e todos os funcionários necessários para a manutenção do castelo. O evento deve ter quatro ciclos: das paixões simples, complexas, criminosas e assassinas. Essas regras são explicadas por um narrador, que permeia todo o espetáculo.

Algumas cenas produzem reações de repugnância e horror na platéia, a exemplo de quando uma das jovens meninas é masturbada no palco, ou no momento em que um dos libertinos esfrega merda cenográfica (ouvi dizer que é doce de banana, mas só experimentando, né?) na cara de um dos meninos. Porém, a cena que mais emociona da peça não é visual, mas sim quando outro personagem narra a maneira como uma das garota foi brutalmente torturada e assassinada, durante um longo período de agonia. A descrição é mais profunda do que qualquer imagem da peça.

A cena só não é a melhor do espetáculo porque a narradora não consegue projetar sua voz satisfatoriamente. Assim como no elenco da versão original – que trazia ótimos atores como libertinos – o ponto fraco continuam sendo os jovens inexperientes que faziam os papéis das vítimas juvenis. Apesar do grande sacrifício físico que um papel como esse requer, muitas vezes, nos momentos em que alguns deles falam o espectador precisa se esforçar para ouvir o que eles dizem, enfraquecendo cenas-chave para a trama.

A peça já esteve em cartaz entre maio e novembro do ano passado, e volta este ano com parte do elenco original e novas críticas à atual situação do país. Algumas são senso comum, como no instante em que um libertino faz alusão a Renan Calheiros – político envolvido em esquemas de corrupção – e à crise aérea, com a já famosa frase de Marta Suplicy “relaxa e goza”. Também criticam um lugar onde ter uma das sete maravilhas do mundo e sediar um evento como os jogos Panamericanos são grandes motivos de orgulho.

O texto, escrito por Sade enquanto esteve preso na Bastilha, só foi achado décadas depois da morte do autor. Na verdade, nem foi possível desenvolver completamente o texto, devido às condições em que se encontrava. Assim, ele só conseguiu descrever como queria o ciclo das paixões simples. Mesmo imcompleto, propõe reflexões e mostra que na França de 1785 – quando o textofoi escrito – como no Brasil atual, atrocidades podem ser cometidas por importantes membros da sociedade sem que haja punições.

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12 comentários até o momento

  1. Juli =) says:

    Aeeee… quero ver quem fala esse título 7 vezes bem rápido! Tipo: “Xuxa, a Sacha fez xixi no chão!”
    rssss

  2. Maria Clara says:

    quero ver a peça novamente. além dos libertinos o narrador também é um ótimo ator. mas a sensação mais forte que me ficou ao final da peça, além daquele mal estar, foi: ´as pessoas precisam ver isso! que triste e real permitirmos tudo isso conosco…´. deu um leve desespero. * leca, o seu texto pode ser mais poético, não!? se solta mais… ;) beijo e rosa pra ti.

  3. Leca Perrechil says:

    Oi, Maria Clara

    Ainda não sei o que busco no meu texto. Poesia do horror? Ironia? A interpretação da obra? Sei lá. A cada texto tento experimentar alguma coisa… às vezes sai mais poético, às vezes não… Não sei qual seria o mais ideal… provavelmente não existe isso de “ideal”,… mas realmente às vezes ficamos presos em modelos que já conhecemos.

    Valeu pelo toque, vamos ver o que sai daqui pra frente, né.

    Bjão.

  4. Maria Clara says:

    leca,
    está um bate-papo legal sobre o espetáculo e sua crítica lá na casa do chico (o da foto acima). você viu? o endereço é: http://teatroribas.zip.net/ abraço e rosa.

  5. Leca Perrechil says:

    Oi, Maria Clara
    Obrigada por enviar o link. Acabei de comentar lá. Acho muito interessante quando existe esse diálogo entre a crítica e a concepção da peça.
    Bjos.

  6. Maria Clara says:

    acho muito saudável esse diálogo entre artista e crítico. e acho linda a maneira como vocês estão fazendo isso nesse caso específico. se já gostava de vocês, agora admiro e sou fã. parabéns e obrigada! :)

    ps: chico quer muito que você veja a resposta que ele deu ao seu comentário lá no blog dele… rs. beijos e rosas para crítico e artista.

  7. Maurício Alcântara says:

    Eita, tenho medo dessas definições de “crítico” e “artista”, porque promove uma cisão que num existe (ou que não deveria existir), além de institucionalizar demais as duas atividades.

    Prefiro pensar que é tudo a mesma coisa, pessoas interessadas em promover a criação artística: uns botando a mão na massa, outros provocando (no sendido saudável da palavra) pra promover discussão. O mais legal é saber que esses papéis – crítico e artísta – muitas vezes se invertem (ou deveriam se inverter). Vide Guzik, citado lá no blog do Chico.

    Acho que é hora de parar de achar que o papel do crítico é de achar defeito (tenho ódio do Estadão toda vez que vejo a coluna do Cri-Crítico, editorialmente definido como aquele que não gosta de nada mas ainda assim assiste). Ao contrário do que o Estadão promove com essa coluna, o papel da crítica não é – ou não deveria ser – o “bad cop” da história.

    Legal mesmo é debater (críticos, artistas, público, todo mundo) em função da arte, para que a criação artística seja cada vez mais frutífera. Se esse debate acontece com cerveja então, melhor ainda!!

  8. Maria Clara says:

    concordo com você maurício.
    e também pensei nisso quando escrevi. mas acabei chamando um de artista e o outro de crítico para reafirmar essa ´ponte´. abraço.

  9. Juli =) says:

    A Bacante tem fã, gente! Que coisa linda…
    Essa história de crítico não gostar de nada é coisa de gente chata. A gente é mó legal.

    Beijo, Maria Clara, vc é o máximo (ai, sou puxa-saco com fã)!
    Juli =)


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