Críticas

Os crimes do Preto Amaral

por Juliene Codognotto

6 Comentários 08 October 2007

Lirismo engajado

Foto: Lenise Pinheiro

Ir ao Teatro Imprensa (leia-se Centro Cultural Grupo Sílvio Santos), passando antes pela porta do Teatro Oficina é uma experiência muito especial. O CCGSS é um lugar sofisticado, tão sofisticado que, em vez de fazer propaganda daquelas cantinas baratas que sempre apóiam o teatro alternativo oferecendo refeições aos artistas, expõe um belo cartaz onde lemos: “Rua Avanhandava, onde o espetáculo continua!” (eles só não comentam que, neste caso, para o espetáculo continuar é preciso gastar, em média, a módica quantia de 100 reais por pessoa!). E na fachada – que não parece estar muito de acordo com a Lei Cidade Limpa – bolinhas de Natal coloridas! Só pra completar o luxo. Uma verdadeira festa cultural.

Passado o sufoco de disputar o foyer com as muitas pessoas que lotariam a peça Hoje Eu Me Chamo Dinorá, sobramos eu e mais cinco para assistir Os Crimes do Preto Amaral, uma história que consegue ser lírica falando de eugenia, abuso sexual, crimes contra crianças e outros temas tão light quanto estes.

Antes de entrar, porém, é preciso trocar sapatos por pantufas – aquelas de médico ou de perito, branquinhas, meio transparentes. Tudo para não interferir naquele ambiente todo branco. E é todo branco mesmo: roupas, assessórios, chão, cadeiras… A partir daí, voltamos a 1927, numa bela mansão, cujos móveis estão devidamente cobertos por panos brancos, que podem simbolizar tanto a preservação da mobília, quanto a conservação dos vestígios de uma investigação criminal. Estamos de cara imersos num ambiente onde brancura e limpeza são sinônimos. Portanto, o único personagem que aparece vestido de preto (o Preto Amaral, claro!) é o símbolo da sujeira e da degeneração que era atribuída aos negros na época. Engraçado pensar que em algumas cabecinhas o termo higienização – muito recorrente na peça – até hoje tem esta conotação preconceituosa e facistóide. O projeto de “higienização do centro de São Paulo”, por exemplo, só se dá ao trabalho de substituir preconceito com a raça negra pelo preconceito com os pobres, o que, no fim das contas, acaba dando quase na mesma.

Preto Amaral, um negro que foi soldado e andarilho, filho de uma escrava, é considerado o primeiro serial killer brasileiro e assim está identificado no Museu do Crime. No entanto, o rapaz, que viveu num período em que a teoria eugenista se desenvolvia e ganhava adeptos na medicina brasileira, não teve direito a julgamento, pois faleceu antes, na delegacia, depois de sofrer muitas torturas.

Para contar essa história, a peça tem como base alguns personagens que representam não somente indivíduos, mas também opiniões deste período: o médico eugenista, a advogada humanista formada na Europa, a perua que só se importa com o Carnaval, o jornalista/artista que tem uma visão ampla, mas prefere não se envolver politicamente. Além deles, uma enfermeira que trata os “criminosos” após as torturas e tenta tranqüilizá-los, e um músico filho do médico e marido da advogada, ou seja, uma marionete que não sabe por quais mãos se deixará controlar – amor ou filiação.

As soluções cênicas são originais e impedem que a história se torne cansativa – é o caso das lâmpadas no cenário, as repetições de texto, as cenas que se sobrepõem, acontecendo no mesmo espaço, mas em tempos diferentes, etc. No entanto, a encenação não ousa em nenhum aspecto, nem radicaliza a linguagem. O que chega mais perto de radicalização é o uso do lirismo no tratamento de assuntos graves. A idéia de simbolizar as mortes com as roupas das crianças supostamente atacadas por Amaral é um exemplo disso: a mesma atriz volta como mãe de cada um dos meninos, variando apenas o sotaque e, a cada vinda, leva consigo as roupas do pequeno assassinado. Por sua vez, as crianças são representadas ora pelos próprios atores, ora por bonequinhos manipulados, evidenciando que o que está sendo contado ali é somente uma versão e não necessariamente a realidade.

Destaque para a cena em que todos os atores se tornam o primeiro menino atacado para contar, cada qual com seus trejeitos, o início da mesma história trágica. E merece elogios, ainda, a maneira singela como a advogada mostra que, sob tortura, é possível confessar qualquer coisa. Preto Amaral, por exemplo, confessou até mesmo crimes que ocorreram enquanto ele estava detido.

No sentido de defender o direito à defesa (parece pleonasmo, mas não é!), a peça é tão engajada que no fim nos pede assinaturas em um abaixo assinado que pretende tirar Preto Amaral do Museu do Crime, já que seu suposto crime não chegou a ser julgado. Depois de colocar o tênis, eu assinei embaixo, porque até o engajamento pode ser criativo e quem sabe possa inclusive mudar alguns equívocos históricos.

3 sapatos brancos com chulé

PS: As fotos aqui expostas foram tiradas antes de algumas substituições realizadas no elenco. Portanto, se você não encontrar alguns destes atores quando for assistir, não se assuste.

O que a galera acha

6 comentários até o momento

  1. Maria Clara says:

    água na boca. gosto muito do trabalho do paulo faria. adoro a isadora em cena. e quero muito ver essa peça! belo texto o seu. beijomenina! ;)

  2. Juli =) says:

    Vai lá mesmo, menina, que vc vai adorar! Só não esquece de colocar uma meia bonitinha!rs

    Beijoca.

  3. plinio says:

    Juliene Codognotto é preciso citar a fonte, essa peça partiu de uma tese defendida na UNESP, Assis em 2003 pelo Prof. Dr. Paulo Fernando de Souza Campos.

  4. Juli =) says:

    Oi, Plinio, tudo bem?

    Obrigada por citar a fonte da peça por mim. E por me lembrar o que “é preciso”.

    Abraço.
    Juli =)

  5. maria da paixão says:

    olá estou necessitanto de ajuda, vou fazer um trabalho na faculdade baseado na peça os crimes do preto amaral, e eu não tenho a menor noção de como devo fazer isso, ou seja não vejo o preto amaral em orfeu, a istoria de orfeu é linda o contrário do preto amaral, que é uma vítima do preconceito do racismo enfim ainda não consegui ligar um ao outro.


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  1. Blog da Bacante » 15ª Edição do Fomento - 27. Aug, 2009

    [...] Os Crimes do Preto Amaral, da Cia Pessoal do Faroeste [...]

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