Lirismo engajado
Foto: Lenise Pinheiro
Ir ao Teatro Imprensa (leia-se Centro Cultural Grupo Sílvio Santos), passando antes pela porta do Teatro Oficina é uma experiência muito especial. O CCGSS é um lugar sofisticado, tão sofisticado que, em vez de fazer propaganda daquelas cantinas baratas que sempre apóiam o teatro alternativo oferecendo refeições aos artistas, expõe um belo cartaz onde lemos: “Rua Avanhandava, onde o espetáculo continua!” (eles só não comentam que, neste caso, para o espetáculo continuar é preciso gastar, em média, a módica quantia de 100 reais por pessoa!). E na fachada – que não parece estar muito de acordo com a Lei Cidade Limpa – bolinhas de Natal coloridas! Só pra completar o luxo. Uma verdadeira festa cultural.
Passado o sufoco de disputar o foyer com as muitas pessoas que lotariam a peça Hoje Eu Me Chamo Dinorá, sobramos eu e mais cinco para assistir Os Crimes do Preto Amaral, uma história que consegue ser lírica falando de eugenia, abuso sexual, crimes contra crianças e outros temas tão light quanto estes.
Antes de entrar, porém, é preciso trocar sapatos por pantufas – aquelas de médico ou de perito, branquinhas, meio transparentes. Tudo para não interferir naquele ambiente todo branco. E é todo branco mesmo: roupas, assessórios, chão, cadeiras… A partir daí, voltamos a 1927, numa bela mansão, cujos móveis estão devidamente cobertos por panos brancos, que podem simbolizar tanto a preservação da mobília, quanto a conservação dos vestígios de uma investigação criminal. Estamos de cara imersos num ambiente onde brancura e limpeza são sinônimos. Portanto, o único personagem que aparece vestido de preto (o Preto Amaral, claro!) é o símbolo da sujeira e da degeneração que era atribuída aos negros na época. Engraçado pensar que em algumas cabecinhas o termo higienização – muito recorrente na peça – até hoje tem esta conotação preconceituosa e facistóide. O projeto de “higienização do centro de São Paulo”, por exemplo, só se dá ao trabalho de substituir preconceito com a raça negra pelo preconceito com os pobres, o que, no fim das contas, acaba dando quase na mesma.
Preto Amaral, um negro que foi soldado e andarilho, filho de uma escrava, é considerado o primeiro serial killer brasileiro e assim está identificado no Museu do Crime. No entanto, o rapaz, que viveu num período em que a teoria eugenista se desenvolvia e ganhava adeptos na medicina brasileira, não teve direito a julgamento, pois faleceu antes, na delegacia, depois de sofrer muitas torturas.
Para contar essa história, a peça tem como base alguns personagens que representam não somente indivíduos, mas também opiniões deste período: o médico eugenista, a advogada humanista formada na Europa, a perua que só se importa com o Carnaval, o jornalista/artista que tem uma visão ampla, mas prefere não se envolver politicamente. Além deles, uma enfermeira que trata os “criminosos” após as torturas e tenta tranqüilizá-los, e um músico filho do médico e marido da advogada, ou seja, uma marionete que não sabe por quais mãos se deixará controlar – amor ou filiação.
As soluções cênicas são originais e impedem que a história se torne cansativa – é o caso das lâmpadas no cenário, as repetições de texto, as cenas que se sobrepõem, acontecendo no mesmo espaço, mas em tempos diferentes, etc. No entanto, a encenação não ousa em nenhum aspecto, nem radicaliza a linguagem. O que chega mais perto de radicalização é o uso do lirismo no tratamento de assuntos graves. A idéia de simbolizar as mortes com as roupas das crianças supostamente atacadas por Amaral é um exemplo disso: a mesma atriz volta como mãe de cada um dos meninos, variando apenas o sotaque e, a cada vinda, leva consigo as roupas do pequeno assassinado. Por sua vez, as crianças são representadas ora pelos próprios atores, ora por bonequinhos manipulados, evidenciando que o que está sendo contado ali é somente uma versão e não necessariamente a realidade.
Destaque para a cena em que todos os atores se tornam o primeiro menino atacado para contar, cada qual com seus trejeitos, o início da mesma história trágica. E merece elogios, ainda, a maneira singela como a advogada mostra que, sob tortura, é possível confessar qualquer coisa. Preto Amaral, por exemplo, confessou até mesmo crimes que ocorreram enquanto ele estava detido.
No sentido de defender o direito à defesa (parece pleonasmo, mas não é!), a peça é tão engajada que no fim nos pede assinaturas em um abaixo assinado que pretende tirar Preto Amaral do Museu do Crime, já que seu suposto crime não chegou a ser julgado. Depois de colocar o tênis, eu assinei embaixo, porque até o engajamento pode ser criativo e quem sabe possa inclusive mudar alguns equívocos históricos.
3 sapatos brancos com chulé
PS: As fotos aqui expostas foram tiradas antes de algumas substituições realizadas no elenco. Portanto, se você não encontrar alguns destes atores quando for assistir, não se assuste.


água na boca. gosto muito do trabalho do paulo faria. adoro a isadora em cena. e quero muito ver essa peça! belo texto o seu. beijomenina!
Vai lá mesmo, menina, que vc vai adorar! Só não esquece de colocar uma meia bonitinha!rs
Beijoca.
Juliene Codognotto é preciso citar a fonte, essa peça partiu de uma tese defendida na UNESP, Assis em 2003 pelo Prof. Dr. Paulo Fernando de Souza Campos.
Oi, Plinio, tudo bem?
Obrigada por citar a fonte da peça por mim. E por me lembrar o que “é preciso”.
Abraço.
Juli =)
olá estou necessitanto de ajuda, vou fazer um trabalho na faculdade baseado na peça os crimes do preto amaral, e eu não tenho a menor noção de como devo fazer isso, ou seja não vejo o preto amaral em orfeu, a istoria de orfeu é linda o contrário do preto amaral, que é uma vítima do preconceito do racismo enfim ainda não consegui ligar um ao outro.