Miseráveis e Barulhentos
Fotos: Maurício Alcântara
Certo dia entrei no Orkut e deparei com um sapeca e invasivo scrap-spam convidando para assistir ao espetáculo Os Miseráveis, em cartaz no Teatro do Ator, ali na praça Roosevelt. Certamente os responsáveis por esta divulgação (pouco ética, vamos combinar) não sabiam para que pessoas estavam mandando e acabaram caindo no scrapbook (ou livro de recados, pros anti-anglicismos) de alguém com a coragem de assistir àquele espetáculo que se definia como uma superprodução não-musical , com “linguagem de videoclipe”, da história de Victor Hugo.Também, não pude resistir ao argumento de que parte do elenco estava na mini-série A Pedra do Reino, que ainda nem tinha estreado (e que já havia enchido o saco – não agüentava mais ver a cara do Suassuna na tevê, e olha que eu nem assisto tevê).
Mas vamos à peça. Confesso que gosto (e bastante) do musical Les Misérables, sucesso da Broadway e que reinaugurou o teatro Paramount sob o nome de Abril, livrando-o da sordidez e decadência do cinema pornô e do teatro infantil. E confesso também que fui ao Teatro do Ator com a expectativa maldosa de ver uma versão não-cantada e com sérias restrições orçamentárias deste musical.
Não tem como negar que existe sim uma grande influência do musical de Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil (também criadores do Miss Saigon que estréia por aqui nas próximas semanas), sobretudo nos figurinos e na concepção visual de algumas cenas, mas chega a ser um exagero falar que é uma cópia (talvez Gerald Thomas possa afirmar, mas eu não me atrevo).
As soluções cênicas são eficientes e nada inovadoras, até porque inovação não é uma exigência do público do espetáculo e tampouco uma preocupação da produção. Mas se a peça se propõe a contar a história do protagonista Jean Valjean ela consegue, subretudo graças à figura do narrador com falso e forçado sotaque francês que encurta todas as passagens do texto. Por outro lado, este dinamismo (deve ser a tal da linguagem de videoclipe – que de linguagem de videoclipe não tem nada) não permite à montagem explorar nenhum dos personagens com profundidade.
É tudo tão rápido e mastigado que fica praticamente impossível enxergar os conflitos de Valjean, compreender o sofrimento e obsessão que levam o inspetor Javert ao suicídio ou o amor pueril da jovem Cosette pelo ingênuo, apaioxonado e revolucionário Marius. Esta linguagem é tão frenética que chega a mostrar apenas 5 ridículos minutos de revolução, como se esta fosse citada apenas porque não pode ser ignorada. Impossível de não se lembrar daquele website em que as histórias dos filmes são recontadas em apenas 30 segundos e interpretadas por coelhos.
O elenco é bastante irregular, com atores dos mais variados níveis, que insistem em falar alto, mas tão alto, que em vários momentos me lembrava dos encontros anuais de minha família portuguesa. Vai ver que eles estavam preocupados com a famosa velhinha surda da última fileira que todo mundo que faz teatro já ouviu falar na hora de projetar a voz. Só não sabia que ela era tão surda assim.
1 última apresentação no sábado que vem


É um prazer saber que há cobaias mais dispostas que eu. Aproveita e me manda o link desse stes com coelhos, adorei.
Já coloquei o link no texto. Abraços!