Funcionalismo teatral
Foto: Divulgação
Folhas secas, um balanço e um banco. Uma mulher deitada em cena. Seu vestido lhe deixa livre, ela usa sapatilhas. Entra outra mulher, vestida como uma executiva (ou será secretária? Não se especifica). Está feito o contraponto. A corporativa diz: “Flora!” e eu respiro fundo. Era um pouco óbvio o que estava por vir, afinal, pensei: “Flora? É o nome dela? E ela se chama Flora e por isso ela estava deitada nas folhas e tinha um vestido esvoaçante tipo-ninfa , e flores colocadas em seu busto?”. Bem, depois eu volto aí.
O nome do espetáculo: Os Ratos Soltos na Casa. A diretora: Carmen Beatriz. A autora: Patrícia Maês. O elenco: a mesma Patrícia Maês (Flora) e Fernanda Muniz (Celeste). A história: Celeste é irmã de Flora e vai visitá-la neste lugar que parece ser um “hospício” ou um “retiro” (a especificidade novamente não se faz clara). Isso porque Flora tem problemas de relacionamento (ou é louca, mas a especificidade, ah, a especificidade…). Porém, Flora ataca Celeste com muitas palavras e fica claro que as irmãs têm pendências entre si. Flora fala tudo o que tem direito e Celeste rebate. Depois, é Celeste quem tem a vez de dizer tudo (eu disse que era óbvio o que estava por vir). No final, as duas… Não vou contar diretamente.
Okay. Problemas: metáforas fáceis. Flora? Ah, então vamos colocá-la no chão sentindo a terra e com flores no cabelo. Celeste? Por que Celeste? Porque ela não põe os pés no chão, oras. Literalmente. Metade do espetáculo se dedica à seguinte dinâmica: Flora subjuga Celeste roubando-lhe os sapatos e esta última se posta em cima de um banco, com medo de sujar os pés. Flora tem como sua amiga a arte e Celeste, a corporativista, tem a formação higienista demais, suficiente até mesmo para limpar a própria irmã de sua vida.
O texto de Maês tem uma linguagem muito distante de qualquer espetáculo teatral. Parece mais um capítulo de Dawson’s Creek, em que, como disse o roteirista da série, Kevin Williamson, “eles falam com o coração”. Era exatamente o que Flora e Celeste faziam. Mas se na série a linguagem rebuscada até não soava pedante, em Os Ratos não é o que acontece. A verborragia também serve para esconder a fragilidade do texto. Um exemplo: Flora diz a Celeste que ela não tem coragem de pôr os pés no chão e fazer contato com a terra, mas ela mesma utiliza sapatilhas de bailarina. Outro: a certo momento, Celeste enlouquece literalmente, grita e diz que virou “Terrestre”. Deuses! Mais um: Flora enumera muitos dos defeitos da irmã, mas quando Celeste vai enumerar os defeitos de Flora, ela não consegue dar defeitos plausíveis, dizendo que sentia inveja da irmã por ela ser livre, visceral (palavra usada à exaustão no espetáculo). Mas peraí: uma alimentou rancor tamanho da outra por inveja juvenil e só? Estranho. E, finalmente, “os ratos soltos na casa” não fazem jus ao nome do espetáculo. Deu a impressão de que a autora achou bonito o nome e quis inserí-lo no texto como uma coisa suja que incomodava a personagem Flora.
Elenco: over demais por cima além da conta. Direção: Carmen Beatriz deu marcas e mais marcas. Uma atrás da outra. Senta no balanço, balança, pára, sobe no balanço, desce. Senta no banco, levanta, sobe no banco. As duas se colocam de frente para a platéia, uma sentada, outra em pé. Numa cena em que elas relembram uma noite, as duas ficam de costas uma para a outra e, quando uma delas fala, vira o rosto para a platéia e volta para, em seguida, a outra fazer somente o mesmo. Coreograficamente.
No final das contas, chegamos ao veredicto com facilidade: fazer teatro não é uma sucessão de falas espirradas com movimentos coreográficos a gosto. Pelo contrário, é preciso trabalhar e muito na arquitetura cênica e afinar cada ponto, com “visceralidade”, sim. Infelizmente, neste caso, encontrei um espetáculo tão burocrático quanto esta resenha.
1 rato provavelmente no subsolo do CCSP


