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Críticas

Os Troianos

por Marco Albuquerque

Nenhum Comentário 09 June 2009

Divagações sobre uma ópera

Foto: Raimundo Valentim

TROIANOS

Já ouviu falar daquelas lendas amazônicas? Do boto que saía do rio para engravidar as piriguetes? Do índio incauto que foi comido pela vitória régia? Da cidade de ouro perdida no meio da floresta? Infelizmente, nenhum destes mitos sobreviveu aos nossos tempos atuais de Google Maps, de Discovery Channel e, principalmente, de Canal Brasil.

Entretanto, restava ainda uma fábula sobre um espetacular teatro escondido no centro de Manaus. O intuito de verificar se ao menos esta história era verdadeira foi o que me levou até Manaus, pra conferir Os Troianos, ópera de Hector Berlioz e espetáculo integrante do XIII Festival Amazonas de Ópera.

Neste momento você, caro leitor, pode estar se questionando porque a Bacante está abrindo espaço pra falar de Ópera. Nós também não sabemos direito, mas encontramos ao menos três motivos pra tentar convencê-lo:

1 – Da mesma forma como acontece com um espetáculo teatral, uma ópera é realizada em um Teatro (esquecendo, claro, casos como o do Teatro da Vertigem, mas até eles já fizeram uma ópera.

2 – Da mesma forma como acontece com um espetáculo teatral, uma ópera também tem atores, cenários, figurinos, iluminação e trilha sonora. A ficha técnica de Os Troianos, por exemplo, reúne nomes conhecidos pelo seu trabalho na cena teatral.

3 – Da mesma forma como acontece com teatro, a gente também não é catedrático em ópera, mas mesmo assim vamos escrever sobre o assunto.

Esperando que você, caro leitor, já esteja convencido pelos nossos argumentos, abrimos espaço então para divagações sobre nossa expedição ao Teatro Amazonas e à Ópera.

Se você resolver conhecer o teatro de Manaus, já deixo avisado que não deve usar sua melhor roupa expedicionária ao estilo Indiana Jones. Explico: você será sumariamente barrado na porta do Teatro Amazonas, pois lá, na melhor tradição dos séculos passados, é completamente proibida a entrada de homens de bermuda (de qualquer tipo, marca ou tamanho). As mulheres, por outro lado, são muito bem vindas de saia (de qualquer tipo, marca ou tamanho). De qualquer forma, não deixe que isso estrague sua expedição: as simpáticas moças do teatro podem te arranjar, se você souber pedir com um sorriso, uma calça emprestada para que você possa assistir à Ópera. Por outro lado, se você for um boto disfarçado de ser humano, não precisará nem se dar ao trabalho de sorrir para conseguir a calça.

Depois de resolvido o problema do figurino e de ter a chance de conhecer o teatro (que faz jus à lenda), teve início a apresentação de Os Troianos, ópera com duração de 5 horas, divididas ao longo de 5 atos e de 2 intervalos. A ópera é tão grande que, apesar de ter sido montada pela primeira vez em 1863, só foi encenada em sua versão integral em 1890. O pobre do Hector Berlioz deve ter morrido frustrado em 1869, pois nunca chegou a ver sua ópera montada na íntegra. Por sinal, Hector Berlioz, pra quem não sabe, é francês e este XIII Festival Amazonas de Ópera é mais um dos eventos do Ano da França no Brasil. Fico contente ao pensar que a Copa do Mundo é só no ano que vem e que vai ser na África do Sul (o que me faz lembrar que talvez seja necessário checar se 2010 não é o ano da França na África do Sul, mas isso não vem ao caso aqui).

Conforme o espetáculo se desenrola, alguns preconceitos começam a cair. Apesar de possuir um ritmo muito mais lento do que o de um espetáculo teatral, esta ópera não é chata, pois seu visual (cenários, figurinos, etc.) prende a atenção em função das releituras que proporciona. Assim, por exemplo, somos surpreendidos em alguns momentos quando Orixás aparecem no palco. O mesmo ocorre com os soldados troianos, que possuem uma conotação indígena e com o coro grego, que remete diretamente às mães de santo e às cenas de candomblé. São diversas as tropicalizações, algumas mais felizes do que outras, mas em nenhum momento o espetáculo vira um samba do crioulo-doido.

Aqueles que estão acostumados aos musicais do Teatro Abril ou do Alfa (nos quais é permitido o uso de bermuda até porque, com o valor do ingresso, já é implícito que não foi por falta de calça que alguém resolveu ir com algo mais fresco…), podem até afirmar que os cantores líricos não são tão carismáticos como o Saulo Vasconcellos ou as crianças cuti-cuti, mas é inegável que você tomará um susto quando eles começarem a cantar, pois a voz deles não parece ser deste planeta.

É curioso também perceber que o programa da peça (o libretto) vem com uma explicação detalhada sobre o que acontece em cada um dos atos. E, logo que a ópera começa, percebe-se que aquilo é extremamente necessário pois, do contrário, você não entende o que está efetivamente acontecendo no palco. Por conta disso, quando a personagem canta pela milésima vez que Laocoon foi devorado pelo monstro marinho” você sempre pode recorrer ao programa para tentar entender quem é Laocoon e por que diabos ele foi comido pelo monstro marinho.

É neste momento que não consigo deixar de pensar que grande parte do teatro pós-dramático (especialmente aquele de qualidade duvidosa) deveria vir com um livrinho desses. Pra que a experiência possa ser completa, estas montagens questionáveis deveriam também estabelecer vários intervalos. Assim, a cada intervalo, você lê no seu livrinho a explicação sobre o trecho que acabou de assistir, lê o próximo trecho, se prepara para o que virá a seguir e ainda cogita se é o momento de fugir desesperadamente do teatro.

1 sugestão para facilitar a vida do público do teatro pós dramático

E você, o que acha?

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