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Críticas

Palhaços

por Fabrício Muriana e Juliene Codognotto

7 Comentários 18 February 2008

Quem é o Palhaço?

Fotos: Renato Silvestre

Pralhaços 1 por Renato Silvestre

“Artista é uma pessoa mais feliz que a gente”, arrisca emocionado o frágil personagem Bemvindo que acabara de entrar no camarim do palhaço Careta por um buraco na lona, logo após o encerramento do espetáculo. Com a presença surpreendente do fã, Careta perguntara a ele o que seria, afinal, um grande artista, deparando-se com a resposta hesitante do moço. A partir desta relação misteriosa e pouquíssimo cultivada entre artista e “fã”, a peça Palhaços, em cartaz no apertinho do Ópera Buffa, se desenvolve, confundindo a platéia entre momentos de risos ingênuos e escrachados, e drama radicalizado. Não sabemos quando levar a sério o engenhoso Careta. Será que quando Dagoberto tira o nariz ele está dando a moral da história e quando coloca está apenas fazendo piadinhas pueris? Não tão simples.

A idéia de que, por trás do nariz, o palhaço tem outra identidade completamente diversa não é pra ser levada assim tão ao pé da letra. Em debate recente no Galpão do Folias, Ésio Magalhães e Andréa Macera de A Julieta e o Romeu, acompanhados da especialista Bete Dorgam e da jornalista Beth Néspoli, tentaram com muita empolgação explicar que o palhaço é a radicalização das características que o artista encontra em si mesmo, ou seja, é como se o ator colocasse uma lente de aumento em detalhes de sua personalidade que, sim, são detalhes, mas que estão ali e serão a base deste clown. Além disso, esse proto-personagem plasmado ao ator pode aparecer das formas mais diversas: no circo, na rua, como função social, no palco, interpretando ou não outro personagem É com maestria, que Dagoberto coloca essa complexa relação do artista com seu palhaço na cena, dando vida a um e outro alternadamente e tornando impossível dissociar graça de maldade. E sobretudo fazendo-nos procurar qual é a máscara desse palhçao: com ou sem nariz?

Bemvindo, por sua vez, personifica a insegurança e a ingenuidade num vendedor de sapatos que faz telecurso para tentar ser promovido a gerente (definição de personagem que, aliás, daria um ótimo palhaço). Após ser abandonado pela noiva, vai ao circo para se divertir e esquecer as tragédias de sua vida medíocre e, no entanto, ao tentar cumprimetar seu ídolo com o discurso padrão do: “mu-u-u-u-u-ito bom, hein. Pa-a-a-a-rabéns!”, ele vivencia com ainda mais intensidade as dores porque passa em sua vida. Se, no palco, o palhacinho só fazia as palhaçadas suficientes para enganar a dor de Bemvindo, no camarim, ele o arrasta para uma reflexão, um olhar mais apurado sobre si mesmo. E tudo isso de uma maneira contagiante e involuntária. Quando se dispõe a explicar o que é ser ator, Careta usa a vida de Bemvindo como exemplo. Mas, claro, o vendedor de sapatos não se conhece naquele espelho trágico de sua vida, mesmo que o palhaço tenha usado todos os seus recursos “dramáticos, pós-dramáticos, épicos…”. As cenas são levadas até o extremo do trágico e do desastre desta relação público-artista.

E dá medo. Medo de pensar qual dos Dagobertos/Carecas é mais abundante na cena teatral, uma vez que este personagem traz, em si, o retrato de um monte de artistas diferentes e suas tentativas de atingir uma platéia, um outro que, no fundo, eles desconhecem quase que completamente. A arrogância, a humildade, o esforço sobrehumano pra agradar, as técnicas frustradas, a esperança de incluir em seu repertório experiências pessoais do púlico pra que ele se reconheça, a vontade (reprimida quase sempre) de despertar ago além do riso anestésico. O público, por outro lado, é uma grande massa inerte, moldável, ingênua, pronta pra ser transformada a cada espetáculo e, quem sabe, ser convencida a abandonar a loja de sapatos e fugir com o circo, como sonhara na infância. Essa pessoa existe? É, em última análise, pra ela que se faz teatro?

palhacos-2-credito-renato-silvestre.jpg

Essa crítica será interrompida nesse momento. Não porque não seja possível seguir na análise. Mas porque existe alguma coisa ali de proximidade promíscua com a vida que torna a obra mais aberta e ao mesmo tempo mais próxima do que o usual. Essa busca por mecanismos que nos tirem a apatia imposta normalmente ao público está presente também em An Oak Tree, Manifiesto de Niños, Arrufos (a nova montagem do Grupo XIX de Teatro), Besouro Cordão-de-Ouro, Braakland e diversas outras montagens sobre que escrevemos aqui, mas sempre de formas inesperadas e utilizando, sem vergonha ou restrições, muito do que há de mais tradicional, mas de maneira transformada. Essa pausa vem sublinhar que Palhaços também encontrou seu mecanismo pra chegar ao público e à vida ao mesmo tempo. E isso é indefinível em palavras por enquanto.

60 segundos de silêncio em razão da morte anunciada do velho teatro e sua transformação em adubo

O que a galera acha

7 comentários até o momento

  1. Rodolfo Lima says:

    Muito bonito a forma como vocês se colocaram em relação ao espetáculo. Não precisava citar outras espetáculos para exemplificar a magnitude que “Palhaços” nos causa. Se houvesse uma meia dúzia de peças como essa em cartaz, com certeza, vocês deixariam o humor de lado. Por falar nele… cadê o humor neste texto?
    hauhauahauahauha
    abraços!

  2. Fabrício Muriana says:

    É, preciso voltar a ler o Ary Toledo. Emprestei pra Leca, mas ela não entendeu nada. Por sorte a Julie tá fazendo oficina de mesa branca com o Arrelia e o Maurício segue fazendo amigos no stand-up comedy. Devagar a gente vai voltar a fazer humor. Aguarde.
    Abraço.

  3. A muito tempo assisti a peça de vcs no SESI em sorocaba e fiquei maravilhado. Vocês dois, são ótimos atores.
    Gostaria muito de saber se vocês continuam apresentando e onde estão apresentando. Adoro Timochenco Wehbi.
    Parabéns, vocês são ótimos!

  4. Paulo says:

    Simplesmente o maximo… Dois Monstros!!

  5. Rebiscoito says:

    Muito bacana essa crítica.
    Legal ver alguém escrever coisas que tb pensei sobre a peça.

    Vou pesquisar bastante sobre o Danilo Grangheia pq achei ele um dos melhores atores que já vi. Quero ir em todas as peças que ele estiver, ele é incrível!
    Os 2 eram bons mas nossa…Ele não me sai da cabeça de tão bem que construiu seu personagem!

    Vou até ver de novo, não sei que dia ainda mas vou.
    Bjs!

  6. Juli =) says:

    Que bom poder dialogar contigo. Com relação ao Danilo, te indicaria Cardênio, peça mais recente do Folias, mas não está em cartaz agora… fique esperta pra ver se volta! E, teve também um episódio do projeto Direções, da TV Cultural, que tinha ele, o Dagoberto, e outros caras incríveis. Olha o link: http://www.tvcultura.com.br/direcoes/index.php?section=direcoes-2-3

    Beijos e boa sorte na procura…

    Juli =)


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