Críticas

Paraíso sem Consolação

por Maurício Alcântara

1 Comentário 08 July 2008

sampacenacontemporanea

A proposta de Paraíso sem Consolação é ousada: falar sobre a cidade de São Paulo através de um espetáculo de dança que não é exatamente um espetáculo de dança, mas uma mistura maluca de dança, teatro, música e vídeo. A responsável é a coreógrafa Constanza Macras, argentina radicada na Alemanha e diretora da companhia Dorkypark, que esteve ano passado no Brasil com o também maluco Big in Bombay.

Desde o início, são apresentadas contradições e características da paulicéia que já são tão comuns para quem aqui vive que sequer notamos: vídeo mostrando infinitas misturas natureza+concreto (ao som artificial de passarinhos), diferenças sociais e raciais, o espírito workaholic non-stop da cidade, os congestionamentos, a solidão dos habitantes, as guaritas de segurança, os impactos da lei cidade limpa (que ao mesmo tempo considera grafite e propaganda a mesma coisa) numa cidade que ainda não sabe ser limpa, e até mesmo duas dançarinas que, com a ausência dos outdoors, passaram a dançar nas ruas para promover marcas – aparentemente absurdo, mas não muito diferente dos atores que há algum tempo eram algemados em pontos estratégicos da cidade para promover uma série da tevê paga, por exemplo.

A leitura da cidade é legítima, feita sob uma ótica irreverente e, como não poderia deixar de ser, bastante “contemporânea” (eita, palavra da moda). Mas quão reveladora é esta leitura ao menos para quem vive na cidade retratada? Que novas os atores-dançarinos propõem ao público paulistano? E a quem não é de São Paulo ou não conhece a cidade, que tipo de diálogo a produção é capaz de propor?

Big in Bombay falava de Mumbai, na índia, mas também abrangia o estrelato/anonimato no showbusiness, a dominação cultural e deglutição dessas culturas, resultando em filhotes híbridos estranhos – caso do cinema feito em Bollywood à sombra de Hollywood mas incorporando figurinos, músicas e sobretudo danças locais – e criando para si uma dominação cultural sobre os mercados alcançados por seu cinema. No caso de Paraíso sem Consolação, apesar da linguagem do espetáculo ser a mesma, vemos no palcão do Teatro Paulo Autran muito pouco além dos estereótipos padrão sobre a cidade e quem vive nela, com conceitos muito menos elaborados do que no espetáculo anterior.

Na volta pra casa, um pouco decepcionado com o que eu tinha acabado de ver e irritado com o congestionamento na avenida Rebouças em plena noite de domingo, ficava pensando em o que eu retrataria em São Paulo para fugir dos clichês. E meu carro, vagaroso, parava a cada movimento, como os corpos dos atores que, na única cena que parecia ter algum conceito mais bem-explorado, se arrastavam no chão, cada um se movendo/falando por vez, seguindo seu próprio microfone que era puxado por um longo e interminável fio. Será apenas a abordagem do espetáculo, a visão dos artistas (na maioria brasileiros) envolvidos, ou será que eu vivo numa cidade que é realmente um grande e superpopuloso clichê?

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1 comentário

  1. Edu carvalho says:

    assisti o espetaculo e concordo com os ditos clichês, mas esses mesmos não me incomodaram, pensei, ja vi isso, mas gostei, senti o elenco positivo, não sei, foi uma noite bacana, onde vimos o que já sabíamos, mas que mesmo assim não deixou de ser agradável.


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