Críticas

Paulo Francis está morto

por Fabrício Muriana

4 Comentários 04 February 2008

Mataram Paulo Francis

“Outro dia uma velhinha de 80 anos me chamou de safado. Mas era de uma forma carinhosa. Ela também tinha uma cara de safada”, declarou Paulo Coronato, em entrevista exclusiva ao site Gente e TV, do portal Terra.com.br. Autor e ator da montagem de Paulo Francis está morto, Coronato interpretava, na época desta declaração, o taxista Caetano, que pegava três mulheres ao mesmo tempo na novela Mulheres Apaixonadas. Caetano parecia ser um personagem muito mais niestzscheano do que o atual Hugo Hoffman (espero ter acertado o nome do protagonista da peça), e o estranho é que não faltam referências ao bigodudo ao longo da peça. Vamos pensar um pouco.

Que tipo de relação quer se estabelecer quando é montada uma peça cujo protagonista luta contra a mediocridade do teatro comercial, sendo interpretado pelo mesmo ator que fez Caetano, da novela das oito? Como fazer desse conteúdo crítico também uma forma crítica, capaz de mostrar que o fosso da mediocridade está muito além do que vem como discurso na televisão? E o pior: como fazer tudo isso não parecer uma porção de tremoço no palco do Teatrix?

Paulo Francis está morto lembra Jack Nicholson sustentando um menino pobre na África em As confissões de Schmidt, e se correspondendo com ele pelo correio na procura de algum sentido em sua vida. Lembra também O sol de cada manhã, filme em que Nicholas Cage interpreta um apresentador da previsão do tempo. Em ambos, os personagens se sentem culpados de alguma forma pela vida medíocre que levam ou levaram. Sabe esse pessoal que a gente encontra aos montes por aí? Que promete a vida inteira fazer algo relevante, ou se propor ao diverso, mas que nunca encampa de verdade uma guinada?

A peça mostra um encontro improvável entre uma ex-celebridade-momentânea-do-big-brother e um ator famoso (Hugo, interpretado por Coronato) num palco, momentos antes de um ensaio. Ela propõe um pacto fáustico por uma peça protagonizada pelos dois e patrocinada pela Petrobras (feliz crítica à lei Rouanet). Ele primeiro diz que não, mas titubeia. Tudo feito com o mesmo naturalismo presente nas peças que assisti de Sérgio Brito, que viu o espetáculo a duas cadeiras de distância.

Paulo Francis (aquele do título, que vai virar piadinha na peça) pode ser uma chave na procura desta forma que seja crítica sem ser culpada. Um cara que foi ator, crítico teatral (vejam vocês porque era tão odiado), passa a editor de cultura, é exilado, e assume um papel medíocre de comentarista da Rede Globo, sem, no entanto, demonstrar culpa no que fazia. Paulo Francis, em lugar de Hugo, não titubearia em dizer que sim ou que não, porque titubear é muito triste, é como ficar em cima do muro. Paulo Francis, em lugar de Coronato, não titubearia em fazer o personagem que pega três na novela das oito. E, ao fim e ao cabo, não sentiria culpa pelo que fez.

2 ótimos diálogos ao telefone

Confira também o que o Nelson de Sá comentou da peça, aqui.

O que a galera acha

4 comentários até o momento

  1. Isabela says:

    Quem é vc?
    O que já fez em teatro?
    O que vc entende de sobreviver da nossa profissão?
    Quem paga suas contas?
    Que crítica é essa que não fala sobre a direção da brilhante Denise Weinberg?
    Que bom que a montagem te deixou revoltado…
    Vai lá fazer a globo, tão sonhada de todos e depois a gente conversa..
    É muito fácil dar uma de “bicho grilo” da praça roosevelt, criticar quem fez. Mas vc já viu alguém que fez e refletiu depois?
    Reflita vc agora porque Paulo Coronato escreveu Paulo Francis Está Morto..
    Culpa? Vc realmente não conhece CORONATO!
    Um beijo!

  2. Fabrício Muriana says:

    Realmente eu não conheço.
    Outro beijo.

  3. Flavia Garrafa says:

    Aí Garotada!
    Quem sabe faz….
    Quem não sabe, critica!
    hahahahahahahahahahahahahahahaha

  4. Fabrício Muriana says:

    É verdade.
    Vide Paulo Francis.


E você, o que acha?

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