“Um corte não é uma fatia!” ou leitura dramática a 20 reais
Versão 2 – estendida
É comum que as pessoas, sobretudo os artistas, fiquem bravas quando a gente fala do preço das coisas, sobretudo do preço da arte, como se estivéssemos procurando atribuir à arte um valor estritamente material. Eu até pediria desculpas por mencionar assim, logo no título, os vinte reais que cobram por Peças, em cartaz no Ágora. No entanto, não me desculpo. Primeiro, porque essa valorização material ou financeira não é invenção minha e está fora do meu controle, estabelecida e mantida, inclusive, pelos próprios artistas. Depois, porque a montagem Peças, se a virmos como produto, talvez não devesse ser vendida como peça – por motivos que desenvolvo neste texto – nem por vinte reais, considerando que ali mesmo, nas salas ao lado, há outras montagens por dez reais.
Evidente que a questão não é o valor, mas é importante vê-lo também como reflexo, inclusive, da maneira como o próprio artista vê sua obra. Peças é anunciada como a primeira encenação no mundo de um texto da revolucionária artista Gertrude Stein, escrito – vejam só – em 1934. Não se trata, no entanto, de nenhuma das cerca de 80 dramaturgias escritas por ela, mas de um texto teórico – arrisco-me a dizer acadêmico – sobre o teatro e “o que se sabe sobre ele até o momento”. Sem pretensões cênicas, o texto tampouco é tranformado em cena nesta adaptação.
É transformado, isso sim, em gestos marcantes do ator Luiz Päetow e em alterações de voz que atraem no início e espantam no fim, mas não em cena. Ao tentar interpretar com poesia o texto, os responsáveis pela montagem acabam criando um híbrido entre uma palestra ruim e uma montagem pobre, cujos sentidos não chegam ao espectador.
Não estou dizendo, fique claro, que a atuação de Luiz é ruim ou fazendo qualquer julgamento desse tipo. Até porque não acho que vem ao caso. Se viesse, eu diria que ele construiu um personagem que causa estranheza, é complexo, tem atitudes corajosas, embora pouca variação. No entanto, sozinho, palestrando por mais de uma hora, seu personagem se reduz a um discurso didático-chato.
Também não me atreveria a dizer que o texto de Gertrude não tem potencial para ser discutido ou que não traz contribuições aos que querem pensar o teatro. Aliás, me atreveria, claro, se fosse o caso. Não é. O texto toca em questões que surgiram naquela época e que continuam relevantes até hoje, como é o caso da crise do teatro cuja estrutura se baseia no drama burguês, do momento em que as narrativas tradicionais se tornam insuficientes para mostrar o mundo complexo em que vivemos – até porque, como é apontado num trecho de Peças, todo mundo ouve histórias o tempo todo, é como se todo mundo já soubesse de todas as histórias.
A ruptura com as velhas maneiras de fazer teatro acontece por volta de 1970, segundo o livro aclamado-graças-à-edição-da-Cosac Teatro Pós-Dramático, de Hans-Thies Lehman. Entes disso, porém, já estava expressa nas vanguardas do início do século – das quais Gertrude faz parte – que combatia, entre outros modelos, o textocentrismo. Então, Luiz e o diretor Márcio Aurélio escolhem, para transmitir toda a criticidade desse texto, justamente um formato completamente textocêntrico – ajudado apenas por alguma luz, um barulho de cachoeira para dar vontade de fazer xixi e um espelho, além das plantas do Ágora. Contraditório, não? Mais contraditório ainda é vender ao público uma peça que não foi montada e que não deixou de ser uma palestra voltada estritamente aos especialistas.
77.777 palavras por minuto, mas ditas sílaba a sílaba.


Entes disso, é foda…!!!!!!anarfa!
Ai, Jilmar, você percebeu? Mil perdões. Há cerca de um ano, o pessoal aqui da Bacante me deu uma chance. Nessa época, eu era analfabeta e eles me receberam de braços abertos. Então, tenho me esforçado muito para aprender a escrever corretamente, sem cometer nenhum erro, nem de digitação. Você não acha que a crítica pode ser um bom espaço para começar o beabá? Nossa, graças a Deus que o pessoal da Bacante foi democrático e me deu essa chance que vai mudar a minha vida! Quem sabe então eu nunca mais escreva Entes quando quiser escrever Antes!
Aproveitando, agradeço muito a atenção que você e a Laura deram à minha crítica, fazendo até fila pra postar do mesmo computador! Que bonito é compartilhar!
Um abraço (é com dois esses ou com ç, hein?)
Juli =)
Quanta bobagem…