“Acabou a palhaçada”
- disse uma sábia menina loirinha (vou chamá-la de Alice), que minutos antes abrira o berreiro de medo das duas palhaças em cena na peça Pelo Cano. Tava certa a Alice, não pelo medo, mas pela constatação, já que este foi o último espetáculo da II Palhaçada Geral, evento que podemos explicar como sendo… hum… “uma reunião muito séria de um monte de palhaço”, ou talvez “um encontro de gente que leva palhaço a sério”, ou ainda “mostra com piada pronta incluída”.
Organizada pelos Parlapatões com ajuda $celestial$ do Fomento, essa palhaçada aconteceu de 30 de julho a 3 de agosto – isso mesmo, estou escrevendo com atraso, e daí? Ano que vem tem outra mesmo, de modo que iesse suposto atraso, na verdade, demonstra o pioneirismo de fazer a retrospectiva da Palhaçada 2008 muito antes de ter chegado a de 2009 (sabe aquela história dos jornalões de “conforme anunciamos com exclusividade”?). Enfim. Vamos ao número, já que dizem que leitor adora número. Foram: 1 festa de encerramento (na Gambiarra, aquele forfó semanal “comandado”, segundo release, “pelo ator e já bem sucedido empresário da noite, Alex Gruli” – clap, clap, clap), 5 peças (entre as quais, A Julieta e o romeu, desta vez vista num teatro lotado), 4 cenas dos grupos considerados os melhores do II Festival de Cenas Cômicas, 2 cabarés – 1 adulto e 1 infantil (!) – e, vejam só, 1 parte séria (!), com: 1 lançamento de livro, 2 debates, 1 exibição de documentário e 1 roda de conversa. Não contei os narizes presentes, mas certamente havia menos do que o esperado. Deve ser o tal do respeito à máscara. Claro que fez falta ver um monte de palhaços andando de boa pela Rússvel, até porque faria parte do imaginário que se pode construir a respeito de um encontro de palhaços. Por outro lado, este evento fica marcado por seu potencial em promover encontros muito específicos e potentes entre pesquisadores cujas atividades artísticas têm muita afinidade. Assim, no lugar de um monte de nariz, o que se viu foram trocas de referências e endereços de email e, sobretudo, conversa de buteco, que é o que pode haver de mais produtivo num grande encontro.
Mas, como eu já tô cansada de números e frustrada porque não consegui ver nem metade dessa palhaçada toda, vamos mudar de assunto. Na verdade, vamos começar agora o assunto, que é a montagem Pelo Cano, da Cia. do Quintal, uma peça caracterizada, principalmente, pela resignificação de objetos cênicos e em alguns casos, por conseqüência, pela resignificação sutil de valores padronizados.
O foco da brincadeira são os instrumentos musicais, mas, em paralelo, outros assuntos ganham destaque porque são expostos com originalidade e aquela ingenuidade da palhaçaria capaz de desmascarar nosso próprio ridículo. A maneira como as duas palhaças lidam com o dinheiro no início do espetáculo, por exemplo, mostra, por meio de uma situação improvável e ridícula, o quanto é no mínimo esquisita uma sociedade que baseia todos seus valores e anseios em pedaços de papel (Claro que ser papel nem é a grande questão, já que o capital que considero aqui é muito mais virtual do que de papel, mas considere você leitor o potencial poético do papel e ficamos por isso mesmo). Então, o papel que era dinheiro vira colagem, que vira brincadeira, que vira uma pessoa articulada que faz malabarismos em fita crepe e que – sem qualquer censura a temas como a morte – bate a cabeça e morre, com a mesma naturalidade com que os carrinhos dos moleques batem na parede a cada cinco minutos durante qualquer brincadeira.
Enterrada a nota-de-cem-colagem-gente, a brincadeira passa a ser a de uma assustar a outra. Acabam assustando a Alice, que chora de medo do fantasma da nota de cem. Mas as palhaças lidam bem com a situação, a Alice para de chorar e vamos ao resto do repertório.
Entra em cena o cano. E o cano faz música. E a música está acompanhando os gestos mais simples, está brincando, está acessível. Além de estar divertidíssima, claro, seja na bunda amarela que é realmente amarela de uma das palhaças, seja na sutil brincadeira do Sítio do Pica-Pau Amarelo (e eu que no começo da música achei que era falta de originalidade!) – atenção, isso é piada interna. Se você não viu a peça nem adianta tentar entender.
De repente, quando achávamos que nada mais entraria em cena – depois de violão, violino, flauta e cano – entra uma TV. E, pra nos distrair, um vídeo sobre o único animal na natureza que é monogâmico como o homem. Um bicho quase tão esquisito quanto o apresentador do documentário. Ao fundo, as palhaças começam a montagem de um novo cenário, todo em fita crepe. E está feita uma casa com porta, mancebo, criado mudo e cobertor. Tudo sugerido, pra deixar a imaginação completar. E o melhor, nem precisa dizer “crianças, não tentem isso em casa”, porque fita crepe não queima, nem corta.
4 cambalhotas pro Barracão que nos avisou da Palhaçada

