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Críticas

Primavera

por Marco Albuquerque

1 Comentário 01 April 2008

Papo de adolescente

Foto: Rafael Pogo

Despertar da Primavera é uma das peças do momento na Broadway, campeã de bilheteria e vencedora de 8 Tonys (não o Ramos, aquele peludo da Rede Globo, mas o Prêmio Tony, também conhecido como o Prêmio Shell norte-americano). É curioso que, em 2008, possa ser considerado atual e possa chamar atenção um texto escrito em 1891 pelo alemão Frank Wedekind, que tem como temas principais a repressão social imposta aos adolescentes em relação à descoberta da sexualidade e aos demais problemas causados pela falta de domínio sobre os próprios desejos. Talvez seja um sinal dos tempos….

primavera

O texto de Wedekind foi selecionado pelo grupo de adolescentes do Pequeno Teatro de Torneado como objeto de uma pesquisa que busca desenvolver uma linguagem teatral para jovens, intitulada “Dramaturgia dos Moleques”. O resultado desta pesquisa é o espetáculo Primavera, integrante do Fringe do Festival de Curitiba.

O espetáculo atrasa meia hora (em função de um problema com a iluminação) e se inicia com apenas 8 pessoas na platéia. O público se acomoda em sofás nas laterais do espaço cênico, que é coberto por folhas secas e rodeado por uma cortina branca transparente, que delimita a área do espetáculo (da qual o público faz parte) e a separa de uma ante-sala que atravessamos e que contem uma mesa com balas, sanduíches e refrigerantes.

O espetáculo começa com o elenco (formado por 4 garotos e 4 garotas, com idades variando entre 12 e 18 anos) cantando uma música já ouvida muitas vezes no Teatro Oficina. A seguir, todos se deitam no chão, barrigas para cima, formando um círculo. Todo o contexto me remete ao Teatro Oficina, em versão adolescente, quase que um Oficina Kids. O diretor entra no espaço cênico e pede aos atores para que não deixem que o caos os contamine e deseja-lhes um bom espetáculo. Neste momento eu começo a ficar apreensivo. O elenco, ainda deitado, começa a explicar ao público que fazem parte de um grupo que pesquisa o teatro para jovens e informam, entre outras coisas, que o espetáculo possui 3 horas (e não os 90 minutos divulgados pelo Festival) e que deve ser encarado como uma preparação física para Os Sertões e Les Éphémères. Contam que, em sessões anteriores, poucas pessoas ficaram até o final e pouquíssimas ficaram acordadas até o final… Ao ouvir isso, o meu sentimento de apreensão já está me sufocando e tenho vontade de sair correndo. Quando eles informam que a peça terá um intervalo, eu relaxo um pouco e me permito assistir o início da montagem e, dependendo, prometo a mim mesmo que sairei no intervalo para assistir uma outra montagem que havia me programado para assistir às 18:00.

Assim que o espetáculo começa, a minha apreensão some e sou envolvido pelo que vejo. Os 8 jovens atores apresentam uma maturidade que surpreende para a pouca idade. O domínio do texto, o trabalho vocal e corporal e a energia empregada em cada cena fazem com que o público mergulhe na história que é contada. Uma das atrizes, vestida de noiva, sai por sucessivas vezes do espaço cênico e percebo que ela é a responsável pela operação da luz. Todos os atores também são responsáveis por parte da iluminação do espetáculo, uma vez que carregam lanternas que são utilizadas em diversas cenas, compondo belas imagens e facilitando a criação de um clima intimista entre elenco e platéia (afinal de contas, éramos 8 de cada lado…)

Além de interpretarem os próprios adolescentes, os atores também interpretam os pais e demais “adultos” do texto. Um pano branco é trocado entre os atores e, ao ser amarrado na cintura, indica qual ator está interpretando o papel de um adulto. É uma convenção simples, mas que funciona.

São diversos os momentos que impressionam visualmente: as aparições da avó de Marta, a fábula do rei de duas cabeças e da rainha sem cabeça, o momento em que os pais bebem chá e conversam sobre a representação teatral dos filhos, a morte de Moritz enquanto o elenco canta “Peixinhos do mar”, entre muitos outros. A morte de Moritz também inicia uma outra convenção interessante: quando sua personagem morre, o ator quebra a quarta parede, conversa com o público e corta um fio que mantém uma fruta suspensa, que cai e se despedaça no chão, e o ator, não mais a personagem, pega sua mala com todos os seus objetos e sai de cena, desejando merda aos demais atores e informando que vai pedir uma pizza ou algo do tipo. Este ritual vai se suceder com as demais personagens, que sofrem as conseqüências dos seus desejos e vão saindo de cena, uma a uma, enquanto as frutas vão se despedaçando. A convenção atinge seu ápice quando, após a morte de sua personagem durante um aborto, a atriz que faz Wendla explica ao público que teve grande dificuldade em fazer aquela cena, pois tem apenas 14 anos e nunca fez um aborto antes. Diz também que optou por fazer uma cena não muito realista, sem recursos cênicos que indicassem sangue, pois tinha procurado respeitar o tempo de sua carreira. Não tem como não ficar impressionado com a simplicidade e a veracidade do que ela diz.

Fica, entretanto, a questão com relação à duração do espetáculo: previamente divulgada como 90 minutos. O espetáculo foi iniciado com um atraso de meia hora, ocasião em que o elenco informou que o mesmo duraria 3 horas, que se estenderam para praticamente 4. Preso pelo que assistia, desisti do espetáculo que pretendia assistir às 18:00, mas fui obrigado a deixar o teatro antes do final de Primavera. Encontrei o diretor em meu caminho para sair do teatro e fiquei sabendo que só faltavam oito minutos para o final do espetáculo. Infelizmente, compromissos previamente assumidos me obrigavam a sair naquele instante. Quando saí, restavam apenas 2 dos 8 espectadores que iniciaram a sessão quase quatro horas antes.

Apesar da duração da montagem, o elenco ainda teve fôlego para fazer uma outra apresentação de Primavera às 21:00. Confesso que eu é que não tive fôlego para voltar à 1:00 da manhã para assistir aos 8 minutos finais… Mas pretendo matar minha curiosidade: o espetáculo deve voltar a entrar em cartaz em maio, num lugar ainda a ser definido e provavelmente em versão mais enxuta. Estarei lá pra conferir.

8 minutos que ficam para as Cenas dos Próximos Capítulos

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Marco Albuquerque

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1 comentário

  1. André says:

    O público foi despedaçando na mesma velocidade dos personagens da peça pra balancear.


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