O Amor Segundo Beckett
As imagens desta peça só entram na próxima terça-feira, em respeito à semana iconoclasta.
Para muitas pessoas, monólogos são sinônimos de peças chatas e monótonas, em que uma única pessoa fica o tempo inteiro sozinha no palco, tentando suprir a falta de outros personagens. Certas peças até se encaixam nessa definição e embasam essa má impressão. Não é o caso de Primeiro Amor, em cartaz no Tucarena, em Perdizes.
A montagem rendeu o prêmio Shell de melhor ator em 2006 a Marat Descartes, que interpreta o personagem com todas as ironias, explosões e sutilezas exigidas pelo papel. Ele convence na pele de um homem egoísta, que não é capaz de ser gentil nem com a mulher amada.
Na história, um homem solitário, desprezado pela família após a morte de seu pai, se apaixona por uma moça pela primeira e última vez. Todas às noites, ele encontra Lulu em um banco e, sem conseguir controlar seus sentimentos por ela, começa a projetar nela todo um repúdio pelo o que ela faz e representa. Mas suas atitudes apenas o fazem machucar os dois.
A relação estabelecida entre eles representa um desejo dele de retornar ao conforto familiar, da época quando o pai ainda era vivo, de quando tinha seu quarto e podia se refugiar lá, sem precisar conviver com as outras pessoas. Talvez, seu primeiro amor mesmo tenha sido pelo pai.
O cenário é composto apenas por um banco, tipo o da Praça é Nossa, no meio do palco do teatro de arena. Contudo, o que ajuda bastante a dar o clima da peça é a iluminação. Este recurso cênico define as transições entre os diversos momentos do espetáculo, muda o tom da cena de acordo com o texto e trabalha também com a silhueta do ator, quando este recria gestos característicos de Lulu.
O escritor Samuel Beckett constrói mais um de seus personagens alheios à sociedade, que não consegue se relacionar com outras pessoas, nem suprir seus sentimentos. Assim, ele apenas vai vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo, vivendo e vivendo sem realmente conseguir viver.
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