Um dia diferente. Ou não.
Neste domingo que passou, Dona Alzira acordou sentindo-se muito esquisita. No café da manhã, em vez do iogurte light 0% de gordura de todos os dias, ela sentiu uma incontrolável vontade de comer pão com manteiga. Aproveitou e comeu também um sonho de padaria. Mais tarde, por volta das dez da manhã, foi fazer seu passeio matinal e, em vez de seu cachorro, Toby, carregou consigo o periquito José. As novidades não pararam por aí. Almoçou no quintal e, em vez do cochilo pós-rango, comprou uma cama elástica e pulou o resto da tarde. Toda a rotina dominical de Dona Alzira estava diferente e ela sequer sabia por quê.
Então, por volta das 22h50, Dona Alzira – que sempre dormia antes das 22h – continuava insone diante da TV. Num esforço violento, decidiu mudar de canal e, depois de muitos e muitos anos sintonizada na programação da Rede Globo, sua televisão – nossa! – mudou para a TV Cultura.
Surpresa consigo mesma, Dona Alzira manteve-se lá, quietinha, olhos arregalados. Sentiu um certo conforto ao ver a Cris Couto, que já conhecia do Vídeo Show, realizando uma entrevista com representantes de diversas religiões. Ela tentava discutir a “contemporaneidade” ou algum outro destes temas infinitos. Dona Alzira cochilava.
Então, uma programação a assustou. Chamava-se “Projeto Direções” e falava em experimentação em teledramaturgia. “Experimentação…” – pensou. “Sempre que eles dizem isso vem alguma coisa maluca”. Não veio. A agitação de Dona Alzira passou logo nos primeiros minutos e ela já começou a reconhecer por ali traços semelhantes. É possível que Dona Alzira não soubesse, mas ela reconhecia, por exemplo, a iluminação sem contrastes, típica da sua novelinha das oito – aquela luz que não diz nada, não dialoga com a cena, mas está sempre lá, sempre do mesmo jeito.
No fim das contas, impressionada com a história circense interpretada por atores que “ai, eu conheço de algum lugar…” e, ainda, muito feliz porque o ajudante geral subiu na vida e virou o palhaço Zabobrim, Dona Alzira pôde dormir feliz e sossegada, pensando que “é, até que não foi um dia tão diferente assim…”.
1 Circo com cara de Castelo


Como a Dona Alzira, acabei ficando em casa (e não tomando cerveja) no domingo à noite, e pulando de canal em canal, estacionei em “Direções”.
Apesar da cara de poucas experimentações e do “eu já vi em algum lugar” (até mesmo cenas, como o número da escada do Zabobrim), é bacana ver que tão tentando dar uma cara pro tal tele-teatro (mesmo que cada episódio seja bem diferente esteticamente) e melhor, em um grande meio de comunicação (mesmo que seja uma TV pública).
Quanto a luz, me lembrou o circo de antigamente, com uma luz geral do picadeiro à arquibancada. Será que a Beth Doram não cansou da luz contrastante e a cara de contemporaneidadede do Cique du Soleil (e de seus seguidores, um em cada esquina)? Vai saber!