Críticas

Psicose 4h48

por Juliene Codognotto

3 Comentários 10 September 2007

Doença universal: a cura é Jesus

Foto: Divulgação

Tryptanol, Amytril, Amitriptilina, Zyban, Wellbutrin, Zetron, Bupropiona, Cipramil, Procimax, Denyl, Citalopram, Duloxetina, Lexapro, Escitalopram, Prozac, Verotina, Eufor, Fluoxetina, Paroxetina, Venlafaxina. Calma, não é aquela música do Arnaldo Antunes cheia de doença, que os Titãs gravaram. Na verdade, nem é lista de doenças, mas de remédios antidepressivos. Certamente a lista de Sarah Kane, declamada na peça Psicose 4h48 em cartaz no Satyros 2, é maior e mais precisa do que esta, que eu mesma preparei. Isso porque Sarah tem mais conhecimento de causa, afinal, esta que foi sua última obra é quase uma auto-biografia. A personagem, sem nome (o que são nomes, não é?), é quase um retrato do desespero que a própria dramaturga sentia. Uma diferença, no entanto, é essencial: a Sem-Nome consegue suicidar-se com remédios ao passo que a autora, depois de ter a tentativa “química” frustrada, teve que recorrer a um cadarço de All Star. O Ministério da Saúde adverte: cadarço de tênis pseudo-cult pode causar danos irreversíveis à saúde.

O diretor Marcos Damaceno e a companhia que leva seu nome (modesto isso, né?) devem ter sido, pelas minhas contas, os septingentésimos septuagésimos sétimos a se apaixonar pela obra da Sarah e achar, como diz o programa, o tema urgente e importantíssimo na nossa sociedade. (Antes de continuar, como os programas são temas freqüentes na Bacante – sobretudo nos textos da Dani – cabe ressaltar que, neste caso, eles acertaram. Nada de genial, simplesmente colocaram um texto de quem entende da autora e enriqueceram a interpretação do espetáculo. Pra que mais?). Voltando ao tema, na minha opinião o que mais impressiona não é sua urgência, mas sua onipresença ou, como gostam de dizer os mais cultos, sua universalidade. A autora trata profundamente de uma doença que cada vez mais se afasta de um distúrbio individual para se revelar um mal social, um mal humano. Saca? Estamos todos doentes, não só os que têm o que nomeamos depressão ou os sintomas dela. Por isso o texto pega tão fundo em todo mundo que assiste, tanto nos países do pico do “desenvolvimento”, quanto nos mais fudidos.

Dito isso, há que se reconhecer que, com tamanha profundidade de personagens e genialidade na escolha do assunto, é muito difícil desrespeitar Sarah Kane. O que quero dizer é que a Cia fica, quase inevitavelmente, amarrada ao texto, com medo de inovar e criar imagens em momentos que suscitam muitas delas. No entanto, se falta ousadia na criação de imagens, não falta na interpretação de um texto em que sequer os personagens estão claramente definidos. Porém, esta interpretação escolhe pelo simples, pelo minimalista, sem abusar de recursos cênicos mais pirados.

Seria injusto não considerar que a ambientação é muito bem feita – com luzes frias típicas de clínicas hospitalares e a simplicidade simbólica de uma cadeira de rodas, uma cadeira branca e uma caixa de remédios e nada mais. No entanto, faz falta uma encenação que explore, menos em diálogos e mais em movimentos e símbolos, a interação entre estes personagens riquíssimos e complementares – a mulher depressiva com tendências suicidas e o médico que, embora preocupado com ela, tenta manter uma relação estritamente profissional. Ambos doentes, ambos compartilhando uma doença que é do mundo. Se faço essa ressalva, devo admitir, porém, que talvez seja exigir demais de um grupo que já conseguiu a proeza de resumir em dois personagens bem construídos as inúmeras falas sem dono apresentadas na dramaturgia difícil de Sarah.

Com altos e baixos, delírios e pequenos arroubos conscientes, tudo regado a uma ironia inteligentíssima, a Sem-Nome é um grande presente para qualquer atriz e, ao mesmo tempo, uma puta responsa. Rosana Stavis assumiu a personagem com muita propriedade, muitas gargalhadas e variações de tom de voz e muita habilidade em pilotar cadeiras de rodas. Além do presentinho recebido da própria Sarah (presente é modo de dizer, que eles devem ter pago bem caro pelos direitos autorais), Rosana ganhou de lambuja o apoio da interpretação segura de Marcelo Bagnara e, ainda, teve uma mãozinha aparentemente rígida da direção, muito precisa na marcação dos movimentos cênicos, desprovidos de firulas.

A trilha sonora também colaborou intensificando a angústia, de forma que os silêncios ganharam ainda mais significados. Mas, se continuarmos pensando pelo viés da criatividade – ainda que somente para favorecer o texto – o destaque fica mesmo para o momento breve em que a companhia utiliza projeção. Não tentam interações nem nada muito complexo, apenas atribuem às palavras projetadas ao fundo o papel bem definido de expor pensamentos que na boca da Sem-Nome teriam ficado perdidos entre as outras falas, extremamente didáticos e muito menos intensos.

O resultado final deste investimento completo, embora tímido, é uma abordagem simples e direta de um tema que parece “eternamente contemporâneo”. Em uma das cenas mais incríveis, Sem-Nome e seu médico enumeram os procedimentos convencionais de combate à depressão, tais como cultivar amigos. Mal poderia imaginar a Sarah que a modernidade trouxesse muitos outros recursos a favor dos necessitados. Tente, por exemplo, dar uma navegada na web pra ver quantas curas possíveis pra depressão e quantos métodos pra evitar que ela se transforme em suicídio existem. Podemos citar desde soluções religiosas no Yahoo Responde – “JESUS, o maior psicólogo que já existiu” ou “depresão [sic] pode ser curada com a fé e ajuda de pessoas qualificadas para afasta [sic] obssessores [sic]” – até o beijo, conforme afirma um desses estudos-falta-do-que-fazer. Mas pra Sarah e pra Sem-Nome essas soluções incríveis não chegaram a tempo. E pra você, chegaram? Bem, se você está lendo até aqui devem ter servido, né? E aí, mais aliviado agora?

3 porções de amigos alegres + 1 pitada de Jesus

O que a galera acha

3 comentários até o momento

  1. Valmir says:

    Dizia Mishima que o suicídio é a solução, o ultimato, o grande viés… Essa Sarah é, digo, foi danada.

    Adorei o título e a pesquisa. Adoramos críticos de teatro que citam coisas legais da internet, heheheheh…

  2. Juli =) says:

    Valmir? Vc tb vai se matar??? Não basta a sinusite/pneumonia??? rs

    Enfim. Pesquisinha bizarra, né?! Mas divertida…

    E, sim, danada a moça. Complicada.

    Beijo.


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  1. Blog da Bacante » Meu segundo dia: overdose de Fringe - 05. Jan, 2010

    [...] os atores e com uma direção que apesar de bastante sóbria, foge de obviedades. Diferente de Psicose 4h48, de Sarah Kane, aqui o foco não está nas motivações para alguém decidir saltar para o [...]

E você, o que acha?

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