Críticas

Qioguem?!

por Juliene Codognotto

1 Comentário 28 May 2007

Os japoneses também riem

Fotos: divulgação

Pra começar do começo, esclareço que a interrogação e a exclamação do título dessa peça fazem parte do título dessa peça, não tenho culpa. Se bem que, de cara, ela faz todo sentido: que raios significa Qioguem?!?!

Escrito desse jeito é só o nome da peça mesmo. Mas ele tem origem no Kyogen, gênero teatral japonês apresentado nos intervalos das peças de teatro clássico (o ) só pra fazer o público rir, enquanto se prepara para assistir o que “vale a pena mesmo”. Literalmente, o significado seria palavras insensatas, o que se justifica em alguns momentos da encenação.

Após levar pra casa seis prêmios no 20º Festival Universitário de Teatro de Blumenau, incluindo o de direção e o de espetáculo, a peça passou pelo TUSP no ano passado e agora está em cartaz em um espaço recém inaugurado, tão novo quanto, mas menos badalado que o Nair Bello. Ainda em linhas comparativas, sem desqualificar a homenagem à atriz, o nome do teatro da Rua Augusta é bem mais criativo: Lugar. Brilhante, não?

Inspirados pela novidade, eu e todos os meus preconceitos em relação aos orientais fomos ao Lugar ver a peça. Naturalmente, esperávamos algo sério e chato, com direito a sabres e sushi. Naturalmente, nos enganamos. Santa ignorância! Qioguem?! é uma obra criativa e divertida que, descontados o frio e algumas barriguinhas, impressiona positivamente.

À primeira vista, a diretora Alice K. tem cara de conservadora, mas seu trabalho é ousado e cara de pau (no melhor dos sentidos). Os atores se entregam e se arriscam em esquetes coreografadas que beiram o ridículo, mas dão um pulinho e vão além dele. No âmbito da coreografia, destaque para a cena em que são incorporados elementos do Bunraku, teatro de bonecos japonês.

Ajudados por um figurino colorido e original (em especial no caso da morte poliglota), mulheres interpretam homens, homens interpretam mulheres e vice-versas, para contar histórias que misturam o que há de mais tradicional com detalhes de comédia contemporânea.

A ambientação de tais histórias se torna irrisória diante da riqueza do figurino e da maquiagem (que contam com máscaras hilárias), mas não chega a comprometer o espetáculo. Da mesma forma, a gelatina que teve a péssima idéia de descolar do canhão de luz bem no meio da cena não fez a montagem perder o brilho.

E por falar em brilho, cabem aqui palmas para a expressividade de todos os atores, que são também os responsáveis pela trilha sonora. Aliás, colocar a música nas mãos e nas bocas dos atores tem efeito interessante, já comprovado pelo Oficina, pela Companhia Livre de Teatro, entre muitos outros grupos e peças.

No fim das contas, como a peça já saiu de cartaz, fica a dica do Lugar, que apesar de ser frio pra caramba, serve chá verde com bolachinhas no final e, o melhor – pelo menos na visão do gordinho que vive dentro de mim – fica ao lado da Piolin, cantina tradicional, boa e barata, que pode substituir com vantagens a tradicional pizza pós-teatro.

3 cambalhotas

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1 comentário

  1. Emilliano says:

    Só pra constar, esse espetáculo esteve presente em diversos festivais de teatro (além do universitário de Blumenau) como o de Pindamonhangaba e o Riocenacontemporâneo.
    Pena q já saiu de cartaz em Sampa!


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