Críticas

Quebra Quilos

por Astier Basílio

4 Comentários 15 April 2008

Um Latão de Rapadura

Quebra quilos 59

Fotos: Adriano Franco

Se eu disser as palavras: “Bertolt Brecht” e “Companhia do Latão“, o que é que primeiro vem à mente? Vamos lá, faça o teste. Sem filtro nenhum. O que é que vem logo? Pra mim, palavras vêm e vão em ritmo de luz estroboscópica: “engajamento”, “épico”, “política”, “socialismo”, “Karl Marx”.

Foi com estas palavrinhas iluminadas que fui (re)ver o espetáculo Quebra Quilos. Mesmo não sendo nem da Cia do Latão, nem de autoria de Brecht, a peça – direção e texto de Márcio Marciano, um Latão legítimo – bebe nessas duas fontes. O espetáculo, que estreou no começo deste ano, marca a fundação do grupo Alfenim, em João Pessoa. Além disso, a peça fez as honras da casa na abertura, no dia 9 de abril, da I Mostra de Teatro de Grupo, realizado aqui na Paraíba, numa promoção do Departamento de Artes Cênicas da UFPB. A apresentação aconteceu no Teatro Lima Penante.

No palco italiano do Lima Penante perde-se um pouco da plasticidade do cenário, os atores representam dentro de um quadrado bordeado por tabuleiros onde são postas bananas – reais, viu, tem uma cena inclusive que a turma, ou seja, o elenco, come um cacho todinho em cena – feijão, rapadura e outras mercadorias que são utilizadas no momento de representação da feira.

Quebra quilos 2

O contexto histórico da peça é de meados do século XIX – até tem uma fala que um personagem diz o ano, mas eu não lembro – na província da Parahyba (era assim que se grafava naquele tempo) e o episódio que dá título à peça advém – eita que esse verbo é chique todo- de uma revolta popular sem articulação, nem líderes à frente que foi motivada pela mudança no sistema de medição – antes comerciava-se uma cuia de farinha, mas a partir de um decreto, adaptou-se para um quilo e assim por diante.

Se a história oficial não dá conta de estabelecer bem bonitinho como foi a revolução – tipo aquelas outras, que a gente estuda na escola como a Balaiada, a Sabinada e… Os Novos Baianos – tampouco a dramaturgia consegue. Márcio recusa a linearidade, fragmenta o espetáculo em vários núcleos que se intercalam sem perder a coesão, tendo como linha condutora a trajetória de mãe e filha, interpretadas por Zezita Matos (quem viu O Céu de Suely lembra dela, Zezita faz a avó de Hermila) e Soia Lira (quem viu Vau da Sarapalha ela é aquela que diz umas palavrinhas esquisitas) numa tabelinha de muito bom entrosamento. Como os núcleos são variados, os personagens também: há ainda o Senhor de Engenho e sua Prima lhe cobrando Dívidas e uma Negra Escrava; As Prostitutas, o Cego e seu Guia Bêbado, o Aferidor do Império, etc…

Apesar de fragmentada, a dramaturgia é bem segura e garante cenas marcantes. Uma delas é a do sujeito que vocifera contra o sistema, o governo e o diabo a quatro na cadeira da barbearia enquanto se prepara para ser barbeado. Então, quando o barbeiro, navalha em punho sobre o seu pescoço, lhe pergunta se acreditava naquilo, ele responde com o gaguejante “não”.

quebra quilos 3

A cena da banana – a que citei lá em cima – é legal. Um comício. Tem um cara que fala sobre revolução. O povo ecoa uma série de “Muito bem” – igualzinho os comícios daqui da Paraíba. Só que quando o povo é chamado a agir, abaixa a cabeça. O líder do comício dá de comer a eles – quase um “Bolsa Banana”, atenção Lula, a vida pode imitar a arte, ok?

Se a todo instante Márcio tenta jogar com a perspectiva de um teatro dialético, apresentando tese e antítese, preto no branco, pra a platéia tirar a sua conclusão, há, inequivocamente, uma tomada de posição prévia e, em alguns momentos, bem marcada, telegrafada até. Quando a peça mostra que os dois lados da questão, o dos soldados a serviço do governo e dos matutos revoltosos, têm seus mortos, e conseqüentemente seus algozes, a opção do encenador pelos oprimidos fica muito, mas muito clara.

Vamos ao exemplo. Dois soldados contam das desgraças que lhes ocorrem, como esquartejamentos, chacinas e demais tragédias de guerra , mas dentro de uma marcação cômica – a mais deliberadamente cômica de todo o espetáculo. O objetivo é alcançado: ri-se do relato deles, ri-se deles e as agruras sofridas são como que escondidas sob o riso.

Sebastião Formiga e Daniel Porpino, que fazem os soldados, são dois trapalhões assustados com a iminência do ataque dos matutos. Eles permanecem em cena após as trapalhadas. Entram mais dois personagens. Um dos homens do povo, que eram chamados de “Quebra-Quilos”, vai conversar com a viúva de um colega de revolução. Ela ainda não sabe que o marido morreu e o amigo vai contar como foi a morte. Os dois já tinham aparecido antes. Faltava o desenrolar da história deles. O colega do marido morto conta agora num tom sério e pessoal, como o revoltoso foi morto pelas tropas do governo e todo o discurso dos soldadinhos cai por terra.

Um dos grandes destaques da peça é o texto. Um dos momentos altos é o solilóquio – ei, Bacantes, será que posso usar essa palavra? – de Soia Lira narrando um sonho com palhaços enforcados prenunciado a bela cena final. Quando a menina que Soia interpreta está aboiando, narrando o final da história, com um rosário na mão e na outra uma arma e larga o rosário, estamos diante não de uma alegoria, mas de uma pergunta: atirar em quem e pra quê? No governo do PT que até então defendia a CPMF? Na direita? Na esquerda? No pós dramático?

1 elenco de perguntas épicas dançando uma rave na minha cabeça

O que a galera acha

4 comentários até o momento

  1. Rodolfo Lima says:

    Eita textinho sô!!!
    (rsrsrsr)
    só resgistrando que li.

  2. Helio Ponciano says:

    Uma satisfação ler um texto reflexivo como este em um site que há tempos mostra sua importância. Revista Bancante conecta a capital da Paraíba com a de São Paulo para pensar a atual produção brasileira de teatro.

  3. Eriickaa says:

    ^^eu queria ler so q meu tempo acabaouuuu.

    rsrrsrrss

  4. Junior says:

    Que linguagem pobre! O espetaculo deve ser bom, mas a resenha… muuuuuuito mal feita!


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