Um Latão de Rapadura
Fotos: Adriano Franco
Se eu disser as palavras: “Bertolt Brecht” e “Companhia do Latão“, o que é que primeiro vem à mente? Vamos lá, faça o teste. Sem filtro nenhum. O que é que vem logo? Pra mim, palavras vêm e vão em ritmo de luz estroboscópica: “engajamento”, “épico”, “política”, “socialismo”, “Karl Marx”.
Foi com estas palavrinhas iluminadas que fui (re)ver o espetáculo Quebra Quilos. Mesmo não sendo nem da Cia do Latão, nem de autoria de Brecht, a peça – direção e texto de Márcio Marciano, um Latão legítimo – bebe nessas duas fontes. O espetáculo, que estreou no começo deste ano, marca a fundação do grupo Alfenim, em João Pessoa. Além disso, a peça fez as honras da casa na abertura, no dia 9 de abril, da I Mostra de Teatro de Grupo, realizado aqui na Paraíba, numa promoção do Departamento de Artes Cênicas da UFPB. A apresentação aconteceu no Teatro Lima Penante.
No palco italiano do Lima Penante perde-se um pouco da plasticidade do cenário, os atores representam dentro de um quadrado bordeado por tabuleiros onde são postas bananas – reais, viu, tem uma cena inclusive que a turma, ou seja, o elenco, come um cacho todinho em cena – feijão, rapadura e outras mercadorias que são utilizadas no momento de representação da feira.
O contexto histórico da peça é de meados do século XIX – até tem uma fala que um personagem diz o ano, mas eu não lembro – na província da Parahyba (era assim que se grafava naquele tempo) e o episódio que dá título à peça advém – eita que esse verbo é chique todo- de uma revolta popular sem articulação, nem líderes à frente que foi motivada pela mudança no sistema de medição – antes comerciava-se uma cuia de farinha, mas a partir de um decreto, adaptou-se para um quilo e assim por diante.
Se a história oficial não dá conta de estabelecer bem bonitinho como foi a revolução – tipo aquelas outras, que a gente estuda na escola como a Balaiada, a Sabinada e… Os Novos Baianos – tampouco a dramaturgia consegue. Márcio recusa a linearidade, fragmenta o espetáculo em vários núcleos que se intercalam sem perder a coesão, tendo como linha condutora a trajetória de mãe e filha, interpretadas por Zezita Matos (quem viu O Céu de Suely lembra dela, Zezita faz a avó de Hermila) e Soia Lira (quem viu Vau da Sarapalha ela é aquela que diz umas palavrinhas esquisitas) numa tabelinha de muito bom entrosamento. Como os núcleos são variados, os personagens também: há ainda o Senhor de Engenho e sua Prima lhe cobrando Dívidas e uma Negra Escrava; As Prostitutas, o Cego e seu Guia Bêbado, o Aferidor do Império, etc…
Apesar de fragmentada, a dramaturgia é bem segura e garante cenas marcantes. Uma delas é a do sujeito que vocifera contra o sistema, o governo e o diabo a quatro na cadeira da barbearia enquanto se prepara para ser barbeado. Então, quando o barbeiro, navalha em punho sobre o seu pescoço, lhe pergunta se acreditava naquilo, ele responde com o gaguejante “não”.
A cena da banana – a que citei lá em cima – é legal. Um comício. Tem um cara que fala sobre revolução. O povo ecoa uma série de “Muito bem” – igualzinho os comícios daqui da Paraíba. Só que quando o povo é chamado a agir, abaixa a cabeça. O líder do comício dá de comer a eles – quase um “Bolsa Banana”, atenção Lula, a vida pode imitar a arte, ok?
Se a todo instante Márcio tenta jogar com a perspectiva de um teatro dialético, apresentando tese e antítese, preto no branco, pra a platéia tirar a sua conclusão, há, inequivocamente, uma tomada de posição prévia e, em alguns momentos, bem marcada, telegrafada até. Quando a peça mostra que os dois lados da questão, o dos soldados a serviço do governo e dos matutos revoltosos, têm seus mortos, e conseqüentemente seus algozes, a opção do encenador pelos oprimidos fica muito, mas muito clara.
Vamos ao exemplo. Dois soldados contam das desgraças que lhes ocorrem, como esquartejamentos, chacinas e demais tragédias de guerra , mas dentro de uma marcação cômica – a mais deliberadamente cômica de todo o espetáculo. O objetivo é alcançado: ri-se do relato deles, ri-se deles e as agruras sofridas são como que escondidas sob o riso.
Sebastião Formiga e Daniel Porpino, que fazem os soldados, são dois trapalhões assustados com a iminência do ataque dos matutos. Eles permanecem em cena após as trapalhadas. Entram mais dois personagens. Um dos homens do povo, que eram chamados de “Quebra-Quilos”, vai conversar com a viúva de um colega de revolução. Ela ainda não sabe que o marido morreu e o amigo vai contar como foi a morte. Os dois já tinham aparecido antes. Faltava o desenrolar da história deles. O colega do marido morto conta agora num tom sério e pessoal, como o revoltoso foi morto pelas tropas do governo e todo o discurso dos soldadinhos cai por terra.
Um dos grandes destaques da peça é o texto. Um dos momentos altos é o solilóquio – ei, Bacantes, será que posso usar essa palavra? – de Soia Lira narrando um sonho com palhaços enforcados prenunciado a bela cena final. Quando a menina que Soia interpreta está aboiando, narrando o final da história, com um rosário na mão e na outra uma arma e larga o rosário, estamos diante não de uma alegoria, mas de uma pergunta: atirar em quem e pra quê? No governo do PT que até então defendia a CPMF? Na direita? Na esquerda? No pós dramático?
1 elenco de perguntas épicas dançando uma rave na minha cabeça


Eita textinho sô!!!
(rsrsrsr)
só resgistrando que li.
Uma satisfação ler um texto reflexivo como este em um site que há tempos mostra sua importância. Revista Bancante conecta a capital da Paraíba com a de São Paulo para pensar a atual produção brasileira de teatro.
^^eu queria ler so q meu tempo acabaouuuu.
rsrrsrrss
Que linguagem pobre! O espetaculo deve ser bom, mas a resenha… muuuuuuito mal feita!