Crítica Sobre Crítica
Paulo V. Bio Toledo [em vermelho] sobre Maurício Alcântara.
QUERÔ
Em homenagem à editoria da Revista Bacante e suas edições coloridas e ao fluxo de pensamentos do Maurício.
Da Wikipédia:
Plínio Marcos de Barros (Santos, 29 de setembro de 1935 – São Paulo, 19 de novembro de 1999) foi um escritor brasileiro, autor de inúmeras peças de teatro, escritas principalmente na época da censura. Foi também ator, diretor e jornalista. É pai do dramaturgo Léo Lama.
Do site oficial do Plínio, mantido por seus filhos:


Do programa da montagem do Folias:
“(…) e o espetáculo que agora estreamos conta com mais de sessenta artistas envolvidos nele, dos quais quarenta atores. // Nossa ambição maior era que, um grupo de sete fazedores do Folias compartilhassem com este grande número de artistas, os procedimentos de trabalho utilizados por nós na investigação e montagem de um espetáculo. Tratava-se de um convite de urso – não havia, como não houve, qualquer tipo de remuneração ou ajuda de custo prevista, já que o projeto contemplado pela Lei de Fomento tivera uma redução de 35% dos valores orçados, obrigando-nos a cortar na própria carne em todos os segmentos do Plano Geral que previa iniciativas como a investigação de um novo espetáculo, publicações, seminários, edições de vídeos e a manutenção da própria estrutura física. (…)”
Da citação de Marco Antônio Rodrigues, diretor da montagem, na Folha Online:
“O tamanho do elenco não é um mérito da montagem, mas aponta para uma condição difícil do país: o cara não tem o que fazer, então acaba se vinculando de corpo e alma. Isso por um lado é bacana, porque as coisas se reorganizam de outra forma que não a econômica.”
“Não queremos esse papel originalmente jesuíta do teatro brasileiro, de denúncia, mas sim o de transformar as grandes angústias em interrogações, matéria-prima para o trabalho. O que a gente constata é essa falta de potência, a capitulação geral de sonhos, utopias e quereres.” [outra citação do mesmo Marco Antônio Rodrigues na mesma Folha]
Do Guia da Folha:
Ingresso: R$ 8 (moradores da Santa Cecília) e R$ 30. Não tem área para fumantes. Aceita cheques. Aceita reservas. Não tem ar condicionado. Não vende ingresso pelo telefone. Não tem local para comer. 70 lugares. Estac. (R$ 7 – convênio).
Dos meus rabiscos sobre o que havia visto, antes mesmo de pensar numa estrutura para esta crítica:
Elenco imenso, coro que dá a cara da montagem mas que, contraditoriamente, soa como um elemento “decorativo” para o texto e para a encenação – afinal quase toda a narrativa acontece fora deste coro e independente dele. Pouco pude ver do trabalho dos atores que compunham a grande massa de gente no centro do palco. Talvez eles apareçam nas demais apresentações – afinal há quatro elencos diferentes que se revezam pelas apresentações, mas como só vi uma apresentação, fica uma estranha sensação de excesso e falta ao mesmo tempo.
Quando eu era aluno do Teatro Escola Célia Helena eu participei de 3 peças. Nas três as personagens eram duplicadas, triplicadas, quadriplicadas para, obviamente, todos poderem fazer uma pontinha e serem avaliados… Nunca teve revezamento de elenco… Pode ser uma revolução nos métodos de avaliação de Escolas de teatro (!)
Ah… Falando nisso, o elenco é composto de vários alunos e ex-alunos do Célia Helena (mundo pequeno né?).
Mais uma vez dos manuscritos do Plínio:


Acho que a definição de crítica de nosso colega Plínio Marcos é um pouco esquisita… Mas há de se ressaltar o ódio gradativo de seu texto… Se olhar bem podemos até ver o papel rasgado pela caneta nervosa…
Mas o que é bem perigoso é a comemoração de Plínio sobre o fato de a crítica ser ignorada pelo “público”… O juiz final, com sua justiça natural – não é mesmo?…
Se olharmos bem, aqui se faz a defesa de dogmas românticos da arte, de paradigmas herméticos e se rejeita o pensamento crítico. Hoje, o Plínio Marcos (provavelmente um cara gente boa, super sensível à opressão no mundo) é cultuado pela classe teatral Sistema SESC, pois ele faz a “denúncia digerível” e não-sistêmica. Nossos “artistas de hoje” são a classe média social-democrata para quem o materialismo histórico marxista é anacrônico e “não serve mais a nossos tempos” [o que, felizmente, não é o caso do Folias e de vários grupos da cena teatral paulistana]; para esses, ainda sensíveis e preocupados com nossos “quadros sociais”, a indignação na obra de Plínio Marcos é a luva certa (vide o número de montagens de Plínio nos últimos tempos…).
Do blog de Leo Lama, filho de Plínio:
“(…) Meu pai escrevia sobre puta e cigano sem dente. Puta, cigano sem dente e cafetão. Puta, cigano sem dente, cafetão, presidiários, desempregados e fudidos. Puta e cigano sem dente? Puta, cigano sem dente e cafetão é chato, porra! Puta, cigano sem dente e presidiários não dava dinheiro. Puta, cigano sem dente e desempregados não tinha “patrocínio”. (…) Era época de ditadura. Escrever sobre puta, cigano sem dente, cafetão e presidiários, incomodava os “poderosos”. Porra, ainda mais essa! Já escreve sobre coisa que não dá dinheiro, mas além de não dar dinheiro, ainda é proibido? (…)”
Hoje em dia essas coisas todas aí (puta, cigano (?), cafetão, menor infrator, etc.) não são chatos… Ao contrário, são estéticos (!), e vendem, dão dinheiro demais (Por sinal, o “indiano” Quem quer Ser um Milionário? Acaba de levar 8 estatuetas do Oscar!). A tragédia social hoje é a ponta de lança da arte e do jornalismo (já apontava o repórter…)… Vale a pena esse desenho do Banksy:

Minha dúvida é: onde a montagem do Folias ultrapassa a denúncia para “transformar as grandes angústias em interrogações”, como afirma o Marco Antônio?
Têm-se alguns elementos épicos, mas que se tornam formais e não dialéticos. Isto é, aparecem como recursos de encenação, mas não realçam a contradição dos fatos (como ofertava Brecht). Isso se dá, acredito, pelo alto grau de maniqueísmo no texto, por um lado, e pela sua própria estrutura dramática, por outro. O Jornalista é onde mais se tem contradição, como aponta o Maurício, mas ele fica como uma ilha perdida em meio ao mar dramático da sina do menino Querô.
De minhas lembranças sobre as poucas montagens de Plínio que vi:
Talvez esta montagem de Querô – que conta a história do garoto de rua cuja mãe se mata bebendo querosene e que é criado entre putas, bandidos e policiais corruptos – seja a que mais conseguiu aproximar esse submundo de “putas, ciganos sem dente e cafetões” à realidade de um público que se desloca até o Galpão do Folias e que, no trajeto, tem de passar perto de um movimentado albergue de moradores de rua e atravessar um pedaço do centro bastante ignorado pela cidade que passa por cima, por uma das construções mais horrendas da cidade (foi Maluf que fez).
Eu diria que a aproximação da montagem para com “seu público, que se desloca até o Galpão do Folias”, não se dá pela aproximação de um submundo X com uma realidade Y; se dá pelo contrário, por ambos (nós todos, por sinal) serem totais estrangeiros a qualquer “submundo” que seja. A “aproximação” se faz por uma representação estereotipada e totalmente digerível do “mundo lá fora”. Aliás, no caminho até lá tive experiências muito mais angustiantes do que o “submundo” colorido dentro do Folias: (tive um real e visceral medo enquanto circulava perdido no centro, fui abordado por flanelinhas que enquanto limpavam o vidro cheiravam cola, crianças corriam gritando de um lado pro outro, e tive a impressão de que o minhocão me engoliria em alguns segundos…). Estrangeirismo esse que dificilmente se resolve na arte quando ela se dispõe a representar aquilo que entende como “pária social”…
Do Google Maps:

Há um erro capital aqui. A Rua Ana Cintra não dá mão pela Sebatião Pereira. É um falácia (!) que me custou 25 minutos de ziguezagues pelo labirinto central de São Paulo, stress e pouquíssima boa vontade para com a peça que ia ver…
De minhas lembranças sobre as poucas montagens de Plínio que vi (continuação):
Apesar de não deixar o texto da década de 70 datado, a atualização que a montagem faz ainda não é suficiente para fazer com que a realidade da classe média e da classe teatral – incluindo a imensa intersecção entre essas “classes” – sofra alguma interferência do texto (até porque a denúncia social tão presente na obra de Plínio não é foco da montagem). Acho que o fato de a montagem não “pretender”, segundo o diretor, focalizar a denúncia social é um mérito que, desconfio, não é atingido. Acredito que a não-interferência do texto no público não tem a ver com atualização ou denúncia. Tem muito mais a ver com a forma dramática “disfarçada” e a tremenda distância entre “nós” (público, atores, Folias e o próprio Plínio Marcos) e “eles” (os que vivem totalmente a margem da sociedade) – distância incontável e bem pouco possível de ser retratada racionalmente, pela cognição imediata; pois os próprios códigos semióticos já são totalmente alterados…
E nesse contexto, a provocação maior da peça é a presença do personagem jornalista que narra para a platéia num microfone e assina a tal “reportagem maldita” (tipassim, tomando teatro épico de canudinho). Sua figura, supostamente pública e pretensiosamente isenta, não consegue dar conta de apresentar uma visão coletiva e distanciada da história. Mas até aí, nenhuma novidade, afinal todo mundo já sabe que o papel social da imprensa não é tão social assim, muito menos isenta de ser contada sob um viés – que pode ser tão sutil como o ponto de vista do indivíduo que não abre mão de sua vida privada para mergulhar no universo da matéria que escreve.
E isso é importante demais. Pois o viés do Plínio Marcos ao escrever a peça é um ponto de vista bastante questionável. Possui, ademais, alta carga de maniqueísmo e preconceito; atributos comumente perdoados por “retratar os excluídos” da sociedade (como já disse seu filho). Mas a ênfase constante para a indignação frente à situação miserável das suas personagens só mascara as contradições sistêmicas que dão morada a essa nossa “realidade social”; e pior, incorrem numa raiva cega que deságua no moralismo e no maniqueísmo…
Da pergunta para a qual eu ainda não tenho palpite:
Da mesma forma como ocorre com o jornalista, quanto será que as realizações dos grupos de teatro (e aqui não me refiro apenas ao Folias, tampouco a “os grupos” de forma estereotipadora – e estendo a pergunta ao público, à imprensa e, por que não?, à própria Bacante) são públicas (no sentido político da palavra), efetivamente, e qual será o grau de consciência que eles têm disso?
Minha pergunta é: o sentido político de público, muito falado ultimamente, o que é? Pois tenho a impressão de que a necessidade do teatro paulistano em conceituar sua produção de pública (na definição grega, basicamente) é um problema. Pois se entende público como “serviço”; sendo assim, pouco se questiona a produção artística em si mesma; enquanto canalizam todas as forças para a “ação”. Como se o teatro por si só, seja qual for ele, se for uma “ação pública”, já é algo positivo.
Isso nos leva aos programas de Formação de Público, as discussões esquizofrênicas do fomento e a, inevitável, negação, ou redução, da crítica (!) como faz o Plínio Marcos aí em cima, no fragmento selecionado.
Acho que não se trata de predizer se nossa “ação” é pública ou não. Mas sim de repensar profundamente o teatro dentro de uma complexa sociedade e isso envolve “passos no desconhecido” mais do que “ações pragmáticas de amenização social”.
Do site do Folias:
(…) O Folias é um equipamento público e por isso interfere diretamente na qualidade de vida dos moradores do bairro de Santa Cecília através de suas criações alimentando o imaginário dos cidadãos.
Minha visão onírica disso é uma grande máquina/equipamento colorida com uma bandeira do Folias em cima, onde as cabeças dos moradores do bairro de Santa Cecília são enfiadas num cano e, através de tubulações roxas, seu imaginário vai sendo alimentado. Do lado esquerdo, um conta-giros começa a subir lentamente, sobre ele letras grandes indicam: Contador de Qualidade de Vida.
Da cotação:
Uma porção de fluxos e pensamentos, nenhuma conclusão.
Duas porções de fluxos e pensamentos



engraçado, a impressão que tive no final foi a de que o mote central da montagem é ir desmascarando, lentamente, o ‘denuncismo’ social um tanto quanto estereotipado do plínio… a maneira como sua arte adota um engajamento de cima pra baixo e ignora as estruturas materiais que subjazem ao conflito social, etc…
não acho que o folias chega a deslegitimar completamente a obra do autor , mas, no final, o foco da montagem parece ser o de desconstruir o “heroísmo” da “reportagem”.
pelo pouquíssimo que vi até agora, a companhia me parece um grupo bem bretchiano, desses que inclusive leram bretch. acho difícil crer que eles simplesmente reproduziriam uma denúncia social da triste vida dos despaupaerados sem adicionar contradições ao espetáculo (eu não li bretch, mas já ouvi a crítica da crítica).
nesse sentido: a maneira como querô (e os outros menores infratores) passam da desconfiança para indiferença em relação ao repórter; como o coro de marginais e prostitutas vai, aos poucos se desdudando, se entregando, para o público classeartística; a maneira como a mãe de criação de querô se volta contra o repórter na canção final, mas termina a peça se integrando ao coro; o repentino silêncio constrangedor diante do cadáver…
acho que o ponto fraco da montagem está, justamente, em retratar um repórter de terno e microfone de apresentador de auditório, tornando a própria crítica almejada um tanto quanto esteriotipada. talvez fosse contradição demais retratar um jornalisra barbudo intelectual marxista…
Primeiro eu discordo quanto à gradativa desconstrução de Plínio Marcos. Se pegar o programa verá em letras garrafais a frase do autor: “MINHAS PEÇAS SÃO ATUAIS PORQUE O PAÍS NÃO EVOLUIU”. Ademais, no corpo do texto do programa há uma referência sobre o “mote” da montagem:
“(…) fizemos um convite público para colegas de palco de forma a que a encenação de “Querô”, fosse uma festa em homenagem e celebração à falta física e à presença perene do Plínio, na lembrança, hoje, 2009, dos dez anos de sua morte.”
E adiante:
“A escolha desta obra do Plínio coaduna-se com provocação geral temática do nosso projeto de Fomento intitulado “Êxodos”, pespectivando as potências do indivíduo diante, dentro e entretanto à uma sociedade contemporânea de instituições e narrativas comunitárias e coletivas absolutamente falidas. O Plínio Marcos, que tem dentro do Galpão do Folias uma foto gigante e itinerante (…) inspirava com sua postura polêmica e subversiva a oportunidade de um projeto com esse, através da figura imaginário do “Querô”.
Com certeza há contradições no espetáculo. Entretanto os 3 pontos que você seleciona são leituras de encenação da obra, a meu ver, e não provas das contradições brechtianas do Folias.
Realmente não acredito que a encenação mais formal do grupo seja indício de uma re-percepção radical da peça do Plínio. Pelo contrário.
Sobre teu último parágrafo, não consegui compreender a fundo o que você quer dizer com o sarcasmo…
então te peço pra me explicar melhor.
ja faz dois anos que meu poi morreu
sinto muita falta dele,pois era mas apegada a ele que minha mae,minha mae tambem ja morreu,nao tenho mas pai,nem mae,com tanta saudades ja tentei mim marta duas vezes,fiquei com deprecao apois a morte de meu pai passou o tempo melhorei,mas agora a saudade almento é a deprecao voltou,sofro muito a falta de meu pai,ele era tudo para mim,minha mae quando moreu eu era muita nova tinha só(6anos),meu pai eu tinha (14anos)pense uma coisa dura de supera nao ter mae é peder o pai.olhar quem ver esse comentario mim dá uma forca pois tenho medo de nao suporta….
Bom, para começar queria dizer o quanto é bom ler críticas inteligentes como todas já feitas por aqui.
Sou atriz, fiz parte do processo do Querô, e antes de mais nada queria aproveitar para convidar a todos para a REESTRÉIA da peça no Folias. Será de 13/nov a 12/dez, às sextas e sábados às 00:00h (sessão maldita)…
Mas além disso queria compartilhar o que pude ler e ouvir através desse trabalho.
Para começar queria dizer que o “Querô” foi resultado de uma oficina de 7 meses no Folias, para as vagas de ator houve mais de 300 inscrições, dessas a administração pegou 45 atores através de cenas e currículos apresentados. Durante os 7 meses chegamos a 39, porém era esperado terem em torno de 15 atores. Visto isso criou-se 4 elencos. Assim, criou-se “Querô” do Folias.
Como já foi dito a visão do Folias é sim BRECHTIANA, é de distanciamento, não se quer envolver o público com emoções, mas fazê-los entender a história para tomarem suas próprias conclusões.
A respeito do que li nesses comentários vi algo dito sobre o repórter de terno e microfone. Bom, assim como a nova peça que está em cartaz no Folias “Medéia, a mulher-fera” às sextas e sábados às 21h e domingos às 20h, “Querô” quer mostrar a ESPETACULARIZAÇÃO de nossa sociedade!
Qual seria o interesse de se montar uma peça como essa se não para retratar ou utilizar os conflitos da nossa sociedade atual? Plínio era perseguido pela Ditadura assim a imprensa era um meio de denúcia, de mudança… a mídia tinha outra função nessa época, por isso o repórter tem outro caráter no papel. Mas hoje vivemos a Ditadura da Mídia, então nosso repórter não poderia ter as mesmas motivamos dos anos de chumbo em pelo século XXI…
Acho que já falei demais… escrevo para discutir a peça e não justificar…Adorei tudo que li e tudo me fez repensar muitas coisas da peça que agora reestreou.
Por isso CONVIDO A TODOS para assistirem novamente e para os que não viram poderem vê-la e participar de mais discussões.
Espero todos por lá às sextas e sábados à meia-noite.
Grata.