Da polifonia e de ciganos sem dente
Do CD da cantora e atriz Adriana Capparelli (do Oficina):
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A Pomba Roxa Ardente, escrita por Plínio Marcos e que abre a montagem do Folias (ao vivo, não na voz da Adriana).
Da Wikipédia:
Plínio Marcos de Barros (Santos, 29 de setembro de 1935 – São Paulo, 19 de novembro de 1999) foi um escritor brasileiro, autor de inúmeras peças de teatro, escritas principalmente na época da censura. Foi também ator, diretor e jornalista. É pai do dramaturgo Léo Lama.
Do site oficial do Plínio, mantido por seus filhos:


Do programa da montagem do Folias:
“(…) e o espetáculo que agora estreamos conta com mais de sessenta artistas envolvidos nele, dos quais quarenta atores. // Nossa ambição maior era que, um grupo de sete fazedores do Folias compartilhassem com este grande número de artistas, os procedimentos de trabalho utilizados por nós na investigação e montagem de um espetáculo. Tratava-se de um convite de urso – não havia, como não houve, qualquer tipo de remuneração ou ajuda de custo prevista, já que o projeto contemplado pela Lei de Fomento tivera uma redução de 35% dos valores orçados, obrigando-nos a cortar na própria carne em todos os segmentos do Plano Geral que previa iniciativas como a investigação de um novo espetáculo, publicações, seminários, edições de vídeos e a manutenção da própria estrutura física. (…)”
Da citação de Marco Antônio Rodrigues, diretor da montagem, na Folha Online:
“O tamanho do elenco não é um mérito da montagem, mas aponta para uma condição difícil do país: o cara não tem o que fazer, então acaba se vinculando de corpo e alma. Isso por um lado é bacana, porque as coisas se reorganizam de outra forma que não a econômica.”
Do Guia da Folha:
Ingresso: R$ 8 (moradores da Santa Cecília) e R$ 30. Não tem área para fumantes. Aceita cheques. Aceita reservas. Não tem ar condicionado. Não vende ingresso pelo telefone. Não tem local para comer. 70 lugares. Estac. (R$ 7 – convênio).
Dos meus rabiscos sobre o que havia visto, antes mesmo de pensar numa estrutura para esta crítica:
Elenco imenso, coro que dá a cara da montagem mas que, contraditoriamente, soa como um elemento “decorativo” para o texto e para a encenação – afinal quase toda a narrativa acontece fora deste coro e independente dele. Pouco pude ver do trabalho dos atores que compunham a grande massa de gente no centro do palco. Talvez eles apareçam nas demais apresentações – afinal há quatro elencos diferentes que se revezam pelas apresentações, mas como só vi uma apresentação, fica uma estranha sensação de excesso e falta ao mesmo tempo.
Mais uma vez dos manuscritos do Plínio:


Do blog de Leo Lama, filho de Plínio:
“(…) Meu pai escrevia sobre puta e cigano sem dente. Puta, cigano sem dente e cafetão. Puta, cigano sem dente, cafetão, presidiários, desempregados e fudidos. Puta e cigano sem dente? Puta, cigano sem dente e cafetão é chato, porra! Puta, cigano sem dente e presidiários não dava dinheiro. Puta, cigano sem dente e desempregados não tinha “patrocínio”. (…) Era época de ditadura. Escrever sobre puta, cigano sem dente, cafetão e presidiários, incomodava os “poderosos”. Porra, ainda mais essa! Já escreve sobre coisa que não dá dinheiro, mas além de não dar dinheiro, ainda é proibido? (…)”
De minhas lembranças sobre as poucas montagens de Plínio que vi:
Talvez esta montagem de Querô – que conta a história do garoto de rua cuja mãe se mata bebendo querosene e que é criado entre putas, bandidos e policiais corruptos – seja a que mais conseguiu aproximar esse submundo de “putas, ciganos sem dente e cafetões” à realidade de um público que se desloca até o Galpão do Folias e que, no trajeto, tem de passar perto de um movimentado albergue de moradores de rua e atravessar um pedaço do centro bastante ignorado pela cidade que passa por cima, por uma das construções mais horrendas da cidade (foi Maluf que fez).
Do Google Maps:

De minhas lembranças sobre as poucas montagens de Plínio que vi (continuação):
Apesar de não deixar o texto da década de 70 datado, a atualização que a montagem faz ainda não é suficiente para fazer com que a realidade da classe média e da classe teatral – incluindo a imensa intersecção entre essas “classes” – sofra alguma interferência do texto (até porque a denúncia social tão presente na obra de Plínio não é foco da montagem).
E nesse contexto, a provocação maior da peça é a presença do personagem jornalista que narra para a platéia num microfone e assina a tal “reportagem maldita” (tipassim, tomando teatro épico de canudinho). Sua figura, supostamente pública e pretensiosamente isenta, não consegue dar conta de apresentar uma visão coletiva e distanciada da história. Mas até aí, nenhuma novidade, afinal todo mundo já sabe que o papel social da imprensa não é tão social assim, muito menos isenta de ser contada sob um viés – que pode ser tão sutil como o ponto de vista do indivíduo que não abre mão de sua vida privada para mergulhar no universo da matéria que escreve.
Da pergunta para a qual eu ainda não tenho palpite:
Da mesma forma como ocorre com o jornalista, quanto será que as realizações dos grupos de teatro (e aqui não me refiro apenas ao Folias, tampouco a “os grupos” de forma estereotipadora – e estendo a pergunta ao público, à imprensa e, por que não?, à própria Bacante) são públicas (no sentido político da palavra), efetivamente, e qual será o grau de consciência que eles têm disso?
Do site do Folias:
(…) O Folias é um equipamento público e por isso interfere diretamente na qualidade de vida dos moradores do bairro de Santa Cecília através de suas criações alimentando o imaginário dos cidadãos.
Da cotação:
Uma porção de fluxos e pensamentos, nenhuma conclusão.


que crítica! parabéns ao jornalista , isso sim tem embasamento!
abraços
montar plínio precisa sempre de grandes atores, marcados pela vida,pelas curras que nossa profissâo nós dá!
ótima critica…