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Críticas

Rasif Mar que Arrebenta

por Astier Basílio

9 Comentários 09 September 2008

Tem texto no meu angu

Fotos: Tuca Siqueira

Não sei até que ponto um paulista da gema (carioca também tá valendo) consiga entender a dimensão do que é “ser nordestino” cujo orgulho é cantado em verso e prosa. Cito São Paulo porque a Bacante é situada aí, mesmo sendo uma revista de “lugar nenhum”, por ser eletrônica e hospedada na rede mundial de computadores (falei bonito!).

Não é de estranhar que, some times, quando eu abro a boca pra falar de onde sou – da Paraíba – ouça coisas do tipo, “ah, você é daquele lugar que nunca chove?”, como um certo jornalista me perguntou uma vez. Querem o quê? Em geral, Nordeste em teatro, cinema, música e literatura sempre foi matéria de “invenção” (tanto de uso dos próprios nordestinos com seu discurso de coitadinhos, como aos de fora) para se criar um imaginário de lugar seco, primitivo, exótico, tradicional e atrasado.

Sei que estou exagerando. De algum tempo pra cá que música, cinema, teatro procuram pôr em crise essa perspectiva limitada e redutora. O Coletivo Angu, de Recife (ia tascar um “felizmente”, mas isso é juízo de valor e é contra as normas editorias desta revista) está entre os que procuram não perpetuar esse engastado imaginário super-oito de sandália de couro, roupa de cangaceiro e cenário de xique-xique. O espetáculo Rasif- Mar que arrebenta, do Coletivo Angu, de Recife, Pernambuco, reedita a dobradinha com o escritor conterrâneo, embora radicado em Sampa, Marcelino Freire cujos contos serviram de base para o espetáculo Angu de Sangue que veio dar nome ao grupo.

A peça está em cartaz todo esse mês no teatro Hermilo Borba Filho. Um teatrinho pequeno e charmosinho (que nem aquele cachorrinho da Cofap). São duas platéias uma de frente para outra, com entradas distintas, o que resulta numa arena quadrada – desculpem meu senso geográfico é péssimo e eu tô rezando ao Padre Cícero, ops, que vocês entendam – Logo de cara, somos recepcionados por atores que vão jogando algo como uma “ciranda de palavras”, em que a dança é movimentada pela ironia e pelo riso, pondo em crise – ia arrumar outra expressão, essa eu já repeti – o “significado” real das palavras. Até que nos sentamos. Platéia A – onde eu fiquei – contra ou de frente – à platéia B.

O cenário tem uns caixotes ao fundo, pichados com grafites, que tanto servem de camarim, onde os atores fazem as trocas à vista da platéia, como funcionam como adereços, que nem no quadro “A culpa é do carro”, além de guardarem vários objetos de cena. De frente para os caixotes há uma banda que além de fazer a trilha, com as músicas, ataca de ruídos, microfonias e outros baratos – quase pedi o cartão pra saber se eles animam batizados, casamentos – sim, desculpa, eu sei que a gente diz no máximo no segundo parágrafo, mas a direção é do Marcondes Lima, mas tenho algo a acrescentar pra deixar mais emocionante: ele toca na banda. Uma saudação a Yemanjá – vai da Aljazira a TV Bahia. Da burca ao afoxé. Em dança, música e figurino. Tudo isso num quadrinho só.

Mas, voltando à descrição do cenário. No chão, na arena, forma-se um retângulo delimitado por duas fileiras de pedras que ficam em cima de folhas de ofício – terminou a peça, fui ver: eram os 11 contos impressos que serviram de base para os 11 quadros, bonitinho, né?

Desculpem se não preciso o número nem o nome de todos os atores. Acredito que sejam seis. Não localizei um programa lá no teatro que me fizesse conferir cara crachá e no relise não havia a informação, sorry periferia. A impressão de teatro pulsante – esse adjetivo pode, né, Fabrício? – chegou logo na entrada, com a ciranda do dicionário – o “Tentendo Entender”- e se manteve com o “Tupi-Guarani” em que um burguês repleto de dramas existenciais é cercado por índios saídos de um poema do Oswald de Andrade ou desta reportagem.

Mas, o que aconteceu? Um assumir do texto. Hum-rum.Ok. É uma narrativa. Um conto. Assumí-lo tal e qual provoca um entrechoque de linguagens, o palco e a literatura. Mas, há momentos em que nem a garra e a defesa dos papéis, como o de André Brasil e o de Vavá Paulino, fazendo os monólogos, de “Da Paz”, a mulher que não vai em passeatas contra a violência e a “Totonha, analfabeta que quer ver o diabo, mas não quer ler, justificam uma aposta tão alta no texto.

Em alguns momentos a impressão era a de que o espetáculo servia aos contos e não o contrário. A questão aqui não é a escolha de quadros com monólogos, em si. Veja-se “Inocente” em que crueldade e sutileza contracenaram quando um pedófilo, interpretado por Arilson Lopes, tenta nos convencer de que é vítima, dizendo o seu texto em uma estrutura giratória que lembra uma caixinha de música; ou ainda, o satírico “We Speak English” que nos remetia tanto a Ana Maria Braga, porém o bicho emplumado estava mais pra Gerald Thomas.

Se eu fosse a Bárbara Heliodora diria que a luz estava correta. Mas como não sou, limito-me a dizer que os espelhos nos cantos da arena refletido pelos atores, nos personagens em cena, usados em alguns momentos, são uma poderosa metáfora da reflexão que o espetáculo promove em pensar um teatro nordestino além do seu exotismo.

Um elenco apontando pedras para a platéia, A e B

O que a galera acha

9 comentários até o momento

  1. cristhiano says:

    concordo mesmo. se bem que pra quem não é do “meio” (como vc gosta tanto de frisar), a apresentação fluiu bem. Como tinha lido o livro há poucas semanas, as histórias ainda estavam fresquinhas (?!) na cabeça. é interessante ver como a encenação preenche uns espaços em “branco” dos textos de marcelino, que é muito conciso em termos de “descrições”, por exemplo. O bacana (é isso que faz o teatro?) é refazer o texto em termos de gestos e de imagens, colocando burkas (escreve assim?) nas nossas comadres nordestinas.

  2. Astier Basílio says:

    Crisinho,
    o meu comentário venenosamente prévio te castrou, vc disse q não tinha entendido o último parágrafo:
    duas, uma, ou vc releu e entendeu ou
    por eu dizer q vc “não era do meio”
    vc se inibiu.
    Tsc. E mesmo q vc “não seja do meio”,
    a bilheteria não restrinte o acesso aos ingresso
    só a pessoas “do meio”.
    Abração

  3. cristhiano says:

    n, eu reli e ficou claro! abs!

  4. Rafaele Costa says:

    Bem, como você não leu o programa do espetáculo, posso ditar o nome do elenco: Arilson Lopes, André Brasileiro( foto 1 acima), Ivo Barreto, Fabio Caio e Márcia Cruz. Encenação: Marcondes Lima. Múscicos: Tárcisio Resende, Eugênio e Luziano.

  5. Rafaele Costa says:

    Ops!!!!: E ainda Vavá Schön- Paulino, que brilha interpretando Totonha.

  6. astier basílio says:

    oi Rafaele Costa.
    você afirma:
    “como você não leu o programa do espetáculo…”
    Só uma pequena informação.
    Eu não poderia ler
    uma coisa que não existe.
    Pelo menos não foi distribuída
    no dia em que eu fui assistir.
    MAs, desde já obrigado
    pelo seu comentário.

  7. Juli says:

    Astier, a pergunta que náo quer calar: aquilo no Vavá era gliter ou lantejoula?

  8. Vavá Schön-Paulino says:

    Juli, eu mesmo respondo à sua pergunta: nem gliter nem lantejoula: pur-pu-ri-na!

    PS: Astier, querido, você está sabendo algo mais da virada cultural de JP? Fomos contactados para apresentarmos o ÓPERA.

  9. astier basílio says:

    oi Vavá,
    semana q vem
    eu terei notícias
    e vou passar pro grupo, tá?
    Abração
    e vivapurpurina!


E você, o que acha?

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