Crítica em três partes
Crítica, Parte 1: Sobre o projeto
Dando continuidade ao projeto do Grupo Tapa iniciado no mês de maio com os monólogos de Chris Couto e Clara Carvalho em Retratos Falantes – Parte 1, entrou em cartaz no SESC Vila Mariana a segunda parte, obviamente chamada de Retratos Falantes – Parte 2, com Brian Penido Ross e Beatriz Segall. Dirigido por Eduardo Tolentino de Araújo, os atores interpretam histórias do dramaturgo inglês Alan Bennet, escritas para a BBC de Londres. Mais detalhes sobre o projeto, e mais piadas e vídeos sobre Odete Roitman podem ser vistos AQUI!
Crítica, Parte2: Os Monólogos
O primeiro monólogo, Fritas no Açúcar, é o único da série protagonizado por um homem, e traz o ator Brian Penido Ross na pele de Graham, um legítimo filhinho da mamãe de meia-idade. Acomodado com a rotina junto à mãe, sua situação muda quando ela reencontra um antigo namorado e deixa o filho para segundo plano.
O segundo, Senhora das Cartas, traz Beatriz Segall na pele de uma senhora solitária que, à primeira vista, prima pela justiça e pela moral, e acha que está prestando um serviço à sociedade escrevendo cartas reclamando de seus direitos de consumidora, dos vizinhos que supostamente maltratavam o filho, do pipoqueiro, escrevendo até para o Papa (imagina o que ela faria se tivesse e-mail?). Logo, essa obsessão começa a atrapalhar e invadir a vida alheia, tudo porque ela própria se alimenta dessas vidas, já que a sua não faz mais sentido.
Crítica, Parte 3: Conjunto da obra
Os quatro monólogos das duas partes trazem em comum a solidão dos personagens e seus conflitos por não estarem satisfeitos com a vida que levam, mas ao mesmo tempo, estarem acomodados nas rotinas que os condenam a uma vida sem sentido. Temos uma atriz que, no fundo, é ciente de sua falta de talento, a mulher de um reverendo que não se conforma com o papel que lhe cabe na sociedade, um homem de meia-idade dependente da mãe e uma senhora solitária que se alimenta de cartas para tentar escapar do isolamento. São quatro personagens frustrados pelos rumos tomados e que de certa forma refletem algumas angústias da sociedade classe média, mesmo as histórias tendo sido criadas em 1987. Como, por exemplo, o medo de envelhecer sozinho, preocupação com a falta de sucesso profissional, fracasso do casamento burguês, insucessos amorosos e receio de ficar pra titia.
Em monólogos, sempre prestamos mais atenção no ator que se expõe sozinho no palco. No dia em que assisti à peça (o mesmo do abalo sísmico que, se afetou o teatro, confundi com o moço de trás que batia na minha poltrona), Beatriz Segall parecia um pouco atrapalhada com o texto – em alguns momentos, não sabia se era ela quem estava confusa com suas falas ou se era sua personagem. Já Brian Penido Ross, assim como Clara Carvalho na primeira parte do projeto, seguiu bem pelo caminho naturalista freqüentemente adotado pelo Tapa.
Depois de assistir quatro textos bem amarrados, irônicos e que expõem cotidianos muitas vezes cruéis e reais, fica a vontadezinha de ver os dois outros textos que Alan Bennett escreveu para a BBC de Londres nos palcos paulistanos montados pelo Grupo Tapa. Já estou na torcida.
4 tapas na cara e mais 1 trocadilho com o nome do grupo
Leca-
Assisti o espetaculo Retratos Falantes- parte 2 no penúltimo dia em cartaz e percebi também a Beatriz Segall atrapalhada com texto. Mas como isso provavelmente não aconteceria com uma atriz como ela, acredito que isso faz parte da propria personagem. E se pensarmos no papel que ela representava, o de uma senhora solitária que prima pela justiça e moral como você bem caracterizou, acredito que essas confusões no raciocinio certamente existiram no papel interpretado por ela. Para mim, ela estava divagando sobre os fatos que, para ela, eram problemas da sociedade que ela interagia.
Leo
Ontem tive o privilégio de assistir a peça Retratos Falantes 2 com Brian Penido Ross e Beatriz Segall.
Eu me via em várias passagens descritas por ela, e isso me fez dar várias gargalhadas, e pude ver que realmente vc presta um serviço à sociedade escrevendo reclamando de seus direitos de consumidora e cidadã, visando ñ só benefício próprio, como para aqueles que muitas vezes nem conhece quais são, por isso que eu grito…precisamos de educação, mas educação de qualidade. Essa peça abri muito a cabeças daqueles que acreditam q nunca dá em nada, é por isso q o nosso Brasil não está no lugar em que deveria estar. As leis só serão leis quando o povo acreditar que de grão em grão a galinha enche o papo.
Eu que estou sendo muito crítica ou não há crítica aqui, mas só descrição do espetáculo?
Leca, não consegui entender seu ponto de vista a respeito do espetáculo… (apesar de um texto bem escrito)
Sei que este texto foi postado em abril de 2008. Estamos em junho de 2009 e o espetáculo está em cartaz no teatro Eva Herz, na livraria Cultura.
Gostei muito do primeiro monólogo, por Brian Penido, apesar de ser a atuação “prevísivel” do Tapa. É previsível, mas é redonda, limpa, com preocupação estética e simbólica. Transmite a solidão de cada personagem presente no projeto.
Quanto à atuação da Sra. Segall, foi a primeira vez que a vi. Tive a mesma dúvida que o Leonardo teve. “É da atriz ou da personagem?” Pra minha surpresa, que por um momento acreditei na incrível construção feita de uma senhora um pouco esquecida e aérea, não era da personagem…
A atriz entregou sua falta de segurança com o texto (atenção para as datas das apresentações) quando estragou a piada referente à criança que morrera de leucemia.
Saí do teatro me questionando se seria um demértido. Cheguei à conclusão que não. Saber da sua dificuldade e usá-la a seu favor é um grande mérito! Que grande atriz poderia assumir para si que já não pode mais ter o frescor de um texto dramático e usar essa dificuldade para a construção de uma personagem brilhante? Beatriz Segall o fez.
É muito bacana ver nas fraquezas as maiores forças.