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Críticas

Revista Bacante

por Paulo Bio Toledo

4 Comentários 03 June 2009

Sobre o olhar histórico

“[...] na jaula puseram uma jovem pantera. Era um alívio sensível até para o sentido mais embotado ver aquela fera dando voltas na jaula tanto tempo vazia. Nada lhe faltava. O alimento de que gostava, os vigilantes traziam sem pensar muito; nem da liberdade ela parecia sentir falta: aquele corpo nobre, provido até estourar de tudo o que era necessário, dava a impressão de carregar consigo a própria liberdade; ela parecia estar escondida em algum lugar das suas mandíbulas. E a alegria de viver brotava da sua garganta com tamanha intensidade que para os espectadores não era fácil suportá-la. Mas eles se dominavam, apinhavam-se em torno da jaula e não queriam de modo algum sair dali.” (Franz KAFKA. O Artista da Fome)

A partir dos comentários na crítica Viver Sem Tempos Mortos, iniciou-se debate sobre a obra teatral e sua respectiva atividade crítica. Como reverberação das ideias; proponho uma tentativa de olhar mais incisivo sobre a questão.

Historicamente o olhar que se faz sobre a obra é pautado por essa enorme discussão: a primazia da obra versus as conjunturas do contexto e do processo. O debate é famoso em muitas frentes, mas na crítica teatral brasileira é evidente: de um lado Anatol Rosenfeld de outro Sábato Magaldi, Barbara Heliodora (quem sabe, Luiz Fernando Ramos) etc. Mas é no campo da teoria crítica literária que, a meu ver, surge a maior contribuição nessa peleja. Trata-se do ensaio As Idéias Fora do Lugar, de Roberto Schwarz. Como a ideia não é fazer desse texto nenhum tratado acadêmico, não me alongarei na questão e tampouco em citações. No entanto, cabe destacar o argumento central de R. Schwarz: o teórico relembra que grande parte (ou quase toda) produção literária brasileira seguiu as cartilhas dos movimentos estéticos europeus (romantismo, realismo, naturalismo, etc. etc.). No entanto, (e desculpem-me pela simplificação excessiva) cada uma dessas “escolas” se desenvolveu num determinado contexto histórico específico (renascimento, a formação do indivíduo burguês etc. etc.). Contanto, que ao serem sistematicamente importadas aos trópicos operou-se um “racha” entre forma e conteúdo (ora, no Brasil colonial, por exemplo, não existia qualquer sombra de indivíduo burguês livre, sobretudo havia ainda escravidão – paradoxalmente, a produção nas colônias não era nada arcaica mais já um vislumbre do capitalismo contemporâneo). Enfim, defende o crítico, no belíssimo ensaio, que o olhar para a produção literária no Brasil tem de ser permeado por uma perspectiva histórica (e de produção), com o risco de, caso contrário, (e isso já são palavras e ideias minhas) pautar a estética por valores dissociados do mundo, falseados e sempre a partir de uma “opinião” subjetivada ou ligada a pré-conceitos do “belo”.

Fechando o parêntese das referências, voltamos ao ponto. Hoje (como sempre) periclita no imaginário o conceito de “obra-prima universal” (A frase, já quase um dito popular: “o que é bom sobrevive” é dita e repetida mundo afora). Ano a ano a humanidade cataloga em seus museus mais um objeto alçado à categoria do “genial” e concomitantemente a arte é distanciada da sociedade é alçada, também, ao seu refúgio de marfim (seja na Praça Roosevelt seja no Louvre). Mas quais são os parâmetros?

Muitos. Como um exemplo extremo, cito o mais divertido: saiu no Le Monde diplomatique Brasil (Pura Especulação edição agosto 2008) uma matéria sobre o artista plástico Damien Hirst (aquele “artista vivo” cuja obra alcançou o maior valor na história: 13 milhões de euros). A trajetória que o jornalista francês (Philippe Pataud Célérier) percorre leva-o a descobrir uma prática comum no meio das artes plásticas.

Disfarçados sob ‘grupo de investimento anônimo’, os próprios “criadores” dão lances estratosféricos em suas próprias obras. Muitas vezes, chegando a adquiri-las “novamente”. Estúpido, diriam os desavisados. Genial, diriam os empresários. O vislumbre empreendedor desses “artistas-investidores” percebeu que hoje o principal critério valorativo da obra de arte é o montante atingido por suas obras! Em linhas bruscas: é obra-prima se custou caro. E a partir de um olhar atento veremos que a grande maioria dos artistas plásticos contemporâneos despontou assim (no Brasil, Tomie Ohtake é um ótimo exemplo: tornou-se famosa pela campanha de marketing de seus familiares e influentes). Enfim…

Ademais, temos outros eternos parâmetros como a mídia, o poder e as “autoridades no assunto” que determinam aquilo que é “universalmente belo”, queiram ou não os reles mortais.

A concepção de universalidade abarca em si um pressuposto de sendo nós “seres humanos” a arte seria a atividade tangencial que “toca” nossas almas, ponto. Ou melhor, que toca as almas daqueles predispostos a isso (os sensíveis). No fundo, não passa de um discurso ideológico que esculhamba todo o diferencial cultural e implode (agora sim) todo o processo histórico numa noção de “natural”. Diluir a percepção sobre a arte como um processo histórico, ‘em diálogo’, é afirmar uma naturalidade da espécie, ou melhor, do modo de organização vigente. A afirmação implícita de que a genialidade está para ser alcançada, independente do contexto (a mídia vive com reportagens do “artista” que despontou no ambiente pouco propício de uma favela, ou seja, que conseguiu chegar à arte, como se ela fosse descolada do seu meio, pairando sobre a humanidade, como se a “genialidade” do menino(a) superasse seus parcos meios de produção), é análoga ao decreto do “fim da história”. Ora, se é fixa a “genialidade” de uma obra, a despeito de seu tempo (o gênio está em qualquer época, e é gênio pela habilidade técnica subjetiva – vide a Gioconda de Da Vinci), estamos dizendo que existe algo fixo/natural, a despeito do tempo, dos processos, das classes no poder. O discurso então, não afirma o sistema capitalista como prática econômica, mas corrobora seu discurso de desenvolvimento “natural” da espécie. Se nos adentramos, por exemplo, nas categorias de “funcionalidade”, pode-se dizer que a arte universalizada, nos termos acima expostos, é a ponte entre o pragmatismo de produção do capital e a subjetividade inviolável que o sustenta, afirma e alimenta.

Mas o contexto histórico ainda não é suficiente para desvincular a arte da concepção universal. Sua categorização também pode facilmente cair no superficialismo barato ligado às tendências pós-estruturalistas e metafísicas existenciais. Assim, os meios de produção urgem como imã de compreensão de nosso tempo.

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Journal. Antoni Tàpies, litografia 1968

Por isso, ponho fim às abstrações filosóficas para falar da Bacante. Muitas críticas aqui publicadas levantam questões de produção do espetáculo: seja as Leis de incentivo, os patrocinadores, a segregação contida na localidade etc. Grande parte dessas críticas são imediatamente questionadas. Muitas vezes de forma grosseira reproduzindo o mesmo argumento de sempre: “vocês estão com inveja”; “que mal há em ganhar dinheiro” e variações sobre o mesmo tema. Outras vezes com debates ricos sobre a questão.

Todavia, o experimentalismo crítico da Bacante é um porta-voz potente (e ácido) de um olhar, ainda desfigurado, sobre toda a produção contemporânea do teatro brasileiro. E não porque o instrumento é plural ou democrático, mas porque insiste na provocação, nas contradições de si mesma e de toda a “categoria” (como um palhaço, às vezes bufão) buscando sempre relativizar e ampliar a obra como manifestação social. E, desse modo, escancara-se o caráter histórico da arte, do teatro, num tempo que cada vez mais as coisas se assentam em sua imutabilidade. O olhar que a revista apresenta, como conjunto da obra, é um raio-x preciso de um tempo em que o teatro se desmancha sobre si, sobre categorias frígidas e subjetivas, que perde seu referencial histórico. E, então, não sobra ninguém. Não há complacência alguma. Frente a um movimento que se configura, ao menos em São Paulo, como contraponto: o “teatro de grupo”, por exemplo, a acidez continua a mesma (ou maior) extirpando assim qualquer idealismo barateado, qualquer subterfúgio. No entanto, somos todos parte disso e assim a revista se configura, um frankstein belíssimo de contradições sobre si mesma. Que se recusa a “olhar a obra”. Que se recusa a um “diálogo entre artistas”. Que se recusa a se furtar do humor em qualquer situação. E, assim, se recusa a reproduzir os caracteres normativos da crítica padronizada.

Muitos cobram das críticas um olhar assim, ou assado, mas há de se ter em vista que a Bacante é uma coisa só. Não é um porta-críticas ou um compêndio de material juvenil. A Bacante é um reflexo desfigurado de nós mesmos, principalmente por entender que (desculpem a repetição) o meio de produção é a obra (assim como, obviamente, suas formas e conteúdos). E que a compreensão da obra (vinculada à contemporaneidade) só se faz com a ampliação total do fenômeno, onde os meios de produção se evidenciam justamente onde pretendem liquefazer-se.

Pra terminar, lembro de um tópico muito disseminado, mas que ainda não perdeu suas forças e sentidos: o sistema cria e possibilita todos os espaços de liberdade produtiva, mas jamais concede os próprios meios de produção à arte (vide Lei Rouanet, perseguição das rádios piratas, quase impossibilidade de sobrevivência sem dependência de capital etc.). A internet pode ser uma alternativa, mesmo que tudo nela trabalhe para ser o contrário. A Bacante mergulha nessa possibilidade alternativa.

Mas o Proac ainda grita que as coisas não são bem assim…

O que a galera acha

4 comentários até o momento

  1. ronaldo says:

    EU REPITO!!
    VOU FAZER A CAMISETA:

    “EU LEIO A BACANTE E ENTENDO!”

    Só duas coisas in-pertinentes:

    1 – a idéia do artista comprar sua própria obra é do Tio Patinhas! É sério! Eu tenho esse gibi, a edição brasileira é de 1984 – sabe-se lá de quando é o original.

    2 – vou estrear meu espetáculo em julho no Teatro X, bora lá?

  2. Juli says:

    hahahahahhahahahaha

    Estamos esperando essa camiseta há décadas! Vc só promete! Eu me comprometo a ir no Teatro X se no final todos os atores do elenco estiverem com essa caiseta por baixo do figurino! rs

    Ah! Vc podia escanear o gibi, né?

    Bjos.
    Juli =)

  3. Essa revistinha é uma crítica pronta. Manda que a gente publica.

  4. ronaldo says:

    Pultz!

    Vou procurar! Sério!


E você, o que acha?

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