Roxo ou como representar uma cor
Domingo é o dia certo pra fazer compras no supermercado.
Acho que isso foi o que todo mundo pensou no domingo do dia 18 de março, quando fui ver o segunda apresentação da peça Roxo, texto de Jon Fosse, com direção da Fernanda Dumbra, no Satyros 1.
Os supermercados, ou whatever, são as coisas que fazem o público ficar em casa, na internet, no msn, no condomínio, no fantástico, onde todo mundo deve ficar. Quem não quis ficar onde todos devem ficar, vez por outra encontra o caminho do porão ou de um abrigo antiaéreo. Lá, às vezes, eles fazem uma banda.
É nesse lugar que as coisas acontecem (ou deixam de acontecer) no texto de Fosse. Os quatro garotos resolvem formar uma banda que do princípio já é um fracasso. Eles sabem que aos poucos precisam desistir, uns antes, outros depois.
Essa banda é a vida de cada um deles, esvaziada, com pouco pra dizer, menos ainda pra tocar. Essa banda quase não toca. E o guitarrista é um desertor. O desertor entre os desertores. E não há lugar pra ele em lugar algum. Não há lugar no coração da menina que segue todo mundo da banda, nem na banda em si, nem em sua própria casa.
Angustiante, né? É que você ainda não viu tudo isso feito por diálogos ingênuos, com intervalos de matar qualquer zen-budista de ansiedade e a precisão de quem já viveu aquilo tudo, de alguma forma, na hora de dirigir.
A montagem da Fernanda se revela nas marcações, nos tempos dos diálogos e na inexperiência de alguns atores (como a mina e o vocalista) a qual parece ter sido fator de decisão na hora de montar o elenco, ou seja, até essa inexperiência é recurso.
Não há um arroubo qualquer na iluminação, como é pra ser num porão. Há sim uma exploração do espaço dos satyros de forma a transformar toda aquela profundidade num lugar pequeno, nada aconchegante, frio e apertado para as angústias dos cinco que passam por ele. A trilha é bem escolhida e, via de regra, bem encaixada com os diálogos entrecortados, apesar do tema happy-ending.
Enfim, arestas (poucas) à parte, há espaço pra uma experimentação de tempo de diálogo que dá vontade de gritar pra todo mundo dos prédios acima dos teatros da Roosevelt: Hey, o que vocês não estão fazendo aqui?
4 Revistas Capricho
PS: Ok. Talvez nem todo mundo entendesse. Mesmo assim, sem gritaria nem nada, havia lá 14 pessoas pra ver a segunda apresentação de Roxo. O que é excepcional. Nós, aqui na Bacante, estamos on-line 24h e estamos beirando 30 page-views diários, sendo 10 meus, 10 do Maurício e 10 de gente procurando bacanal. Ou seja, pelos nossos parâmetros, Roxo é praticamente um sucesso.


4 Caprichos foi ótimo! rs Bem a calhar!
Bjos,
Juli.
a “mina” achou ótimo que vc tenha, não apenas ido, mas escrito sobre a peça. 14 pessoas não é um sucesso, mas 14 pessoas fora do sofá num domingo, praticamente no fim da tarde, sentadas num porão escuro, frio, úmido e horrível; bom, é algum sucesso.
Apareça para ver o Bate-Papo. Talvez não seja seu estilo de peça, mas eu garanto que é melhor que ficar no sofá no domingo.
Oi Júlia
Desculpe minha demora na resposta.
Talvez você não saiba, mas esse foi meu primeiro texto na Bacante. Texto de estréia.
Sobre teu novo trabalho, Bate-Papo, quero conferir tb. Vou ver se ainda está em carta.
E sim, as catorze pessoas pode ser sucesso ou fracasso. Depende de quem vê. Eu acho um sucesso.
Brande abraço e apareça.