Críticas

Sangue Bom

por Astier Basílio

3 Comentários 12 December 2008

Chupa que é de uva

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Minha experiência com teatro de bonecos era nenhuma quando eu fui ver o Festival Sesi Bonecos, em João Pessoa. Uma puta estrutura que foi montada na Praça do Bispo – aliás, o festival começou no domingo e atrasou uns bons minutos porque o padre estava lá celebrando a missa. Soube ainda que uma noiva ia se casar naquele mesmo dia, mas conseguiu, depois de muito choro e ranger de dentes, transferir a cerimônia para o Convento São Francisco.

Mas, voltando à Praça do Bispo, que também é conhecida como Praça Dom Adauto, lá havia três palcos, um cirquinho, além de exposições e tal. O único espetáculo adulto da mostra era Sangue Bom, da companhia carioca Pequod. Foi apresentado no primeiro dia, encerrando a programação. Já era à noite quando o locutor avisou que a peça não era infantil, mas não disse que era para tirar os pequenos “da sala” como as vinhetas educativas que antecedem novelas, programas humorísticos e horário político.

“A praça ficou pequena para tanta gente”. É um clichê ótimo para eu jogar aqui nesse parágrafo. Ficou tão pequena que não tinha cadeira pra todo mundo sentar.Algumas apresentações, como a do palco três, eram para ser vistas de pé mesmo. Resultado? Estava, como se diz por aqui, só o coió, só o pito, só as ancoretas quando começou a peça do Pequod. Não sei dizer até que ponto isso influenciou no fato de eu considerar o espetáculo longo, com cenas sobrando.

Agora, momento Telecurso segundo grau – Tecendo o Saber. Há várias formas de teatro de bonecos. Aprendi que “marionete” é só mais um e não designa o gênero. Há o teatro de sombras; a manipulação direta; a manipulação com luva; a manipulação com vara; mamulengo, entre outras. Em geral, não deu pra contar ao certo, mas em “Sangue Bom” eram, em média, três atores manipulando cada boneco. A peça tinha três personagens.

O espetáculo inicia com os atores em cena, estão vestidos com farrapos que são um misto de Cantil com o clip do Thriller, vão empilhando caixotes que em seguida se transformam em castelo. E é de dentro destas caixas que miniaturas de ambientes como quartos e salas, nos seus mínimos detalhes, vão sendo revelados e por lá também que acontecem as perseguições e a luta do bem com o mal.

Nem a iluminação, nem o figurino, nem o processo de manipulação, em suma, nada disso escondeu os manipuladores, ao contrário, o potencial de interpretação deles era jogado em cena. Os bonequinhos – cujo feitio era muito parecido com a estética da “Noiva Cadáver” – não mexiam a boca, mas os atores construíam máscaras, faziam partituras e, principalmente, utilizavam o som da boca com grunhinhos também conhecidos pelo apelido de gromelô.

A peça começa brincando com um clichê. O vampiro que sai de dentro de um caixão, quando os atores estão fazendo o carregamento das caixas. Mas, aí é que vem o bom do “Sangue Bom”: a desconstrução desses mesmos clichês. Primeiro: a peça dos bonecos tava até então com cara de TV Colosso, bem família e tal. Logo no comecinho uma boneca – era a cara da Morticia Adams – tenta o suicídio enforcando-se. Tenta ainda se matar de outras formas como se entupindo de remédios, dando tiro nos miolos, mas nada. Vivinha da silva.

O Vampiro lá, rondando. Mas, não tem coragem de morder o pescoço da Moça. Pra resumir ele se apaixona pela boneca. Quando o casal começa a viver o “felizes para sempre”, um boneco louro, alto, sarado forte, biotipo Malhação, que havia sido rechaçado pelo Morticia cenas antes, entra no meio de campo para atrapalhar a história e se tornar o que convencionalmente chamamos de “empata foda“.

Empata foda literalmente. É, os bonequinhos vão pras vias de fato. O Vampirão tira a blusa da Morticia – que pode concorrer na categoria1: Prêmio Sutiã UnBra de Melhor Pagação de Peitinho – e pratica sexo oral com ela (será que a Morticia estava menstruada, por isso o Vampirão uniu o útil ao agradável?). Quem não conseguia ver a peça do palco podia acompanhar de um dos três telões colocados ao longo da praça. O câmera era useiro e vezeiro (termo arcaico ainda em voga aqui no Nordeste que designa “ação repetiva e reiteirada) em usar o efeito “zoom”. Efeito muito comum aos cinegrafistas caseiros que filmam aniversário, sabe?. Ou seja, só não viu a cena do rala e rola quem não quis. E quem não quis ver foi uma senhora que arrastou uma criança pelo braço causando, quem sabe no futuro, algum trauma no moleque. Imagino que pela risadagem – riam e apontavam pra mulher arrastando o moleque – o restante das famílias ali não se incomodou muito com a cena.

Voltando à história. A Morticia ainda aos beijos com o Vampirão foi acertada e morta pelo Malhadinho. Ele usou, olha só a ironia, uma flecha, como se fosse um cupido.

Eu queria mais uma piadinha envolvendo “boneco”, “Vampiro” e… sexo oral, mas acho bom terminar dizendo que achei maneiro, me diverti e ainda ganhei, da assessoria, um mamulengo que já ganhou o nome de Mané Preto com o qual deverei fazer algumas presepadas.

3 advertências necessárias: contém incitação ao suicídio, cenas de violência e sexo.

O que a galera acha

3 comentários até o momento

  1. ai astier… você me obriga ser ´a chata´ novamente: você contou o final da peça! :(

  2. Astier Basílio says:

    Clarinha,
    contei não.
    Tem mais coisa.
    Espere pra ver.
    Garanto: vc nunca vai
    ver nada igual.
    Beijo

  3. hummm… ótimo saber. eu e demais leitores agradecemos. adoro teatro de bonecos! ;) beijos de bom dia!!


E você, o que acha?

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