Críticas

Sangue na Barbearia

por Valmir Júnior

Nenhum Comentário 22 October 2007

Sangue na Barbearia

Foto: Gal Oppido


Conheci Darson Ribeiro de relance no café dos Satyros II. Ele estava para entrar em cena. “Conheci”… Vai, na verdade, cruzei (ui!). Dei um “Oi”. Estava entrevistando o Ivam Cabral para o meu TCC e ele me apresentou o ator. Ele nem deve lembrar. Mas eu lembro que não era um homem mais alto que eu. Ele comia um lanchinho antes de entrar em cena com um afinco… Depois assisti O Anjo do Pavilhão Cinco, com o Ivam, o Darson, o André Fusko, o Fábio Penna e a Maria Gândara. Amei e tudo o mais. Daí, só fui ver o Darson neste domingo em cena com Antonio Petrin. E pude ver uma outra faceta: mais alto do que parecia, Darson Ribeiro cresceu no palco do Teatro União Cultural.

Sua interpretação, incrivelmente superior à de Antonio Petrin (um medalhão do teatro paulistano), é o que chama a atenção em Sangue na Barbearia. Falo da interpretação, mas tb foi ele quem fez a adaptação de textos dos escritores argentinos Grizelda Gambaro e Carlos Gorostiza e é ele quem dirige a montagem. (Um artista multifuncional, não é mesmo? Por causa disso, várias vezes escrevi “Darson” no texto, pra ficar proporcional à participação dele na peça – então não me reprove, leitor).

Duas histórias são contadas: na primeira, um homem obcecado pelo teatro (Ribeiro) não sai do edifício, à espera pelo público, até que seu amigo Zé (Petrin), o barbeiro, entra para fazê-lo desistir da obsessão; na segunda, o barbeiro Zé está na pasmaceira de seu trabalho quando um cliente pede para ser atendido. As histórias se complementam e versam sobre o existencialismo daquelas vidas. O que significa a vida? Sentar e esperar é melhor do que almejar e buscar? Mas o que é sentar e esperar? As personagens duelam para tentar encontrar sentido, presas naquele ambiente inóspito do teatro. Encenam, conversam, brigam. E vão se redescobrindo. Aos poucos, esmorece o sentido de discutir e nasce o desejo de ser alguma coisa, mas o que fazer com o desejo se não se pode realizá-lo sozinho? Camus e amigos conversariam sobre isso facilmente num bar.

A duração do espetáculo, especialmente da primeira parte, é bem maior do que o desejável. A certa altura, dá vontade de entrar em cena e dizer: “Escuta, vamos partir para outra conversa?” A intenção é promover uma grande discussão acerca do sonhos das pessoas e Darson Ribeiro parece querer discutir especificamente o ofício do ator neste país em que talento e vocação não entram em consonância com política cultural e gosto do público. Talvez uma tentativa de atingir um pouco de sua própria história. O mesmo – engraçado! – acontece com Antonio Petrin que, ainda que não interprete um ator, fala de si próprio ao despertar uma discussão acerca de sua idade. Em outras palavras: terapia de grupo no teatro. Mas mais do que terapia, o primeiro ato foca as velhas questões: por quê? Por que vida? Por que sonhos? E, ainda bem, ninguém pretende respondê-las no espetáculo.

O segundo ato começa em outro ritmo. A personagem de Darson praticamente monologa em cena, dando a Petrin algumas poucas palavras. Muito mais dinâmica, esta parte apenas peca pela insistência do texto em fazer, repetidamente, com que o cliente erga a voz para o barbeiro Zé e, ao deparar com a cara feia do mesmo, baixe novamente o tom e faça o que ele quer.

Existe uma atmosfera de teatro do absurdo ali, um pouco de Harold Pinter nas palavras arremessadas ao acaso, ou às vezes com um resquício de Nelson Rodrigues no fato de as frases de um serem completadas e também interrompidas pelo outro. O desfecho é um grito, um “basta”, contra o assunto mais comentado do espetáculo: “sentar e esperar a vida passar”. Não dá para esperar. E quem espera, nem sempre alcança.

Com trilha de Ney Matogrosso, Sangue na Barbearia é um espetáculo interessante. Só fico ressabiado com o fato do público parecer não ter mais paciência para assistir uma tragicomédia com tons absurdos, que foi o caso da platéia do União Cultural. Muita gente falando alto durante o espetáculo, se coçando na cadeira, rindo porque o ator tropeçou em algum lugar sem querer, completamente fora da atmosfera envolvente do espetáculo. Eu continuo pensando se tem gente que realmente não deve ir ao teatro e ficar em casa. Será? Mais uma vez, palmas aos dois atores por se manterem impecáveis e imaculados de qualquer problema que diga respeito ao público.

3 belas referências a Macbeth

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