Críticas

Senhora dos Afogados

por Valmir Júnior

14 Comentários 14 April 2008

O pato fora d’água

Leia também a crítica de Emilliano Freitas sobre a mesma peça.

Tem, ainda, a crítica de Maurício Alcântara a outra montagem do mesmo texto de Nelson Rodrigues.

Odeio a figura do “monstro sagrado” (pra mim monstro sagrado é um contra-senso, ou é monstro profano ou deus sagrado) e nego veementemente esta pecha a alguém – o próprio Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra (acho chique citar Nelson numa resenha sobre a peça dele). Por isso, quando dizem que Antunes deve ser respeitado por seu magnífico trabalho teatral, ou dizem o mesmo de Fernanda Montenegro e congêneres, dou uma risadinha. Ah, eles erram também, não? Acho que sim.

Portanto, não entendo o porquê da crítica elogiar tanto Senhora dos Afogados, do falecido Nelson-Rodrigues-citado-acima-leitor quando a peça dirigida por Antunes Filho não se trata exatamente de uma obra tão prima assim… Concordo com uma frasezinha de Alberto Guzik (o primeiro ex-crítico que virou ator do Brasil), em que ele diz que “o resultado não me apaixona”. Eu não me apaixonei por nada. Aliás, creio ser um espetáculo desencontrado.

Se você ler sobre Nelson Rodrigues, vai entender que o tricolor pernambucano (que às vezes torcia por engano para o Flamengo) escrevia pretendendo atingir o seguinte efeito: que o público risse sim das desgraças alheias, mesmo seus textos não sendo comédias rasgadas, mas que ele também se enxergasse – e aí acabasse rindo de si mesmo. Era comum que todos rissem das peças rodrigueanas, e foi exatamente o que aconteceu no SESC Anchieta.

Mas o desencontro começa aí: o público ri do bordão de certa personagem (um lamento péssimo da personagem mãe de Misael), da frase de intenção mal-alinhada com os propósitos do texto ou de uma ou outra situação estranha. Não ri das paixões, dos exageros, dos extremismos tão comuns no melodrama de Nelson. Em suma, o público ri da forma. Foi o que Antunes imprimiu no espetáculo: forma sobre forma.

A forma toma forma numa espécie de musical, com seus ares operísticos dignos de um My Fair Lady, encabeçados pelo coro; ou então nas distorções das vozes que não produzem efeito nenhum – é o expressionismo pelo expressionismo, não há sentido em distorcê-las naquele contexto. Um palco límpido, com algumas cadeiras que vão formando a marcação cênica precisa e um negrume nos figurinos. Pareceu que Antunes queria reverberar algum sentido recôndito do espetáculo, mas que precisa de muita generosidade por parte de crítica e público para se fazer uma associação. Ah, okay, vamos lá.

As distorções poderiam ser:

  1. uma demonstração de que as pessoas já se encontram afogadas psicologicamente;
  2. um símbolo para a degradação da família Drummond;
  3. uma máscara para afastar a anedota esvaziadora (peguei do Sérgio Sálvia Coelho);
  4. um espetáculo que não deseja seduzir (peguei do Guzik);
  5. n.d.a.

Fato é: a peça tem um quê alucinatório que é dela própria, e obviamente necessita de mais do que apenas o expressionismo que nos é apresentado. A história da peça é um compêndio do que Nelson Rodrigues fez com quase todas as peças: é revelação e melodrama atrás de outro. Por ser a quinta peça dele, talvez, o exercício de estilo estivesse impregnado de mel e das reviravoltas rocambolescas da trama. Simplificando o miojo de relações: a família Drummond sofre pela perda de mais uma filha, que foi levada pelo mar. A filha que restou, Moema (Angélica di Paula), é apaixonada pelo pai, Misael (Lee Thalor), que é acusado de ter assassinado uma prostituta há 19 anos. Enquanto isso, o noivo (Eric Lenate) de Moema se revela o filho da prostituta morta, e a matriarca da família – D. Eduarda (Valentina Lattuada) – esconde um desejo.

Ah, soma-se aí mais um filho de atuação over the top, Paulo (Fred Mesquita), assim como aquele feito por João Vítor D’Alves em Álbum de Família. Essa é outra coisa que não entendo: para interpretar Nelson Rodrigues os atores têm que ter todo esse exagero? Não sei o porquê, existe até gente que veja uma codificação na interpretação, aquele jeito apaixonado, acalorado e grandiloqüente de interpretar. Pra quê? Daí, quem se salva do caldeirão é Valentina Lattuada com sua D. Eduarda soturna e segura. Posso destacar também para a performance de Angélica di Paula, mas, infelizmente, ela não segura a peteca no final. Justamente por não conseguir alcançar intensidades maiores para suas emoções, pois se esforçou demais antes do clímax da personagem.

Com todos esses problemas, é admirável que ainda possam se referir a Antunes como um monstro sagrado. Ou que seu espetáculo é quase uma obra-prima. Aliás, diga-se, há um tempo não assisto um Nelson com menos paixão e reverência pela obra do autor (talvez somente a do Armazém, e com algumas reservas). Falta arrojo e falta adaptação. Há sinais de desgaste nas fórmulas de Antunes e é possível perceber os truques. E ser um monstro sagrado, uma unanimidade, não é bom pra ninguém. Creio que Antunes até rejeita o título, mas é necessário dar uma volta de 180°, rumar para outro lugar, se desconstruir para reconstruir. É mais fácil eu virar crítico respeitável, eu sei. Mas se por acaso acontecer, daí a gente tenta conversar.

1 andorinha com voz de pato não faz um verão

O que a galera acha

14 comentários até o momento

  1. astier basílio says:

    Walmir Júnior e o seu manto/telhado de estilhaço/tecnicolor

  2. Edu carvalho says:

    Parabéns!!!

  3. Valmir says:

    Astier e Edu, valeu!

  4. Daniel Araújo says:

    Há tempos que o Antunes do teatro Anchieta já morreu, porém é no setimo andar do SESC Consolação que ele continua mais vivo do que nunca. Gostaria muito de ler alguma coisa nesta revista sobre o Antunes que vive lá em cima coordenando o pret-à-porter. É lá que se encontra a desconstrução e reconstrução que o autor tanto se referiu em Senhora dos Afogados.

  5. dyl pires says:

    acho que a crítica teatral que continuar simplesmente se apoiando na matriz literária p poder arremessar um olhar sobre a cena está escrevendo num vazio estéril. a dramaturgia, mesmo no caso do antunes, que ainda está sob o primado do texto, pede uma um olhar voltado para a escritura cênica e não mais para a grande madrasta má: a literatura.

  6. Juli =) says:

    Oi, Dyl. Você chama Dyl mesmo ou é apelido?
    Concordo contigo e acho bacana esse seu olhar da dramaturgia. Nada contra a tal madrasta má (tá na moda, aliás), pelo contrário, mas os próprios dramaturgos, ao menos os mais envolvidos de fato com a criação, sabem da necessidade desse olhar que une e que inclui no texto todos os demais elementos. Tive uma conversa bacana sobre isso com o Bosco Brasil, que apesar de ainda defender um respeito ao texto que ao meu ver é exagerado, é uma pessoa que tem essa visão do todo, do dramaturgo que é “de teatro” não no sentido do “gueto teatral”, mas no sentido de conhecer o teatro profundamente de diversas maneiras e, por isso, poder escrever para teatro com uma visão mais completa da estrutura cênica.

    Voltando ao Antunese a essa peça, qual olhar você sugere como mais relevante, menos preso à literatura? Ou, se você lançou esse olhar, o que você encontrou/ concluiu?

    Beijos,
    Juli =)

  7. Juli =) says:

    Oi, Daniel!

    Morreu??? Meu Deus! Antes de devolver meu guarda-chuva! Que droga…

    Viu, o que exatamente vc quer que a gente escreva sobre o coordenador-mór do sétimo andar? Tipassim, a cor preferida dele? Manda aí uma sugestão de pauta que a gente agenda uma entreista com o tio. haha Pra 2010!

    Beijo.

  8. Daniel Araújo says:

    Olá Juli,

    uma entrevista com o bruxo? isso seria um caminho óbvio demais. Gostaria apenas que alguém desse uma olhada nas cenas criadas pelos atores lá em cima e comentasse a respeito. Como bem foi dito anteriormente há uma preocupação demasiada com o texto no que concerne a critica teatral, porém muito pouco se falou da escritura cênica, sobretudo quando esta deixa de ser privilégio do diretor e fica a cargo de um ator autônomo, criador e arquiteto de sua arte. Acho que o caminho aberto com o pret-à-porter merece um pouco mais de atenção por parte da crítica. Seria pedir demais?

    Grande abraço.

  9. Então, Daniel… Nós temos algumas críticas aqui pro pret-a-porter 8 e o 9… além de uma pra “o céu 5 minutos…”. Dê uma procurada. Aliás, tenho uma postura bem crítica, sobretudo a esse Antunes lá de cima. Sobretudo no pret-a-porter, tenho a impressao de que a produção é ainda mais irrelevante do que lá embaixo no Anchieta….
    Abraço!

  10. Daniel Araújo says:

    Ok Maurício,

    vou dar uma olhada nos arquivos. Não tinha ainda sacado o rico acervo de criticas.

    valeu.

  11. kiko says:

    Acho muito boa su crítica, bom embasamento!!
    Assiti Senhora dos Afogados no Fit de Rio Preto, muitos amigos nao gostaram, mas gostei.
    quando uma certa Cia se destaca pr seus trbalhos, muitos tendem a critica-lá mesmo, isso é da sociedade. Penso que muitos não entenderam a proposta de Antunes, por isso muitas críticas, penso que Antunes segue em seu espetáculo pelo viés do expressionismo , por isso certos exageiros nas encenações. Porém alguns atores não deram profunda valorização ao texto de Nelson como é o caso do bordao usado pela atriz que faz a mãe de Misael. De resto gostei!! extraí algumas coisas boas da encenação.
    Parabéns pelo seu trabalho!! boa crítica!!

  12. Kiko Rieser says:

    Rebatendo o meu xará, a ATRIZ que faz a mãe de Misael?! Que ótimo!!!

  13. Murilo says:

    A “atriz” que faz a avó de Moema chama-se Marcos de Andrade.

  14. Murilo says:

    Como dizia a minha própria avó, tem gente que olha o bosque e só vê lenha pra fogueira. Fazer o quê? Ignorar a ignorância, óbvio.


E você, o que acha?

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