Nem toda deficiência é física
foto: Guto Muniz

Depois de A Acusação, pra rimar, entrou em cartaz Servidão, da Odeon Companhia de Teatro de Belo Horizonte, a segunda peça da ponte aérea MG/SP pelo projeto Cena Contemporânea de Minas, no Tusp. A montagem é uma livre adaptação de “Of Human Bondage”, de W. Somerset Maughan, dirigida por Carlos Gradim.
O nome do espetáculo é o mote de toda a encenação – a servidão de uma empregada pobre para senhores ricos é revertida quando um dos homens se apaixona por ela e passa a ser servo desse amor. A servidão que antes era determinada pela classe econômica, passa a ser controlada pelos sentimentos.
Para compor o cenário da montagem, o grupo se utiliza de uma estrutura semi-transparente, que deixa a cena nítida ou não, dependendo da iluminação, e divide o espaço em três cômodos – quatro, se contarmos a parte da frente da tal estrutura. Em cena, quatro personagens. O protagonista é Philip (Luiz Arthur) – ingênuo, inteligente, mas que tem uma deficiência no pé esquerdo. O objeto de seu desejo é a garçonete Mildred (Samira Ávila), que por sua vez se interessa pelo “amigo” de Philip, Griffths (Rafael Neumayr), um estudante que só quer curtir com Mildred, mas que preza pela própria imagem perante a sociedade. E para completar, a personagem mais desfalcada da história, a escritora de romances para “empregadinhas” (sabe aqueles livros, tipo Sabrina, que são vendidos em bancas de jornais?) Norah (Cynthia Paulino), que gosta de Philip.
A montagem peca por trazer uma moral explícita a cada cena e explicar timtim por timtim o que quis dizer cada passagem, deixando a peça um tanto didática. Em contrapartida, a encenação usa de metalinguagem no início da peça, misturando as desilusões artísticas do personagem principal, com a própria peça como obra de arte. Nesse ponto, o intérprete do protagonista, Luiz Arthur, entorta no palco mesmo a perna deficiente de seu personagem, relativizando a idéia de uma deficiência e mostrando que estas também podem ser construídas.
Algumas cenas ganham boa resolução cênica, como a em que Philip, Griffths e Mildred estão jantando e só aparecem as pernas dos três personagens. Com somente a metade do corpo e as falas, já fica bem claro o erotismo servil que a cena tematiza. O público acompanha as informações por meio dos movimentos das pernas, em uma linguagem quase cinematográfica, proporcionada pela disposição do cenário com as paredes semi-transparentes e pela iluminação.
Com um cenário dinâmico, boas atuações e uma história simples, a companhia mineira poderia soltar um pouco da mão do espectador e deixá-lo caminhar sozinho. Mas é sempre um prazer conferir o que se anda fazendo atualmente lá pelas terras de Guimarães Rosa.
2,5 amores partidos
A peça e fraca, as resoluções são péssimas, o texto triste porém envolvente, mas nesta encenação não me tocou, assisti este mesmo texto na Colombia de um grupo Croata, bem mais feito. A personagem Norah simplesmente e um erro de interpretação, Philip um exagero, e os outros dois passam sem compremeter o espetáculo.