Críticas

Sessenta Minutos para o Fim

por Juliene Codognotto

2 Comentários 22 May 2009

Era uma vez uma vida sem sentido

Fotos: Nelson Kao

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Se, ao ver o título da crítica, você achou que eu escreveria sobre a sua história… calma. É meio deprê, mas não é, necessariamente, caso de recorrer ao Prozac. Na verdade, se você pensou isso, deveria sentir-se feliz e plenamente integrado, pois isso te faz um ser humano adaptado à essência do mundo contemporâneo.

Muito bem… vamos começar…

Era uma vez uma vida sem sentido. Era uma vez a dificuldade de encontrar sentidos para o fazer artístico – imitar a vida? Criticar a vida? Celebrar a vida? Suicídio coletivo? Teatro pseudo-pós-dramático?

Chega-se, então, a um momento de vazio – se o protagonismo já não serve, o autoritarismo está demodê, o reencontro entre pai e filha é piegas demais pro nosso gosto, o noticiário só repete pareceres sobre os espirros dos porcos e do fim da humanidade vencida pela gripe, e os ursos de pelúcia gigantes vão dominar o mundo, do que nos resta falar?

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Eis que, num daqueles segundos de silêncio em que passa um anjo, uma luz parece apontar uma saída do túnel e, observados e comandados por um coelho verde tão gigante quanto os ursos de pelúcia já citados aqui, dois personagens de Sessenta minutos para o fim, emprestados de Fim de Partida, empreendem uma longa e emocionante caminhada de quatro difíceis passos em direção ao limite entre palco e público.

Tensão.

E ali, no limite entre manter o público sem função ou fazer dele parte da encenação e proporcionar – além da contemplação – uma vivência de algum modo transformadora, eles param… é cansativo… e decidem retornar aos velhos papéis e às velhas posições no centro do palco – um pouco mais pra direita, um pouco mais para trás…

Depois de abandonar a chance de levar em conta talvez o único elemento que pudesse devolver o sentido daquela encenação, não faz sentido o “truque” do distanciamento cênico, nem, menos ainda, a tentativa de conduzir nossa imaginação, por meio da fala de um personagem, a um futuro triste, em que o teatro está vazio, em que não há mais público. (atenção para períodos longos, com mtas vírgulas… colocaria um ponto final pra dar fôlego) Afinal, não parece incoerente projetar e lamentar a falta que faz a vida e a abundância de possibilidades de uma platéia que você está deliberadamente ignorando e subaproveitando hoje?

Talvez, ao se perguntar “do que falar?”, seja o caso de se perguntar “como?” e “para quem?”.

Talvez, ao se perguntar isso, o grupo do butequeiro César Ribeiro, tenha resolvido falar justamente sobre essas questões relativas ao fazer artístico que permeiam essa crítica. Isso, a princípio, já é um desafio difícil, certamente.

Mas, talvez, escolher essa forma de encenação para abordar o tema tenha sido uma opção pouco ou nada propositiva, a opção de um observador descrente, que age aprofundando uma crise já evidente (o que é deveras fundamental), mas sem colocar-se responsabilidade sobre a questão, sem apontar, em sua própria atitude, outros trajetos possíveis nesta longa caminhada em busca de um contato verdadeiro ou de um pouco de vida.

Mata-se o foco e a felicidade no texto, mas, na encenação, a quarta parede (tão difamada, a pobre) e o protagonismo (ainda que fora do palco) permanecem intactos.

4 quilômetros a percorrer com 4 passos

O que a galera acha

2 comentários até o momento

  1. Salve salve Juli, beleza?
    Valeu pelo texto.
    Mandei um email pra você.
    E a cervejada?
    beijão

  2. revolts says:

    concordo com a parte do observador descrente.


E você, o que acha?

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