Críticas

Silêncio Total – Vem chegando o Palhaço

por Astier Basílio

3 Comentários 14 October 2008

Why so serious

Foto: Rachel Coelho
Não sei a propósito de que comecei a falar sobre como a maldade se encontra em estado puro nas crianças. “Seres perversos”, dizia. Só me toquei que poderia estar falando besteira quando usei a palavra, ou melhor, o hipertexto “culpa”. É que quem tava sentada do meu lado era a Maúde. Ela é psicóloga.

- Eu adoro o palhaço Xuxu porque ele é o palhaço mais autoritário que eu conheço – me disse toda inocente a Maúde.

Tão ligados naquela propaganda de um moleque que conta o filme na fila do cinema? Me senti meio assim. Essa pequena informação me tirou o fator surpresa.
Bom, finalmente, o Xuxu finalmente chegou. Quase 40 minutos de atraso, depois de palmas, gritos e ameaças de ataques terroristas dos pequenos que foram (levados pelos pais a) comemorar o dia da Criança no Anfiteatro do Estação Ciência, em João Pessoa

- Cê nunca viu o Palhaço Xuxu antes? – me perguntou a Maúde.

Não, nunca. Sabia que o Luiz Carlos Vasconcelos, o diretor da Piollin, circulava com esse palhaço há um tempão, mas não sei porque raios nunca me mexi pra vê-lo. Então lá estava eu, pagando de crítico na platéia do Silêncio Total – Vem Chegando um Palhaço.

A primeira coisa de que me lembrei quando palhaço subiu ao palco foi do Coringa, mas não do Coringa personagem, com todas as especulações ontológicas em torno do figura, mas o Coringa do Ledger. Não, não há elementos cênicos, pictóricos e clownescos mais profundos que permitam fazer ilações (ui!) entre a composição de ambos personagens. Mas, eu lembrei.

Mais de duzentos piralhos meio chateados com o atraso, pensei: tarefa difícil domar os moleques. O Xuxu é um palhaço meio ranzinza, pelo silêncio o tempo todo, “silêncio total!” é o seu bordão mais do que funcional, que nem Bombril, com mil e uma utilidades; é assumidamente vaidoso, pede palma toda hora, fica ajeitando a trunfa (embora o Dicionário Nordestinês não registre, “trunfa” é o mesmo que topete).

Como eu dizia, lá no papo com a Maúde, criança é cruel; cruel inclusive em sua sinceridade, sempre expressa sem filtro. Por exemplo, toda vez que o Xuxu ajeitava a peruca, o lance da “trunfa” – o palhaço fez isso umas dez vezes, um guri atrás de mim dizia “de novo!”. Maúde me contou que antes o Xuxu usava uma peruca feita com aquelas fitinhas de K7, falou que tem foto e tudo. Fiquei curioso. A peruca loira pareceu algo meio Lôro José, meio Aquele-Palhaço-do-MC-Dia-Feliz.

Os números não eram, digamos que, diferentes dos feitos por aí. Só que o tom meio de velho abusado (abusado em nordestinês é chato, ok?) que o Xuxu encarnava ressignificava a coisa, punha um certo desequilíbrio que mantinha uma tensão no espectador, adulto e criança – pelo que pude observar.

Criança é sincera demais. Tanto é que começaram a se ouvir os choros, gritinhos e conversas e zunzunzuns quando Luiz – e não mais Xuxu – leu a declaração do Riso da Terra. Pra quê aquele texto? Belo, bem escrito, poético, mas mais por fora que… que… palhaço se levando a sério.

- Preciso de dois voluntários, duas crianças.

Maúde me olha, nossa, coitados, eles não sabem o que esperam. Cara, o Xuxu deu o mó banho nos moleques. Não vou descrever a cena não, mas a platéia se esbaldou – tanto com a desgraça dos pequenos – petizes (beijo me liga, Tas) que eram encharcados pelo palhaço, como literalmente, com a água que também sobrou pra quem ficou em frente ao palco.

- Ainda bem que a gente tá sentada aqui do teu lado Maúde, por isso que o Xuxu não tá molhando a gente – falou a vizinha da direita.

Depois de me divertir que nem as crianças, fiquei pensando como seria legal se Luiz levasse esse trabalho de palhaço para uma composição de um espetáculo teatral em que se experimentasse esse tipo de proposta.

Um dos momentos mais líricos (ai que meigo) do espetáculo foi quando Xuxu deu corda a um bonequinho, uma cópiazinha dele (ai que fofo!). O palhacinho ficou lá, tocando acordeom . Xuxu se afastou, pé ante pé, pra assistir ao número junto com a porrada de crianças que foram lá pra frente, na beira do palco, ver melhor. Quando a corda do boneco acabou, o palhaço fez o show continuar, tocando de onde a música parou, rodeado por crianças.

Fiquei pensando como seria legal se Luiz Carlos levasse essa sua pesquisa palhaçal pra Piollin e o grupo se arriscasse em um espetáculo com essa estética.

Do que será que o Francisco mais gostou na peça?

PS explicativa da cotação: Francisco é o filho de Luiz Carlos. Há duas semanas, os dois viram Pequenos Milagres do grupo Galpão. Na saída, Luiz pergunta: “o que você achou do espetáculo, filho?”, o menino responde: “eu gostei”, o pai continua perguntando, “mas, você gostou mais de quê?”, Francisco conta: “dos tiros e dos palavrões”.

O que a galera acha

3 comentários até o momento

  1. Rodolfo Lima says:

    Rachel Coelho + Astier Basílio = que dupla é essa?
    rsrsrsrs
    adorei o texto.

  2. Lembro do Xuxu brigando com um cara que fumava na platéia, dizendo que era um desrespeito às crianças. O cara jogou o cigarro no chão e num golpe de ninja o palhaço pegou o cigarro e o fumou até o fim! Um bom palhaço se faz dessas pequenas surpresas. Mesmo que no final o público fique todo molhado.

  3. Astier Basílio says:

    nossa!
    muito legal isso


E você, o que acha?

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