Críticas

Sola de Palhaça Vita Intensa!!!

por Fabrício Muriana

Nenhum Comentário 01 October 2007

Um monólogo de palhaça

Foto: Pietro di Sicilia

Esse Monte de Mulher Palhaça é um festival internacional patrocinado pela Petrobras, que convida somente mulheres, mas do mundo inteiro, para mostrar seus dotes de bufo – recuso-me a procurar o feminino dessa palavra – em várias apresentações no Rio de Janeiro . Conferi o Cabaré de Quinta, que trouxe diversas esquetes curtas para o espaço SESC em Copacabana e assisti no domingo, último dia do festival, o trabalho de Lis Nobre, a palhaça Nanica, que se apresentou na praça Julio de Noronha, no Leme.

O apelido da palhaça não é eufemismo. Não havia muito mais de 1,60m de menina por trás da maquiagem e do nariz vermelho. Pra tomar conta de um grande semi-círculo com mais de seis metros de raio num palco a céu aberto, ela foi obrigada a usar aparelhagem de som, o que, pela primeira vez, não atrapalhou o espetáculo (digo isso pois som amplificado costuma ser o maior mico).

Sola de Palhaça Vita Intensa!!! é a história de uma palhaça que é abandonada por sua trupe pouco antes do espetáculo começar. Ela é a única a não ser contratada pelo circo do “Seu Léo” (sacou?) e agora passará a peça inteira tentando fazer o papel de todos os outros atores. Ou seja, a obra já vem incabada de saída, e por isso a moçoila não vai poupar participação da platéia para completar o seu espetáculo.

Como é característico da rua, não faltaram intervenções inesperadas. Destaque para o poodle hidropônico que roubou a cena por cerca de um minuto, enquanto Nanica se esgoelava no colo de uma pessoa da platéia. É inegável que a menina tem presença de palco inversamente proporcional à sua altura, além de reflexos de suricate na hora de responder a reações da platéia. Quando os sinos de uma igreja próxima anunciaram 18:00, ela parou o espetáculo e rogou a Deus que o mundo não fosse tomado pela barbárie.

Esse corpo estranho do bufo parece ganhar cada vez mais sentido na medida em que vemos a exacerbação de um mundo irracional exacerbação da irracionalidade cotidiana. Este mundo cheio de parâmetros bem definidos, por vezes determinantes de trajetórias, é o que serve de referência para o riso quando nos encontramos com um palhaço.

Aponto como rebarba algumas transições de cena meio lentas, mas digo também que o espetáculo da Palhaça Nanica cativa e faz pensar. A própria presença dessa menina ali no centro com tanto espaço vazio a ser preenchido, numa praia onde a preocupação com assaltos é uma constante, são indícios de que haja o que houver, esteja o mundo como estiver, a palhaçaria não pode parar.

3,1416 vezes o raio do palco ao quadrado, dividido por dois é igual à área a ser ocupada por 1,60m de gente.

E você, o que acha?

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