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Críticas

Soslaio

por Fabrício Muriana

2 Comentários 13 August 2007

Uma montagem muito complicada

Fotos: Lenise Pinheiro

Não vou negar, parti do relato deste texto aqui para iniciar a minha resenha, muito embora tenha me instigado muito mais a negá-lo. Sem autoria, o texto linkado tem toda a pinta de release, de tão puxa-saco que é. Descreve Soslaio, montagem da Cia. da Mentira, que ficou em cartaz no Sesc Paulista até a última quinta-feira. Devo, não nego e vou pagar minhas promessas nessa resenha.

Soslaio é um texto de Priscila Gontijo. Segundo consta no texto linkado, a autora se baseou em Harold Pinter e no cinema para produzir esse, que é o primeiro texto próprio da Cia. Da Mentira. Já o programa da peça acrescenta Jean Baudrillard, Marilena Chauí, José Saramago e Clarice Lispector como referências. Além de estar escrito lá, no tal programa, que também serviram de inspiração estética alguns recursos narrativos do cinema , para dar acabamento formal à peça, tais como “montagem, fragmentação deliberada da seqüência, a superposição de imagens”. Porém algo ficou perdido entre produção do texto, processo e montagem.

Quem leu o programa, interou-se dessas duas referências e viu a peça, deve ficar com cara de interrogação, como eu fiquei depois da primeira apresentação. A dramaturgia não dá chances. Realmente me questiono se a “fragmentação deliberada da seqüência” estava em cena, pois se assim for, digo que não entendi nada. O que se vê é um texto cheio de referências que não se explicam dentro do próprio espetáculo e com extensos momentos de absoluto hermetismo.

Não acho que uma montagem deva explicar suas referências obrigatoriamente, talvez a regra seja realmente não explicar. Mas é necessário transformar essas referências em linguagem. As cenas desenvolvidas para dar corpo a este texto acabam por enforcá-lo, já que transmitem muito pouco ao público. Alguma coisa das vozes dos atores pode ser citada como ponto alto, mas o corpo dos personagens não esta lá. Na verdade vemos um corpo muito específico: aquele que só aparece em montagens textocêntricas como essa de Soslaio.

Desde o início, a tal “superposição de imagens” acontece em dois lados do espaço, onde há duas imagens de projetores, mas sem interação dos atores. Tudo segue num fluxo de falas que parece não ter fim. Não há concretização de cenas. Vou me poupar de descrever a história, porque os personagens que nela estão parecem ter vindo de lugar nenhum e também não têm para onde ir – isso não é necessariamente um problema, mas nessa montagem foi desastroso.Fico com a sensação de que a peça se acelerou, que saiu antes do tempo, que a massa não cresceu nem tomou forma e que o bolo desandou. Talvez seja exagero citar, mas ficou como marca muito forte na minha cabeça o semblante dos atores recebendo os aplausos da platéia no último dia do espetáculo. Pareciam claramente desanimados (ok, pode ser o cansaço da própria peça, mas essa não é exatamente o tipo de peça cansativa, no sentido de um cansaço físico). Logo depois, um deles acrescenta sem entusiasmo que é o fim da temporada no Sesc e que devem tentar encenar mais uma vez no segundo semestre. Eu e minha fé no teatro esperamos que o processo de construção do espetáculo continue até a segunda temporada.

1 pouco mais de tempo de processo de criação

Ps: Eu sempre quis começar um texto fazendo referência a Zezé di Camargo e Luciano. Finalmente consegui. Pra quem ainda não pegou o espírito, segue um trecho aqui.

O que a galera acha

2 comentários até o momento

  1. teleco2002 says:

    Zezé de Camargo? Links ocultos? Tá bem hermético também…

  2. Fabrício Muriana says:

    ixi, Sérgio.
    Se a gente contasse todos os links ocultos que temos por aqui.
    Não é por maldade não. Queria quebrar o clima de princípio, pq sabia que tinha um texto dos mais difíceis pela frente. Fui ver duas vezes Soslaio e fui parar num limbo.
    Enfim, como não vi o primeiro trabalho da cia da mentira, continuo acomapanhando e verei o próximo.
    Abraço.


E você, o que acha?

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