Vídeo-franquia
Este texto dialoga com outra crítica feita para o mesmo espetáculo pelo Fabrício Muriana. Aqui, ó.
Quase uma semana depois, a Bacante voltou ao SESC Avenida Paulista para conferir novamente o Super Night Shot do Gob Squad. Como a proposta do espetáculo era a de ser interativo e de mudar a cada apresentação, nada melhor do que ver novamente, pra identificar o que muda realmente e o que não muda.
Ah, antes de prosseguir, uma observação séria (como todas as observações da Bacante): se você ainda não viu o Super Night Shot e ainda pretende ver, eu não recomendo esse texto. Tipo spoiler, sacou? Além de que o texto é ruim pra xuxu. Aliás, muito chique essa palavra, spoiler, né?
Posso continuar? Então vamos. Mais uma vez os quatro pelados (sendo um pelado da semana passada acompanhado de três pelados novos – praticamente um elenco do Zé Celso) chegam fazendo fuá no corredor pegando fogo. Desta vez, estávamos cientes de que este espetáculo é uma franquia do projeto original, e que por isso mesmo, não está aberto a adaptações locais. Tipo os musicais do Teatro Abril, sabe? Uma grande pena, mas o que podemos fazer?
À segunda vista, são perceptíveis ainda mais marcações, que vão desde coisas banais como os locais onde eles escrevem “Começa Agora Super Night Shot” com giz, até a locação onde acontece a cena final – duvido que tenha sido coincidência, até pela questão logística.
Qual o problema de haver tais marcações? Além de diminuir o potencial do espetáculo, como bem disse o Fabrício, nos traz questionamentos até mesmo com relação aos personagens. Por exemplo, com a locação predefinida, o ator tem uma responsabilidade menor sobre o resultado final, uma vez que fica o filme todo executando uma função diferente da apresentada nas regras: mostrar aos espectadores locações cinematográficas sem a preocupação de eleger uma delas.
Mas se considerarmos a necessidade de manter uma estrutura narrativa mínima, isso é importante para que os atores consigam se sincronizar e se organizar. É pra isso que servem as cenas em que eles dançam com guarda-chuvas, giram em torno da câmera ou colocam as máscaras de bichos, por exemplo. De qualquer maneira, a espontaneidade fica comprometida.
Mas eu não quero ser chato igual o Fabrício, que foi buscar lá nos cafundós historinhas de gente estranha que faz coisas esquisitas com vídeo só pra mostrar o que as coisas poderiam ter sido e não são. Até porque muitas das coisas de que sentimos falta, na verdade, sequer foram o objetivo dos criadores do projeto – nem dos performers brasileiros, nem dos gringos criadores.
Então, como o que a gente esperava não acontece, o que torna este espetáculo ainda assim tão divertido?
Primeiro de tudo, vemos o quanto os anônimos que eles buscam nas ruas fazem toda a diferença na execução final. O ritmo da segunda performance foi outro, mais animado, menos arrastado. Foi possível, inclusive, identificar como um simples diálogo com uma pessoa na rua pode desestabilizar um ator ao ponto de podermos enxergar o quão artificial é a estrutura narrativa proposta, e o quão verdadeiras podem ser as reações até mesmo de quem está interpretando. Ou seja, apesar de tantos artifícios e armaduras impostos pelo projeto, eles não estão imunes ao meio externo.
Há ainda outra coisa no mínimo curiosa de se observar: quando o público compra o ingresso, entra na sala e se senta para ver a performance, não é exatamente a performance que ele assiste, mas sua reprodução. Ainda que haja uma edição de áudio ao vivo, seria praticamente a mesma coisa assistir os vídeos no DVD, hoje ou daqui duas semanas (desconsiderando, claro, a questão do envolvimento coletivo que um cinema lotado também proporcionaria). Aliás, cinema é talvez a definição mais exata do que acontece na sala – e nisso a proposta do filme é cumprida. A performance propriamente dita acontece na rua, uma hora antes do público chegar.
Por outro lado, a platéia do auditório não é totalmente alheia. O próprio formato da exibição – em quatro telas simultâneas – permite uma edição que vai muito além do som manipulado ali mesmo. É como se os quatro atores, ao mesmo tempo em que se engajam pelo mesmo resultado, disputassem a atenção da platéia – e acabam ganhando os mais carismáticos.
Isso gera uma quantidade de edições igual ao número de receptores na sala, quebrando a estética clássica alemã de recepção, ao transformar a leitura da mensagem no próprio meio de transmissão dela. Mas disso, quem vai gostar mesmo é só o meu professor de Teoria da Comunicação, que inclusive ficaria feliz de saber que não foi todo mundo que dormiu em suas aulas (ou melhor, teve gente que não dormiu em todas as suas aulas).
Veredicto da Bacante, após duas apresentações vistas e duas análises: Super Night Shot é um espetáculo altamente recomendável por ser divertido, mas só. Dá vontade de sair por aí procurando quem consegue brincar com a câmera de vídeo com mais criatividade. Alguma indicação?
2 apresentações, diferentes impressões e um fotógrafo-bacante aparecendo no vídeo
PS: Quer uma terceira opinião? Tem também o texto do Nelson de Sá, lá no Cacilda.


