Made in Germany and England
Fotos: Maurício Alcântara
Em 1974, Letícia Parente inicia sua vídeo-performance Marca Registrada sentada numa cadeira, um dos pés com a sola virada para a câmera. Linha de costura passa pelo buraco da agulha e dá um nó. Ela então começa a costurar o próprio pé, e, depois de 10 minutos de tortura absurda pra quem assiste, vemos escrito com as linhas a expressão “Made In Brasil”, com “s” mesmo. O vídeo brasileiro nascia com uma característica extremamente política. Letícia, como muitos outros, estava inaugurando a linguagem por aqui através de portapacks (os primeiros aparelhos de vídeo portáteis). Arriscavam-se e definiam parâmetros pra outros que viriam depois.
Na década de oitenta do século passado, Tadeu Jungle parava transeuntes no viaduto do Chá, com microfone em riste e câmera apontada pros coitados. E não falava nada. Travestido em terno azul, olhava pra câmera, fazia caras e bocas e não dizia uma palavra. Se o coitado do cidadão quisesse sair andando, ele o segurava pelas mãos e continuava sem falar. Produzia assim um dos vídeos mais hilariantes e demonstrava ter total controle sobre aquela linguagem da TV, para poder parodiá-la e desconstruí-la na sua performance da TVDO.
Essas duas experiências radicais servem para explicar uma certa frustração minha com Super Night Shot, projeto do coletivo de arte britânico-alemão Gob Squad, em cartaz com atores brasileiros às quintas e sextas-feiras, no SESC Avenida Paulista.
Quando fui convidado a assistir a vídeo-performance projetada em quatro telões, uma câmera para cada ator, conexão por celular, mixagem ao vivo, talvez tenha feito expectativas demais. Porra, dois grandes atores em início de carreira que interpretavam em Rio Preto personagens super bem [des]construídos se propunham a explorar ainda novas fronteiras da linguagem do vídeo. Sem se preocupar com autoria (ao que me parece), eles dois e outros dois selecionados fizeram oficina com o pessoal do Gob Squad e foram pras ruas realizar o projeto.
Mas o que faltou? Em primeiro lugar uma adaptação ao nosso contexto, mais do que uma simples tradução do projeto e do seu arcabouço tecnológico. Enquanto aqui estamos pesquisando textura da imagem do vídeo (seja nas escolhas por câmeras de segurança, webcams, câmeras de média e baixa resolução), hibridismos mil (novas técnicas de revelação, animações, vídeo projetado em diversas superfícies, os vídeo-monstros de Otávio Donacci presentes em Rio Preto), afetações de diversas linguagens, o que nos chega com a montagem do Super Night Shot é uma tentativa de construção de narrativa a partir de anônimos abordados na rua. Tem grande valor como entretenimento e realmente faz chorar, mas como pesquisa de linguagem não apresenta nada de novo.
Não há duvida de que há risco e entrega. No entanto, o impacto desse risco é diminuído pela presença de seguranças, pela escolha de não sair dos entornos do Sesc Paulista, por não tentarem entrar onde está dito pra não ter câmeras (caso da heroína que não conseguiu entrar no Hospital Santa Catarina), enfim, por não haver incorporação da diversidade característica da rua, de uma forma mais ampla e corajosa. Além disso, os quatro personagens definidos pelo projeto original não têm a mesma relevância para o resultado final e dois deles se tornaram vídeo-paisagem com o passar de 15 minutos de projeções.
No final das contas, não há dúvidas de que a vivência do trabalho de vídeo-performance trará muitos frutos nos próximos trabalhos do grupo carioca. De minha parte, continuo buscando algo que dialogue mais com a tradição que temos no vídeo, sem perder também a tradição que temos no teatro. Algo mais Made in Brasil.
1 pessoa, pelo menos, chorando de emoção ao final do espetáculo.
PS: No processo de edição desse texto, o Maurício lembrou bem do filme Time Code, do Mike Figgis, que divide a tela de cinema em quatro, para mostrar todas as histórias em paralelo. Não assisti, mas é um diálogo quase certo com a montagem de Super Night Shot.
PPS: Nessa semana, o Maurício, de novo ele, deve assistir mais uma vez o Super Night Shot. Ele vai dar início a um projeto nosso de diálogo entre as críticas. Tentativa de constatar em que medida a crítica altera o espetáculo e o espetáculo corresponde à crítica. Ou seja, semana que vem tem mais um texto sobre este espetáculo, aqui abaixo.


Acho que temos q usar nossas referencias para que possamos entender as nossas frustacoes.
Nesta avaliacao, percebo que todas as usadas nao procedem para se entender o uso do video em/no espetaculo.
O espetculo procura trabalhar com referencias banais para se construir um heroi patetico no caos urbano- com a finalidade de se refletir sobre o anonimato. Nao numa autoralidade para se atingr trangressao social!!
Exite uma leveza a que o espetculo (serah um espetaculo?? Serah teatro?? Sera Video?? Eh na rua ou no palco??) se propoe e que integra publico e traseuntes num ato visionario de cada dia!
Rafael
Achei sensacional a clareza com que você resumiu o que é a opinião de todo mundo que assistiu comigo.
A minha questão incômoda é que essa construção de narrativa, sobretudo a partir de anônimos, não é algo que possamos chamar de novo. Das experiências radicais que citei no princípio (principalmente TVDO e Olhar Eletrônico), a TV pegou tudo que dava audiência e incorporou. Daí que vemos em qualquer fantástico, pânico, gugu, faustão da vida essas narrativas a partir de anônimos. Claro que há muitas distinções: o trabalho do Gob Squad é bem mais desprotegido e ainda tem as multi-telas. Mas você entende que eu não consigo ver algo essencialmente novo nessa construção de narrativa? E tb que a idéia de usar anônimos não chega a ser realmente diferente nem pra quem assiste, nem pra quem é abordado na rua (ainda mais na paulista, onde todas as redes de tv fazem suas tomadas externas). Fora isso tudo, ainda acho que o grupo se arriscou pouco, que dá pra colocar mais salsa nesse roteiro que eles pré-estabeleceram, principalmente no personagem que busca a locação e no outro que busca uma “pessoa quente”.
Por último, o que veio primeiro: as referências entram não só pra justificar minha frustração nem pra dizer que eu espero só transgressão social, mas pra dizer que eu acompanho uma tradição do vídeo brasileiro que tem um histórico muito mais radical em conceitos, em buscas e pesquisas. Pode ser que a minha leitura seja até mais pobre por conta disso, mas infelizmente é o que eu acabo procurando qdo alguém coloca uma câmera ligada na minha frente.
Muito obrigado pelo comentário sensato logo no começo da semana. Vamos discutindo.
Abraço.
Para ser provocativo… Como parece ser o teor da sua critica.
Acho que vc deveria acreditar mais no seu professor de teoria da comunicacao – talvez escrevesse com mais originalidade ou quem sabe mais profundidade!
Existe um lugar sobre o poetico, sobre o banal, epifanias de uma vida cotidiana, isso sem falar nos meios utilizados para se chegar num discurso – sim – diferente a cada dia; seja para quem faça, veja ou encontrado na rua. Quantos olhares pode se ter atraves de um ato banal… Isso sem tocar nas questoes do proprio teatro, que estava na rua e assistido no palco, que se torna video, e que começa ao terminar…
Sim exitem questoes a se considerar que estao dentro e alem do divertimento.
Sobre achar quem faça um video criativo proponho que vc realize o seu — convide seus amigos para se divertirem com seu olhar pre-gravado.
Nao pude deixar de responder ao seu olhar preconcebido sobre o que voce chama de “franquia” – nao é chique uma visao ainda bairrista de um mundo bem mais interessante!
Marco,
Num é bairrismo não. Até porque – confesso – gostei bastante de algumas das produções enlatadas que estiveram nos mais caros palcos de SP nos últimos 5 anos. Mas é inevitável torcer para que haja uma certa “devoração”, uma apropriação do formato para que ele se adapte não ao público, mas sobretudo à realidade dos artistas brasileiros… Senão vira Fantasma da Ópera: liga na tomada que tá funcionando…
Com relação à teoria da comunicação, meu comentário foi apenas uma brincadeira. Talvez tenha sido uma das poucas matérias que realmente valeram a pena em quatro anos de comunicação, apesar da superficialidade que a academia tecnicista insiste em forçar.
Quanto ao vídeo, nas duas vezes saí pensando muito nisso. Até porque o formato incita demais a pegar uma câmera, um bando de malucos, sair na rua e ver no que é que dá…
Grande abraço!
já tenho ingresso pro primeiro finde no rio. vou assistir pela segunda vez, com um intervalo de quase um ano. vamos ver no que dá.