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Críticas

Tape

por Juliene Codognotto

Nenhum Comentário 06 May 2008

Respeito é bom e todo mundo gosta?

Latinhas e mais latinhas de cerveja quente arremessadas e corajosamente ingeridas pelos atores. Visual desleixado. Cenário realista ao extremo com direito às instalações hidráulicas do banheiro do hotel – o texto Tape, de Stephen Belber, foi transportado para o universo e a cartilha do diretor Mário Bortolotto, a convite da Cia Provisório-Definitivo, que comprou os direitos da peça. Com diálogos rápidos, silêncios constrangedores e reveladores, situações banais, violência moral, muito da obra original poderia ter sido escrito pelo dramaturgo Mário Bortolotto. Muito, mas não tudo, e não exatamente desse jeito.

Da mesma forma como estranharia se não tivesse alguém se embebedando numa peça que o Bortolotto dirige, achei estranho não sair tocada pelo texto. Belber talvez fale mais intimamente a outras almas, talvez revele questões mais profundas sobre outras sociedades, mas o fato é que não enxerguei ali, como estava acostumada a ver nas obras do Mário, um reflexo da realidade a minha volta – ainda que fosse um reflexo ampliado, distorcido, escancarado. E quando não há identificação, há um problema. E não digo problema com a peça. É possível que o problema seja comigo ao não conseguir extravasar a história de três amigos meio babacas e mal-resolvidos (saca aquelas histórias de trepas no dia da formatura que estão em todos os filmes adolescente estadunidenses?) e compreender quais metáforas profundas sobre o mundo ela trazia. Ok, eu entendi que, às vezes, os aparentemente mais certinhos são os mais filhos da puta e que, sempre, nossas culpas e segredos idiotas tornam as coisas bem maiores do que são. Mas e aí? Posso parar por aqui mesmo?

Quando, pelas razões expostas acima, desisti de falar da história e achei que seria muito bobo avisar aos atores que não precisam falar todas as palavras completas (tipassim, pode falar “cê vai ta” em vez de “você vai estar” que fica mais bacana, mais natural, mais verossímil), o foco dessa crítica se voltou para outra janela: o cinema. Em 2001, o diretor Rochard Linklater resolveu filmar o texto que, pelo que vi na peça, já nascera com cara de roteiro cinematográfico. Aí ele chamou a Uma Thurman, o Ethan Hawke (antes deles casarem e se separarem) e fez um filme que a gente não acha nem na 2001.

Mas, no contexto em que estréia a montagem de Tape, o dado mais relevante sobre o filme homônimo é um nome: o do roteirista. O próprio Belber, o dramaturgo, foi chamado para fazer a adaptação. Coincidência. Nas últimas semanas, quem lê o blog do Bortolotto, acompanhou, morrendo de rir, a cruzada empreendida por ele em defesa da integridade de seu texto. O inimigo? A adaptação feita por Di Moretti para a peça Nossa vida não vale um Chevrolet, que passou a chamar-se Nossa vida não cabe num Opala. O título já começa mal, invertendo o sentido do original, mas definitivamente não vou entrar no mérito da qualidade da adaptação do Di Moretti, porque o Marcelo Lyra e o próprio Bortolotto já deram conta da questão numa situação engraçadíssima pra quem lê daqui de fora.

No entanto, é impossível não relacionar o caso do Nossa vida… com o de Tape. Seja para pensar o que diferencia cinema e teatro e, portanto, o que caracteriza cada um, seja para pensar a questão do respeito ao texto e dos limites da criação a partir da dramaturgia e não presa a ela. Na peça, fica muito claro um respeito gigantesco de Bortolotto ao texto de Belber, e não acho que seja pela grana paga pelos direitos, longe disso, é como se fosse uma espécie de código de valores que Bortolotto espera que também seja praticado com relação a seus textos. A questão aqui é que, segundo o próprio Mário, a adaptação para o cinema de Nossa vida… ficou piegas e prolixa, implorando cortes que foram impiedosamente realizados no momento da montagem. E o texto de Belber, pedia o quê? Nada? Nenhuma adaptação? Quem sabe menos dó?

2 latinhas de cerveja quente: uma pro ator, uma pra pia do banheiro (e assim sucessivamente)

E você, o que acha?

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