Críticas

Teatro/Mercadoria#1

por Fabrício Muriana

5 Comentários 10 December 2007

Politicagem, punhetagem intelectual ou novos rumos pro teatro?

Em obediência à semana das críticas muito curtas, todos os textos publicados nesta semana terão apenas 1 parágrafo.

O que dizer em um parágrafo de um espetáculo que não é espetáculo ou de uma peça que não é uma peça? Poderiam ser 50 parágrafos e o nosso trabalho não estaria facilitado. Estreado em 2006, Teatro/Mercadoria#1 conta com muitas, muitas vozes, a saber: Walter Benjamin, Guy Debord, Theodor Adorno, Ernst Bloch, Pier Paolo Pasolini, Bertolt Brecht, Mao Tsé-tung, Klaus Mann, Antonio Gramsci, Karl Marx, Che Guevara, Mario Benedetti, Rosa Luxemburgo e Georg Büchner. Vozes consagradas, que recortadas e reunidas, compõem um manifesto pela valorização não-monetarizada da arte. A Kiwi te convida a ocupar o palco – fecha as cortinas pra começar e as abre pra terminar – de forma que você está, literalmente, dentro desse espetáculo , e atenção: você não é uma mercadoria! – eles enfatizam. Teatro também não é mercadoria – gritam – embora você esteja naquele exato momento consumindo, tendo, portanto, comprado e pago duplamente pela apresentação da Kiwi – para o Sesc pelo seu ingresso e para o governo para que o fomento auxilie a pesquisa do grupo. Mas, como não há – ainda – muitas outras soluções plausíveis para o fazer teatral, a Kiwi, do jeito que dá, coloca em prática, nessa apresentação, conceitos expostos nas encenações anteriores: o endereçamento do trabalho e a preparação da obra em contato com o público a que ela se destina. Feita em conjunto com quem compareceu às reuniões do grupo em sua sede, a apresentação busca, mais uma vez, o questionamento da posição ocupada pela arte e questiona também a mercantilização de absolutamente tudo. Finalmente, a apresentação é uma mistura, com vídeo, lousa, mini-cenas, coro, música ao vivo e tudo o que tem direito, mas ainda não diz exatamente a que veio. Dá dicas, somente. Fica, portanto, a questão: quem deve vir primeiro, a consolidação de uma posição política clara ou a experimentação cênica para revolução estética?

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O que a galera acha

5 comentários até o momento

  1. Alessandra Rios says:

    Fui ao Teatro Fábrica assistir essa peça, há algumas semanas. E logo na entrada, com o quê dou de cara: com uma painel bem chamativo, constando as plaquinhas de todos os apoios, patrocinadores e todas essas coisas promovidas pelo mundo capitalista. Me entregaram um informativo enorme… algumas pocas linhas continham informações sobre o espetáculo e o restante da página, pura pubicidade! Mas eu não sou mercadoria! E quem afirma isso? Nada mais, nada menos que os próprios atores da peça… aqueles que já devem ter te feito companhia pela “telinha”, depois de um dia cansativo de trabalho, tentando te convencer que quem “faz um 21″ faz a melhor opção… mas tudo bem, não somos mercadorias! E o fato de sermos ou não, bem… não é culpa da peça. O que contradiz é dizer que arte não é mercadoria, mas depender do sistema capitalista para sobreviver!

  2. Não sei, Alessandra, mas acho que a busca nesse momento nem é por sair da circulação do teatro dito “mercadoria”. É mais a procura de uma forma que não seja “mercadoria”. Por isso as quebras, a ausência de narrativa central, a idéia de colocar todos no palco e fechar a cortina, etc. Acho inclusive que a Kiwi procurou formas de se bancar que são as mais distanciadas da “forma mercadoria”, com os R$114.000,00 que receberam do fomento (o menor valor concedido pelo fomento no ano passado). Não me lembro dos patrocinadores da Kiwi, e acho que isso é passível de crítica sim, mas não tive a mesma sensação que você quando assisti a peça. Tenho que ir de novo! Abraço e apareça.

  3. Hugo Mates says:

    Acho que é preciso entender melhor o conceito de Mecadoria.(valor de uso/valor de troca) para continuar esta discussão. Mas este é o problema. Poucos conseguem transformar conceitos como este em obra estética. Sobre a pergunta, o que deve vir primeiro: a expermentação cênica de uma revolução estética, por que a posição politica, clara ou não, já está embutido no trabalho do artista, quer ele queira, quer não.
    abraços a todos

  4. fernando says:

    quem escreve é o fernando, diretor do “teatro/mercadoria”. só hoje eu li as mensagens sobre o nosso trabalho. acho ótimo que tenha gente trocando idéias sobre arte, cultura e política!
    sobre o que a alessandra escreveu, não sei que material te entregaram na entrada do teatro, mas nosso material é uma crítica ácida da publicidade (está escrito “compro ouro” ironicamente), e tem vários trechos de textos que estão na encenação (brecht, pasolini etc.). quanto a “fazer um 21″, a cena é uma crítica radical ao massacre cotidiano publicitário e la lavagem cerebral das megacorporações.

    o fabrício fala em “patrocinadores da kiwi”. nós não temos nenhum patrocinador. como nós achamos que a arte e a cultura não essenciais, e devem ser tratadas como “serviço público”, nós trabalhamos com os recursos da lei de fomento ao teatro da cidade de são paulo. dinheiro público definido com critérios públicos. fizemos apenas uma apresentação do “t/m #1″ no sesc consolação, e recebemos um cachê para isso. mas, diferente do que diz a matéria, não são dois recursos para o mesmo trabalho, porque o projeto do sesc era independente do fomento. aliás, recusar a “forma-mercadoria” não significa necessariamente não cobrar ingressos (embora esta seja uma opção, que nós adotamos em vários trabalhos), mas recusar a utilização do dinheiro para gerar lucro, explorando pessoas. todo o dinheiro da companhia (fomento, bilheteria, cachês) é usado para pagar a equipe e para investir em pesquisas e novos trabalhos. nós não somos uma empresa capitalista, mas um grupo de teatro que tenta funcionar de forma cooperativada.

    sobre a questão “consolidação de uma posição política clara ou a experimentação cênica para revolução estética”, é uma falsa polêmica. já disseram que “não existe política revolucionária sem forma revolucionária”. é por isso que tchekov pedia, um século atrás, “novas formas” no teatro. a via é de mão dupla. e difícil. vamos meter a mão na massa para entender o mundo e fazer dele um lugar respirável.

  5. Juli says:

    Oi, Fernando. Que bom que você apareceu por aqui.

    Logo vai fazer dois anos que escrevemos, eu e Fabrício, esta crítica (e em um só parágrafo, que era uma brincadeira que fizemos no site). De lá pra cá, por meio da Bacante e das discussões por aqui, muita coisa mudou na minha visão do teatro e, mesmo, da obra de vocês.

    Houve poucas discussões sobre “teatro público” em mesas de bar ou em debates “sérios” em que não lembramos ou citamos o texto da encenação Carta Aberta, por exemplo. Que provocação bem-vinda é aquela!

    Com relação à montagem Teatro Mercadoria, o que talvez eu tenha deixado escapar e não dado o devido destaque neste texto de 2007 é o fato de a peça ter sido construída de maneira aberta, em contato com um público que, no limite, era o verdadeiro “patrocinador” (seja via Fomento, seja via SESC) dessa pesquisa.

    Continuo pensando que a venda de ingressos remete, diretamente, à lógica do consumo, ainda que, sozinha, não seja capaz de definir esta encenação como mercadoria. Mas realmente gostaria de saber mais de você sobre o processo de criação e como evoluiu essa idéia de romper as barreiras entre artista e público, seja abrindo a sede para fazer o espetáculo junto, seja colocando o dito público no palco.

    Então, se você passar por aqui, novamente, nos conte um pouco sobre isso.

    Um abraço,
    Juli =)


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