Críticas

Terra em Trânsito / Rainha Mentira

por Maurício Alcântara

5 Comentários 13 August 2007

Sobre patê e mentiras

Fotos: Villy Ribeiro e Guga Melgar

Terça-feira à noite. O carro da reportagem do Celso Russomano estava estacionado em frente ao teatro do SESC Consolação. Imprensa, convidados e Marie-Gabi Gabriela confraternizavam alegremente no foyer, e felizmente não havia venda de espumantes nacionais (acho que já deu pra perceber a minha implicância com essas tacinhas borbulhantes em foyers encarpetados, né?). Era a estréia paulistana de uma dobradinha do Gerald Thomas. Para ser mais correto, era meia-estréia, meia-reestréia (sem borda recheada). Terra em Trânsito já havia sido apresentada no SESC Vila Mariana no ano passado e agora, em sua versão 2, reestréia para fazer companhia a Rainha Mentira, inédita em São Paulo.

A primeira mostra o diálogo entre um cisne (excelentemente interpretado pelo braço e pela voz do ator Pancho Capeletti) e uma diva num camarim, instantes antes de ela entrar em cena. A partir do diálogo com o amigo penoso fadado a virar patê, Fabiana Gugli embarca em uma experiência verborrágica nonstop, em que os assuntos oscilam desde a queda do socialismo até as relações amorosas da atriz com músicos e intelectuais, passando por política, Monty Python, arte, Harold Pinter e discursos politicamente incorretos na voz de Paulo Francis. Centenas de informações a metralham e ela vai enlouquecendo enquanto os sinais do teatro a avisam para se aprontar (mas ela nunca está pronta).

Será um espetáculo sintomático da sociedade atual? Será a verborragia do texto uma metáfora para a incapacidade das pessoas articularem suas idéias de forma linear? Será a loucura da protagonista uma crítica ao generalismo ocasionado pelo bombardeio de informações e conflitos sofridos pela humanidade nos últimos cem anos – que torna as pessoas reféns por saberem somente o mínimo sobre tudo o que acontece, sem qualquer resquício de senso crítico?

Não sei dizer, talvez devido ao hermetismo do texto. São aproximadamente quarenta minutos sem respiro e sem linearidade, em um exercício muito maior de dramaturgia do que de encenação – mas a encenação não perde pontos; é precisa e amarra muito bem todos os elementos. Mas olha só que coisa: mesmo com toda a construção do clima anti-naturalista e carregado de referências – coisas de que costumo gostar bastante – no fim das contas, achei chato pra dedéu.

Após esta primeira peça, confesso que saí para o intervalo já pensando em como seria insuportável a segunda, que uniria essa linguagem hermética ao sofrimento autobiográfico de um diretor que homenageia a mãe – a cujo velório, há um ano, não pôde comparecer.

Então as cortinas se abrem novamente e uma surpresa: no meio do palco, uma projeção. Tudo bem, todo mundo já usou projeção no palco, uns bem, outros mal. Só que aqui vemos mais do que uma projeção cênica, vemos uma vídeo-instalação que, sozinha, já mereceria destaque em alguma mostra. A imagem estática de uma bela mesa de café da manhã que permanece intacta por muito tempo, carregada de banalidade (afinal, estamos falando de pães, geléias e sucos) até que surge um jato d’água e começa a destruí-la vagarosamente.

É o ponto de partida para um panorama bastante peculiar sobre o nazismo, sobre a guerra, sobre o mundo pós-11 de setembro, sobre a liberdade e, claro, sobre a mãe de Geraldinho. Não faltam significados pessoais neste espetáculo autoral e particular, assim como não faltam metáforas e construções cênicas carregadas de plasticidade e simplicidade – o palco vazio com as duas torres gêmeas feitas de livros e os atores nus e encarceirados são duas imagens difíceis de sair da memória.

Já faz um tempo que a Bacante tem procurado por espetáculos que proponham novas possibilidades de diálogo entre a forma e o conteúdo daquilo que é apresentado, e por incrível que pareça, os espetáculos de dança, pela ausência de dramaturgia e por serem absolutamente voltados para estes significados, acabavam resolvendo muito melhor este quesito do que os espetáculos teatrais. Para nosso alívio, Rainha Mentira nos mostra que o teatro também consegue brincar com esta relação forma/conteúdo sem ser refém da dramaturgia.

Mas isso não significa que este segundo espetáculo seja exatamente mais light do que o primeiro – Gerald Thomas não faz concessões e leva até as últimas conseqüências propostas como, por exemplo, a de dublar com sua própria voz tudo o que os atores dizem em cena. E após o espetáculo, são muitos os questionamentos que ficam em minha cabeça.

Talvez os atores não precisassem dublar a voz de Thomas o tempo todo. Talvez algumas imagens não precisassem da legenda da narração. Talvez o público estivesse mais interessado naquilo que o diretor constrói para o teatro do que naquilo que ele constrói para a mãe dele. Talvez o trabalho não precisasse ser tão autoral e tão egocêntrico (aliás, é difícil de levar a sério quem se refere a si próprio como um gênio, ainda que negando, né?). Mas sem estes elementos, talvez não fosse um espetáculo de Gerald Thomas, ou pior: poderia se esvaziar de seu sentido artístico. Possivelmente seja essa a principal diferença entre um trabalho autoral e íntimo, e um trabalho voltado à construção de um sentido para o coletivo. O bacana é observar que ambos podem render ótimos resultados, relevando-se as ressalvas que cada linha de trabalho e cada artista impõem.

Para finalizar, apenas mais um comentário pessoal: de fato, não tem como não reparar na semelhança da linguagem visual desta segunda peça e da Educação Sentimental do Vampiro, da Sutil Companhia (e de que tanto gostei). Terá Gerald Thomas, afinal de contas, copiado Felipe Hirsch? Mistério. (No momento em que escreve, o autor do texto rola de rir em sua cadeira ).

41 linhas do currículo do diretor no programa da peça

O que a galera acha

5 comentários até o momento

  1. Emilliano says:

    Ahhh! A Fabiana é perfeita! 785 palavras por minuto!
    Mas o mais me deu curiosidade foi ver Hirsch por Thomas em Rainha! Preciso conferir!

  2. Maurício Alcântara says:

    Emiliano, na verdade, Rainha Mentira é bem Thomas por Thomas mesmo… hehehe…

  3. emilliano says:

    Quer mais Thomas que Hirsch??
    Ih! Q confusão!
    Mas o ego profundo em cena do Thomas me diverte!

  4. Juli =) says:

    Eu, enquanto dormia, me diverti muito…


Trackbacks/Pingbacks

  1. Blog da Bacante » Meu segundo dia: overdose de Fringe - 23. Mar, 2008

    [...] para eu rever Terra em Trânsito e Rainha Mentira (aqui, o “pacote” ganhou o nome de Mundo Gerald Thomas – uma coisa, tipassim, meio Beto [...]

E você, o que acha?

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