-->

Críticas

Thom Pain/ Lady Grey

por Maurício Alcântara

Nenhum Comentário 20 March 2009

Sobre dor, cinza e dramaturgia

Thom Pain/Lady Grey é uma peça que na verdade são duas. Mais precismente, dois monólogos que falam à plateia (lembra daquela velha questão stanislavskiano-filosófica sobre com quem falam os personagens de monólogos?) basicamente sobre seus traumas e sobre como suas vidas aconteceram depois deles. Ah, os traumas, grande matéria-prima das personalidades (e também dos monólogos)… Na peça, o moço, o do primeiro relato, interpretado por Guilherme Weber, traz a palavra “dor” em seu nome, numa tradução literal. Já a moça, interpretada por Fernanda Farah, tem como segundo nome a palavra “cinza”.

Não sei se é por conhecer um pouco do trabalho do dramaturgo Will Eno, já montado anteriormente pela Sutil em Temporada de Gripe, ou por conhecer o trabalho do grupo, que justifica muitas vezes a linha estética de seus trabalhos com o clima frio e cinzento de Curitiba (onde a companhia teve seu início), mas com estes nomes e pela proposta da sinopse de apresentar fragmentos do fim de uma relação amorosa, já imaginava o teor melancólico e ácido da peça. Não só encontrei a linguagem irônica, como também vi outras características comuns ao trabalho da Sutil, como um cenário assinado por Daniela Thomas e a figura de Weber em cena.

Por outro lado, já não há trilha sonora pop, o cenário é contido (minimalista, eu diria, para os padrões das demais montagens da Sutil), os atores mal saem do lugar, a luz é praticamente constante – ao ponto de não se mover nem mesmo quando Thom sai do foco com a expectativa de que esta o siga. Sem prédios, contêineres, projeções sobre o filó, chuva ou a fumaça, o que resta? O que muitos dizem ser a base para o que se define como teatro: atores e texto. Os primeiros apropriam-se do segundo de forma delicada, sutil (ahá!). Guilherme Weber desenha um Thom obsessivo e caricato, homem que constrói um personagem irônico para si mesmo como forma de auto-proteção, mas que nem com este subterfúgio consegue se livrar da auto-exposição. Já Fernanda Farah revela uma mulher que, na falta desta máscara, se expõe mais do que gostaria e vai desaparecendo, perdendo brilho, minguando, se tornando opaca.

Pra mim, essa peça inicia o exercício de contenção e síntese que a companhia anuncia fazer, posteriormente, em Não Sobre o Amor (que define como sua primeira peça de câmara), pois em Thom Pain/Lady Grey já aposta menos em recursos visuais e joga todas as fichas nas brincadeiras metalinguísticas, trocadilhos e jogos de linguagem que parecem ser característicos da obra de Eno (ao menos pelo que pude ver nesta montagem e no texto de Temporada de Gripe). E é com essa apropriação da dramaturgia de Will Eno que surgem meus maiores questionamentos para a montagem.

Apesar do notável trabalho de interpretação, muito do que vi ali naquele palco do Teatro do SESI soa como um trabalho que se debruça sobre uma dramaturgia riquíssima, mas não a transforma em algo que vá muito além da linguagem dramatúrgica. Tudo (cenário, luz, marcações, figurino) mostra-se como “ornamento criativo” para um texto que, ainda com a apropriação dos atores, permanece soberano e que, antes de mostrar as vozes das personagens ou as vozes dos atores interpretando as personagens, revela com muito mais potência a voz do dramaturgo – e consequentemente reduz as possibilidades de polifonia e multiplicidade.

No entanto, parece muito coerente a escolha destes dois monólogos para integrar a mostra dos 15 anos da companhia (em substituição a uma das peças mais populares de seu repertório, A Vida é Cheia de Som e Fúria, que não pôde ser montada por burocracias jurídicas), confirmando ao público paulistano uma identidade característica dos trabalhos mais recentes da Sutil apresentados por aqui (como a a incômoda Educação Sentimental do Vampiro e a também intimista Não Sobre o Amor). E olhando essa mostra, dá cada vez mais vontade de ver a Sutil Companhia nesta busca por experiências com outras linguagens, menos “formatadas” – ainda que, por consequencia, seja grande o risco de ter menor adesão do público do que o que ocorre em Avenida Dropsie, por exemplo (em outras palavras, risco de serem mais chatas mesmo). Dentre essas investigações, a curiosidade maior não é exatamente a de assistir a uma busca pelo minimalista, mas de ver este trabalho buscando uma libertação maior do texto como condutor narrativo.

10 minutos de intervalo, enquanto a personagem te observa

E você, o que acha?

Deixe seu comentário

   A Bacante é movida a Wordpress e seu conteúdo é Creative Commons.
   Alguns direitos reservados (BY-NC-SA).