Críticas

Tio Vânia

por Marco Albuquerque

1 Comentário 07 October 2008

A maioria dos textos do dramaturgo russo Anton Tchekhov são caracterizados por serem de conotação eminentemente dramática. Da mesma forma, a maioria dos textos aqui da Bacante são caracterizados pelas pitadas de humor.

Feliz ou infelizmente, sempre existe espaço pra subverter a regra geral. A montagem de Tio Vânia dirigida por Celso Frateschi e em cartaz no Ágora tem em seu material de divulgação a seguinte frase, atribuída a Tchekhov: “Porque insistem em classificar minhas peças como dramas? Eu escrevi comédias!”.

Ao ler esta frase eu vou ao teatro preparado para assistir uma releitura bastante original do texto de Tchekhov, esperando encontrar uma verve humorística que nunca havia imaginado e que poderia gerar novos significados, levar a novas reflexões.

Se a regra geral pode ser subvertida com relação ao texto de Tchekhov, ela também pode ser subvertida aqui: vou tentar escrever um texto sem qualquer pitada de humor… tentarei resistir bravamente à tentação…pois ela irá surgir… eu sei que vai…

A encenação no Ágora começa com todos os atores entrando e se acomodando em cadeiras nas laterais do palco. Começa então um diálogo entre o médico Astrov e a velha babá Marina. E aí começam os problemas… Onde está a releitura? Onde está a comédia que Tchekhov teria escrito? Fico perdido e frustrado ao perceber que o texto de Tchekhov é transposto para o palco da forma como foi escrito.

Quando o segundo ato se aproxima do fim é inegável que o público parece cansado com a verborragia da montagem. São pouquíssimas as cabeças na vertical: a maioria delas apresenta uma inclinação que denota cansaço, enquanto muitas já repousam nos ombros dos donos das cadeiras vizinhas (vale ressaltar que este comentário não é uma piada, ou ao menos não deveria ser…).

Providencialmente, um intervalo de dez minutos separa o segundo e o terceiro ato. Este intervalo parece carecer de qualquer significado técnico, já que a montagem só tem 120 minutos e todo o cenário está igual quando o terceiro ato começa. Concluo que a interrupção teve o intuito de fazer com que os espectadores pudessem se levantar, circular um pouco e arranjar forças para os dois últimos atos. Alguns deles arranjaram forças em excesso e acabaram fugindo.

O terceiro ato retoma a verborragia. As partituras corporais, entretanto, trazem algo de diferente. Aqui e ali surgem gestos, gritos e movimentos inteiros que não são nem um pouco naturalistas. No começo do terceiro ato, vemos uma Helena se contorcendo pelo chão, em outros momentos vemos um Tio Vânia com gestos que parecem querer gerar risos. Me lembro instantaneamente dos Três Patetas e do Mr. Bean. De qualquer forma, nada me parece engraçado, tudo me soa estranho e artificial. Ninguém no teatro ri.

São diversos os momentos em que alguma rápida inserção beira um filme dos Três Patetas: quando, no terceiro ato, Serebriacov reúne a todos para fazer seu comunicado sobre o destino da fazenda e profere a expressão “Manet omnes una nox” (estamos todos nas mãos de Deus), uma das personagens ri de uma maneira tão ensandecida e tão fora de contexto que acorda metade da platéia e assusta a outra metade.

Se existe alguma originalidade, algo que é marcadamente diferente em relação ao texto do dramaturgo russo, que funciona e que pode gerar reflexão, este algo é a escalação de um ator jovem e negro para interpretar o papel do médico Astrov, um homem mais velho e, com certeza, branco.

Ao término da peça, fica o questionamento sobre o papel do trabalho naquela propriedade russa e, por extensão, em todo aquele momento histórico. Ao se engajarem no trabalho em uma propriedade que moralmente lhes pertence, mas cujos frutos vão para outras pessoas, Sonia e Vânia aceitam a dura realidade sem questionar, colocando os seus sonhos e as suas felicidades em segundo plano e deixando de ser humanos. Esta alienação de suas próprias vidas só é possível em função da religião, que incute em suas mentes a promessa de que toda a infelicidade de suas vidas será recompensada após a morte.

Entretanto, estes questionamentos que ecoam ao final do espetáculo estão todos contidos no texto de Tchekhov. A montagem cumpre apenas o papel de repeti-los, sem qualquer nova possibilidade de leitura, sem qualquer amplificação temática. Não encontrei a releitura que procurava. Também não encontrei comédia ou sequer um pingo de humor.

1 crítica sem um pingo de humor

O que a galera acha

1 comentário

  1. Kiko Rieser says:

    Hum… Acho que o buraco é mais embaixo. Há equívocos, sim, mas a montagem realmente me surpreendeu (amante de Tchékhov que sou) ao me revelar finalmente o lado cômico que nunca consegui ver no autor russo. Ri e muita gente da platéia riu também. Talvez fosse um riso franco, quando deveria ser um riso nervoso. Tchékhov versão light é realmente muito estranho, mas foi o que aconteceu. Ficou “gostoso” de assistir. As personagens tentam interagir muito, se compreender muito, se divertir muito umas com as outras, e o tédio e a incomunicabilidade do texto somem do espetáculo. O que fica? Talvez uma sensação de que as pessoas não se entediam de verdade e de que entre elas não há incomunicabilidade de verdade, elas apenas pensam isso e reclamam inocuamente. Seria um espetáculo sobre a chatice das pessoas reclamonas? Parece-me um tema bobo e, com esse texto, fica, no mínimo, inverossímil. Enfim, questões… Muitas!


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