Pessoa Slow Travel

Foto: João Tuna
Desde pequeno, ouço uma frase clichê, propagada a todo canto pela mídia, professores primários e nerds em geral: “quem lê viaja”. Leitor (e nerd) desde pequeno, sempre vi com descrédito essa afirmação: nunca achei que fosse com uma metáfora frívola que seria possível convencer uma criança de que uma tarde com um livro era mais legal do que uma tarde jogando bola – até porque tarde de jogar bola não é hora de viajar. Fato é que mesmo sem nunca ter gostado de jogar bola, não via na “viagem” uma razão plausível para justificar o hábito da leitura.
Assistindo à incursão do Teatro Nacional São João na obra de Fernando Pessoa, revivo todo esse clichê educacional para pensar a “viagem” sob outro ponto de vista, o olhar do despertencimento: não o despertencimento desolado de quem daria tudo para pertencer àquele lugar/obra visitado, mas o de quem parte de sua origem para visitar, como um turista, aquela obra: analisa-a partindo de seus referenciais, suas memórias, nostalgias, lembranças, suas tardes jogando bola em vez de ler livros. É um encontro mediado pelo choque, pelo estranhamento de deparar com outro lugar, outro tempo, outra língua ou outra linguagem; que só é outro porque é diverso, diferente.
Ao ver Turismo Infinito por esse prisma do “turismo” como chave para abordar a obra de um poeta malucão que tem, em toda sua obra, uma característica absolutamente fragmentada, imaginativa, composta por infinitas vozes que se encontram e desencontram, revivo como um turista tudo o que já li de Pessoa: relaciono indiretamente todas as imagens e textos da peça com meus próprios referenciais de leituras do poeta, além de meu imaginário de um Portugal onde nunca estive pessoalmente.
Mas o turismo a que sou conduzido também não é exatamente um turismo city-tour, que mostra uma versão ao vivo apenas do que o público já esperava ver, tão típico “em tempos em que se colecionam milhas”, como bem lembra o diretor Ricardo Pais em um texto no programa (que, aliás, merece um destaque – poucas vezes vemos programas com tanto papel, e nesse papel tanto conteúdo; um pequeno jornal distribuído pelas comissárias do SESC para acompanhar a viagem). É o turismo de quem é cocriador dos lugares que visita, de quem não busca preencher a cartela do bingo com pontos turísticos. É o turismo slow-travel, que busca uma forma menos didática e óbvia para representar os heterônimos do poeta, mostrar pedaços de uma cartografia que, combinados, talvez não representem o todo do mapa. E sabe que não há nada de errado nisso.
E por não reduzir a obra de Pessoa a seus pontos turísticos padrão, a montagem aponta para uma linguagem que, antes de ser “representativa” de qualquer coisa, opta por ser mais alegórica, mais aberta a interpretações – até mesmo por quem pouco conhece a obra de Pessoa. Luz, cenário, figurinos, registros de interpretação, fio condutor e narrativo apontam muito pouco para uma visão materializada da obra de Fernando Pessoa ou de uma Lisboa idealizada, abrindo diversas opções para pontos de fuga que tornam a viagem, ou o turismo, muito mais rico e estimulante, em vez de condensá-la ou estereotipá-la.
A leitura desta melancólica viagem proposta pelos atores do Porto ganha ainda mais nuances e vozes quando a obra desembarca em São Paulo e é visitada por novos turistas, que não sendo conterrâneos de Pessoa, naturalmente já partem de diferentes pontos de vista para viajarem por sua obra – com diferenças culturais que passam até mesmo pela língua, que é a mesma, mas é outra: o sotaque de Portugal – mais especificamente do norte do país – requer um tempo para que nossos ouvidos de turistas se acostumem com o jetlag lingüístico. Como disse um amigo na saída da peça: “ao ler Fernando Pessoa, nunca imaginei sua obra com sotaque”. Já eu saí da peça pensando além do sotaque da montagem: quantos sotaques e referenciais devia haver na cabeça na cabeça polifônica de Pessoa, para cada um de seus infinitos heterônimos viajantes. Pensei também no quanto gosto de (re)visitar sua obra, sempre com meus olhos de turista curioso e empolgado por descobrir cada nova viela, praça ou sotaque distante.
4 pasteizinhos de Belém



É interessante pensar como a gente lê e decora informações sobre Fernando Pessoa e sua obra (mas não só sobre ele e suas obras) nesse longo processo que é o Ensino Médio e retém pouquíssima coisa na memória.
Anos depois, vejo essa peça e relembro de tudo aquilo que ficou lá atrás, mas desta vez com imagens que eu nem sabia que estavam na minha mente — ou que eu até sabia, mas nunca tinha me dado conta. E saio do teatro com uma vontade imensa de reler os textos do Pessoa.
Lançarei o manifesto por uma nova didática no ensino de literatura nas escolas.
Por uma escola completamente nova! Se o problema fosse só a didática da literatura, estaria ótimo! rs