A vida numa peneira
Foto: Heloisa Bortz

Quem acompanha o blog do Otávio Martins, lê muito material que discorre sobre política, notícias, acasos, coincidências e, obviamente, teatro. Martins é daqueles que dirige, escreve, atua, produz e mais um pouco – o que deveria ser absolutamente normal para qualquer ator que se preze hoje no mercado de carne artística nacional. No entanto, precisamos considerar que uma boa parte dos atores (ou pseudo-atores),não quer saber de colocar a mão na massa, não, só chegar ao teatro, se aquecer, apresentar e ir pra casa ou pro bar. Posto isso, não é por acaso que encontramos um espetáculo como Últimas Notícias de Uma História Só. Explico lá pro final.
O título entrega todo o espetáculo e, ao mesmo tempo, gera uma certa confusão. Ótimo, um título delator estraga surpresas, ao passo que um que seja completamente omissor nem te deixa criar expectativas. Ao adentrarmos o Espaço dos Satyros Dois, Alex Gruli está postado à porta. No palco, Luciano Gatti e Melissa Vettore também recebem o público. Daí, platéia em seu lugar, Gruli faz as apresentações, pede às pessoas que desliguem os celulares e não coloquem no “vibra”, pois o bzzzzz atrapalha. Apresenta os atores (por “Mel” e “Gatti”) e se apresenta (“eu sou o Gruli”). Tomam seus lugares. Ah, o distanciamento… que não pára por aí. Não obstante, vemos numa relativa penumbra os três se arrumando para iniciar a peça. O estranhamento que a platéia presencia em ter um contato tão próximo com os atores e vê-los nesse momento de quebra, sem “incorporação” (eu sei, é uma palavra péssima para qualquer ator, utilizei só para sublinhar o momento) da personagem é de importância tremenda para o espetáculo. Calma, já chego lá.
O que se segue é Gruli narrando histórias desconexas, e Mel e Gatti encenando uma história entre um seqüestrador e sua vítima. Otávio, que redigiu o texto e dirige o espetáculo, vai alinhavando as histórias de Gruli com os pedaços da história do seqüestro, que permeia toda a peça. Aparentemente sem nexo entre elas, as histórias que Gruli conta vão também sendo alinhavadas. Fica a noção de que “se uma borboleta bate asas em Nova York, chove em Pequim”. Tudo bem, tirei essa frase do Jurassic Park. Mas ela é uma das frases definidoras da Teoria do Caos, defendida pelo jornalista norte-americano James Gleick. É o tal “efeito borboleta” (ridiculamente popularizado depois do infame filme de nome homônimo, protagonizado por um atorzinho aí de sobrenome Kutcher). Mas aqui não voltamos no passado como no filme citado. A teoria defende uma tese para o comportamento de sistemas complexos, dinâmicos e não-lineares. Como a nossa vida. Em poucas palavras, se você atira uma pedra na rua da sua casa, uma série de eventos que começam com este “atirar a pedra” podem levar uma pessoa a se casar na Noruega. Estranho? Viajante? Eu diria plausível.
Não, o destino não seria inexorável. Ele não existiria. Nossa vida é fruto da conjunção de múltiplos acontecimentos e um simples desvio de curso pode alterar tudo. É o velho “estar no lugar certo na hora certa”, mas existe também o “estar no lugar errado na hora errada”, assim como o “estar no lugar”. Existem as possibilidades de você ser ponte para a vida de alguém, às vezes carro, noutras rio e finalmente em outras pedestre. Essa rede de conexões imprevisíveis é o que nos une, assim como na teoria dos Seis Graus de Separação (tem um site que faz isso com os nomes dos atores e o Kevin Bacon), do húngaro Frigyes Karinthy (revitalizado ultimamente pela série Lost de que, não por acaso, Martins parece gostar muito, ao menos pelo que ele indica em seu blog”). Aquela coisa de olhar no Orkut quantas pessoas te separam de qualquer outra. Para Karinthy, só seis. Essa curiosa forma de ver o mundo é o que dá sentido ao espetáculo todo. E essa pequenez que nós sentimos frente a toda essa imprevisibilidade. Sem destino, sem Deus para mudar o curso das coisas, sem fé que abale essa miríade de possibilidades, o que fazer? Viver a vida, talvez. E não levá-la tão a sério. É aquela frase que sempre tem uma tia velha e chata que fala: “a gente não é nada”. E eu concordo, não somos merda nenhuma mesmo.
Gruli é o narrador que interfere no que ocorre, que dá tom ao espetáculo. Sem ele, a montagem teria uma peça faltando em seu quebra-cabeça. A interferência é quase cinematográfica. Ele pára, dá o “ação!”, pausa, retira os atores de suas cenas, propõe, conduz a platéia. Chega em alguns momentos a antecipar uma quebra, o que provoca um suspense grandioso. Corta totalmente o clímax das cenas. É o distanciamento – Brecht deve estar muito feliz porque, pela primeira vez, consegui assistir um espetáculo que não seja enfadonho ao utilizar o efeito V à la Martins (mas na Bacante, My Arm e Oak Tree chamaram a atenção de nossos críticos por esse mesmo motivo!). E não é a forma somente que leva a distanciar, mas a interpretação de Gruli, agora totalmente cabível em expressões. Melissa Vettore e Luciano Gatti funcionam como peças da engrenagem muito bem ornadas e polidas, também se atrevendo a narrar em certos momentos, adicionando mais pimenta e curiosidade ao espetáculo. Soma-se a isso o clima niilista de cenário extremamente resumido e iluminação simples e inventiva que consegue tirar o melhor das cenas, remetendo quase a uma espécie de fractal, metáfora dos acontecimentos interligados. As proposições cênicas intensificam o conteúdo. E – mais impressionante – sem precisar de firulas : são artifícios teatrais, tão somente. O distanciamento nos deixa mais envolvidos com a questão do “Não-Destino” do que com a necessidade de catarse ao fim de cada história. Mais do que sentir-se mal ou bem pelas “coincidências” é refletir sua posição na história corrente. A sua, a do outro, ou a de todos.
Finalmente, explico porque não é acaso encontrar um espetáculo maduro e saboroso como este Últimas Notícias. Martins vem num processo artístico de tão profundo contato com essa loucura teórica sobre a vida, que produziu este espetáculo que também, não por acaso, está fazendo sucesso. Plena meia-noite na Praça Roosevelt com casa cheia. Sinceramente, sem parecer coisas do livro O Segredo: parece que, quando alguém trabalha por algo com afinco e despende, sem interferir com os outros e utilizando o que há de melhor em si, essa pessoa transforma os acontecimentos a sua volta para que eles aconteçam como ela previu ou desejou. É o caso aqui.
10 nós muito bem amarrados em nossa garganta

