(…) Bzsusizusizusiuzisuzisuzzzzz (…)
Foto: Flavio Moraes
Bzsusizusizusiuzisuzisuzzzzz. Eu sei, fica estranho escrever o barulho, mas é mais ou menos assim, com essa simplicidade toda, que Marcello Airoldi representa a ligação entre os neurônios (a sinapse) que formará nossas memórias. Sozinho no palco, com muitos gestos e nenhum passo, ele nos explica, muito delicada e cuidadosamente, que no sistema simpático, blábláblábláblá – essa coisa toda de um neurônio que manda mensagem pro outro, que manda mensagem pro outro, formando um grupinho de neurônios que é acionado sempre que nos lembramos daquela coisa, daquela sensação… Assim, portanto, o texto nos remete à ligação entre acontecimentos, palavras, sentimentos, cenas, situações – tudo aquilo que se repete nas nossas vidas de alguma maneira mais ou menos esquisita e nos dá aquela sensação de… “eita, já vi isso”, “eita, já vivi isso”, “eita, já disse isso outras vezes”…
(…) Bzsusizusizusiuzisuzisuzzzzz (…)
No Festival de Rio Preto do ano passado, o inesquecível (ai, que coisa de velho) debut da Bacante em festivais, nos surpreendemos com Tempo.Depois, uma peça do jovem (ok, isso também é coisa de velho) Rodrigo Nogueira, que começava numa conversa convencional muito espontânea e linear e nos levava, sem a gente perceber direito, a discutir metafísica. E uma palavra puxava a outra, que puxava a outra, que puxava a outra. E, no meio de uma fala qualquer, uma música… opa, essa música era da outra parte da peça. “Eita, já ouvi isso antes…” – em Tempo.Depois frases desse tipo vinham da boca dos próprios personagens, que dividiam conosco as estranhezas dos elementos cênicos resignificados e do uso das mesmas palavras em outras lógicas ou da construção das mesmas lógicas com outras palavras. E tudo se misturava naquela sala construída só para ficar pequena o suficiente para um espetáculo que se queria íntimo…
(…) Bzsusizusizusiuzisuzisuzzzzz (…)
Pequeno e aconchegante, íntimo, assim, a ponto de o ator e a platéia tomarem fôlego juntos…
(…) Bzsusizusizusiuzisuzisuzzzzz (…)
Pequeno e aconchegante, íntimo era tudo o que não era a sala do Memorial da América Latina, que abrigou um monólogo na abertura do Festival Latinoamericano de Teatro que aconteceu ano passado. Aí não dava pra tomar fôlego junto com o ator, até porque nem dava pra ver direito quando ele tava tomando fôlego…
(…) Bzsusizusizusiuzisuzisuzzzzz (…)
Pequena, aconchegante e íntima, a sala “alternativa” do Sesc Consolação, no terceiro andar, me lembra a última peça que vi neste Sesc que não era no teatrão. Foi MSTesão. Mas não tem nada a ver, o Marcello Airoldi nem é do MST, nem tem uma revista de homem pelado, nem fica, ele próprio, pelado em cena…
(…) Bzsusizusizusiuzisuzisuzzzzz (…)
A cada abotoada na camisa, a cada respiração profunda, a cada gesto minuciosamente idêntico repetido para expressar não os mesmos significados, mas outros, o ator leva a platéia junto consigo para percorrer novas estradas e histórias de um homem que “caminha, caminha, sem nunca parar”, caminhos que, ao mesmo tempo, podem ser novos ou conhecidos, porque, depois de uma introdução didática, ele utiliza o som da sinapse pra nos despistar enquanto nos aproxima deste personagem que, acompanhado de uma bala, segue o seu caminho para “matar o homem que precisa morrer”. Jonas, Romano, o negro vesgo com a mão no fusca vermelho, a catequista dentuça e gordinha, o sangue vermelho da imagem de Jesus, o santo negro que não é vesgo, a catequista dentuça e gordinha. Cada personagem, cada história, caminha separado e junto, se funde em palavras que fazem sentido e não fazem, tudo ao mesmo tempo agora. Como em Tempo.Depois…
(…) Bzsusizusizusiuzisuzisuzzzzz (…)
Em Tempo.Depois, uma peça do carioca Rodrigo Nogueira que surpreendeu positivamente a Bacante ano passado no FIT (primeiro mochilão dos bacantes em festivais de teatro), um conceito semelhante de ligação invisível entre os pensamentos e os momentos diferentes da vida ganha intensidade com o jogo dinâmico entre dois atores que intercalam entre si as falas e repetições de fala. A montagem carioca acerta, sobretudo, nos elementos cênicos estranhos, que quebram as lógicas e transformam em imagens o que em Um segundo e meio são palavras, melhor, é poema. Um poemão – teria dito Ilo Krugli, que certamente tem sua cota de influência na atuação cada vez mais poética e sensível de Marcello Airoldi. Recuperamos o fôlego e aplaudimos, de pé, luz branca forte na cara.
3 grupinhos de neurônios transmitindo, transmitindo sem nunca parar



