Teatro Mudo
Essa crítica faz parte do registro do XVII Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga. Clique aqui e confira a cobertura na íntegra.
Fotos: Maurício Alcântara. Confira também a galeria de fotos do espetáculo.
O espetáculo baiano Uma Vez, Nada Mais, que seria eleito o melhor espetáculo da Mostra Nordeste do festival de Guaramiranga pelo público do festival, dentre todas as atrações que vi enquanto estive na cidade, certamente seria o que melhor se enquadraria dentro de uma abstrata classificação de “bem-feito” ou “preciso”. Com produção impecável, a comédia tem diversos atributos (interpretação, direção, figurinos, cenários, iluminação, dentre outros heliodorismos) que a qualificam para participar de festivais, circular por muitas cidades, atrair patrocínios, prêmios e agradar ao público por onde quer que passe.
O processo, como se revelou no debate e no programa do espetáculo, surgiu a partir de uma pesquisa sobre a linguagem corporal das atrizes sendo estudada a partir de diversas variações de ritmos (câmera rápida, câmera lenta, etc) – resultando em uma estética que em muito se aproxima da linguagem caricatural das histórias em quadrinhos e do cinema mudo (esta última que, por sua vez, surgiu com atores adaptando o registro corporal às múltiplas velocidades e formatos de película, mas que posteriormente se padronizou como um estilo estético que se estabeleceu comercialmente).
Partindo dessa pesquisa formal, as atrizes e a diretora Hebe Alves construíram uma fábula em torno da figura feminina no cinema mudo – que se materializaria em um espetáculo sobre duas mulheres que sonham com o grande amor que nunca se concretiza, que sempre é muito maior na idealização do que na vida real, em que os homens as enganam e elas, pobrezinhas, sofrem.
Mas sofrem com uma técnica corporal absurda de precisa, sob uma linguagem que, ao mimetizar o cinema mudo e suas personagens trazendo para o palco um ritmo e um gestual que no cinema mudo ocorre mais em função da técnica – e que aqui se transpõe como parte da estética do espetáculo – que diverte e cativa o público e prende a atenção de todos do começo ao final da apresentação. É essa técnica que Tiago Fortes elogia longamente no debate da manhã seguinte, comparando o espetáculo com a precisão e inventividade do jazz.
No entanto, mais uma vez em meio a uma discussão que tendia a discutir a forma (com texto, sem texto, luz assim, luz assado, etc) e não necessariamente o conteúdo do que o espetáculo falava, Zeca Ligiero trazia um contraponto que complexificava aquele papo para além do “como” – indo muito além do meu incômodo sobre a supremacia da forma para contar uma história que não conversava com seu tempo e não propunha qualquer leitura crítica sobre o papel daquelas mulheres “coitadinhas” na sociedade.
Zeca complexifica mais ao observar que as relações políticas e sociais entre as duas personagens também são altamente reveladoras: uma é costureira, outra é a cliente rica que encomenda um vestido de noiva. A relação comercial que se estabelece e as possíveis diferenças sociais que a peça sugere em muitos momentos são ignoradas para evidenciar somente a fragilidade e a idealização que essas mulheres fazem com relação ao amor. Não há nenhuma tensão entre as personagens, e em momento algum elas se libertam da condição de espera, de submissão ao mundo masculino.
Independentemente do tempo em que a história acontece (e de quais eram as condições das mulheres naquele tempo/espaço), ignora-se que há também o tempo em que a história se apresenta, em pleno século XXI. Mais do que a forma divertida e criativa, falta também encontrar uma chave de como esse conteúdo também se traduz em diálogo com o público e seu tempo.
2 mil contos de réis por um vestido
O espetáculo foi assistido no dia 6 de setembro de 2010, às 19h, no Teatro Rachel de Queiroz, Guaramiranga-CE, como parte do XVII Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, com entrada gratuita por meio da credencial de imprensa do festival.
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