Críticas

Una Tragedia Argentina

por Leca Perrechil

Nenhum Comentário 06 March 2008

Tecla SAP

Já tentou, durante uma dessas novelas mexicanas que passam em alguns canais da TV, apertar a tecla SAP e assistir um pouquinho em som original? Pois essa é a sensação que se tem durante o espetáculo Una Tragedia Argentina, do grupo argentino DIXZ, em apresentação no I Festival Ibero-Americano de Teatro de São Paulo.

O melodrama mexicano… ups… argentino mostra a transformação das relações de uma família tipicamente normal – com papai, mamãe, filho, filha e tio – quando os segredos de cada um começam a surgir e destruir uma aparente harmonia.

Sabe quando começam a descobrir que a filha tá grávida, o filho é gay, o tio é tarado, a mãe traiu o pai, com o pai dele, portanto, com o avô dos filhos? (Super normal, vai. Quem não leu Nelson Rodrigues?) E que dessa relação, nasceu a filha, que na verdade é filha do avô e não do pai? E, com isso, o pai não é o pai da filha, e sim irmão, e o tio tarado dá em cima da irmã, melhor, meia-irmã, achando que é sobrinha? Tá acompanhando? Pois é justamente essa confusão que a montagem pretende, para assim, chegar a comédia e a uma sátira dos mesmos melodramas. Pra nós, brasileiros, a intensidade melodramática parece que se amplia quando vemos tudo isso falado em espanhol – não que seja proposital, mas aposto que um filme do Almodóvar não seria tão dramático (e também cômico, quando é pra ser) se falado em português.

Enquanto as revelações vão acontecendo, feridas vão sendo expostas… literalmente. Os personagens começam a ferir uns aos outros com facas, como metáfora para o que sentem. No público, surge uma espécie de aflição, pelos cortes na pele que vão sendo feitos; comicidade, porque os cortes são propositadamente toscos; e ironia, porque a cada corte, os personagens dizem que fizeram isso sem querer. Como se na vida, as pessoas machucassem umas às outras sem pensar no que estão fazendo.

Não é nova a idéia de satirizar o melodrama. No Brasil, a Cia. dos Atores realizou um espetáculo chamado justamente Melodrama, em que trazia paródias bastante criativas. Transformar os conflitos dentro de uma família em uma metáfora mais física, incontrolável, também estava presente em Amores Surdos, da Cia. Espanca!, quando a sujeira da família foi representada por uma lama que envolvia todos os personagens.

Voltando à argentina, o cenário trazia apenas um sofá. Não só um sofá, um bem confortável, daqueles que simbolizam todo um lar, e muito usados em produções comerciais brasileiras. Mas aqui, diferente dessas peças comerciais tipo Sua Excelência, O Candidato, tiveram a sábia decisão de dispensar um abajur, uma escrivaninha, cortinas, janelas, tapete e quadros – só com o sofá, já dava para entender que se tratava de uma sala. O figurino de um dos atores me deixou intrigada: como a família de um rapaz que dorme na sala de calcinha e blusinha de alcinha apertada, pode não saber ainda que o garoto é gay? Talvez isso tenha sido explicado no espanhol ou lá no país dele calcinha é unissex, vai saber?

A falta de legenda não chegou a prejudicar a compreensão da história, mas nos privou de muitas piadas, de certo. Digo isso porque o casal de bolivianos ao meu lado riu bem mais do que eu. O público, aliás, parecia que não ia se comportar. Um rapaz atrás de mim gritou no início “fala mais alto. Não dá pra entender”, quando o espetáculo começou com uma cena em que um homem e uma mulher conversavam apenas mexendo as bocas. E baixinho disse “Só podiam ser argentinos”. Ainda bem que ele se acalmou, e deixou a peça continuar sem mais intervenções. E ainda bem que a grande maioria do público não estava nem aí para rixas entre Brasil e Argentina.

2 facadas no estômago e 1 corte no pescoço

E você, o que acha?

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