-->

Críticas

Virgolino e Maria – Auto de Angicos

por Marco Albuquerque

1 Comentário 28 April 2008

Os reis do cangaço

virgolino1.jpg

virgolino2.jpg

Fotos: Divulgação.

Uma platéia majoritariamente feminina se dirigiu ao Tucarena, numa tarde de domingo, para assistir a Virgolino e Maria – Auto de Angicos. A diferença entre o número de homens e de mulheres era realmente impressionante e eu me peguei formulando hipóteses que justificassem o fato:

Primeira hipótese: Seria porque o horário da peça coincidia com o do futebol dominical? Adicionalmente, o Palmeiras estava jogando a algumas quadras do teatro e ali havia um Palmeira que talvez interessasse mais ao público feminino.

Segunda hipótese: Seria porque o espetáculo, baseado no texto de Marcos Barbosa, retrata a última hora nas vidas de Lampião e Maria Bonita? É sabido como as mulheres adoram histórias de amor com finais infelizes.

Terceira Hipótese: Seria porque a peça não possui no elenco nenhuma das atrizes apontadas pela VIP como bons motivos para os homens irem ao teatro? (Sim, leitor da Bacante, você já leu inúmeras referências a esta matéria da VIP por aqui… o fato é que realmente achamos que esta matéria merece ser lembrada diversas vezes… já estamos inclusive planejando assistir algumas das peças indicadas pela VIP e checar se lá o fenômeno é invertido, ou seja, mais homens do que mulheres).

Quarta Hipótese: Seria porque o Lampião e a Maria Bonita de Virgolino e Maria – Auto de Angicos são interpretados por Marcos Palmeira e Adriana Esteves, atores famosos pelas telenovelas? Além disso, os dois interpretam um casal de personagens nordestinos, coisa que já fizeram bastante em suas carreiras.

Talvez a predominância feminina seja explicada por uma conjunção dos quatro fatores, mas o fato é que, ouvindo os diálogos das mulheres presentes no Tucarena, não conseguia deixar de pensar que os atores eram os responsáveis pelo público ali presente.

Já que o objetivo era ver os atores das novelas, o público é logo recompensado (ou castigado, dependendo do ponto de vista) com um forte sentimento de déjà-vu. Ao ouvirmos as primeiras palavras do texto de cada um dos atores, somos imediatamente remetidos ao sotaque que já foi ouvido outras tantas vezes, o que incomoda um pouco. Passo a olhar para os lados aguardando o momento em que o Antonio Fagundes surge em cena, interpretando um rico fazendeiro baiano. Felizmente, esta sensação logo é esquecida em função do texto de Marcos Barbosa e da direção de Amir Haddad, que mantêm o interesse e distanciam Virgolino e Maria Bonita das personagens que já foram vistas nas telenovelas. Também ajuda nesta “diferenciação novela-teatro” o fato do Antonio Fagundes realmente não entrar em cena (ufa…). O público pode então se concentrar nas duas personagens que são apresentadas: Virgolino e Maria, os nomes de batismo de Lampião e Maria Bonita, e esquecer os peões e as namoradinhas dos coronéis.

É mérito da montagem a humanização das personagens, retirando grande parte da carga histórica que as envolve, deixando simplesmente um casal que conversa amenidades, briga e faz as pazes. Esta última hora na vida de Lampião e Maria Bonita não poderia portanto ser uma expressão maior do cotidiano: Virgolino e Maria discutem por causa do café, sobre o fato de serem personalidades e estarem nas revistas e jornais (opa… mera coincidência com os atores?), sobre as próprias infantilidades e sobre o machismo de Virgolino. As personagens também discutem assuntos mais sérios, como o medo que sentem de serem traídos por pessoas de sua confiança, sobre o compromisso que tem de sacrificar seus próprios desejos em prol dos interesses do grupo que lideram e sobre a morte (cujas imagens aparecem para Virgolino através de sonhos premonitórios).

A direção de Amir Haddad também prima por deixar os atores extremamente à vontade no palco. Adriana Esteves se aproveita mais desta liberdade, cativando a platéia com as situações cômicas geradas pelas rabugices e resmungos de sua personagem. Esta liberdade, porém, parece ser extrapolada em alguns momentos: em cenas de forte tensão dramática (como exemplos: quando Maria narra o modo cruel como Virgolino matou um homem na frente de seus filhos, e quando Virgolino ameaça matar a própria Maria) o público responde com gargalhadas às palavras de Adriana.

Ao final, após o momento derradeiro das vidas de Virgolino e Maria, as luzes se apagam, e o público, ciente do final do espetáculo, aplaude com entusiasmo. Mas, ops, engano, a peça ainda não terminou! Os dois atores se dirigem para duas das extremidades do palco, onde estão vestes típicas de Lampião e Maria Bonita. Os atores, que passaram toda a peça em trajes simples, se vestem com os trajes e voltam para o centro da Arena, onde repetem diversas das principais frases ditas no espetáculo. As luzes voltam a se apagar e desta vez o espetáculo termina de verdade. Este momento adicional ficou um tanto quanto sem sentido, e talvez o público tenha acertado ao dar o espetáculo como encerrado logo após a morte das personagens. Didatismos à parte, ficou redundante repetir diversas citações das personagens. Também é curioso que o programa da montagem traz um texto de Domingos de Oliveira intitulado “Dez motivos para gostar de Virgolino e Maria – Auto de Angicos“… Será que precisa? Será que o público realmente se acostumou a ter pouca informação nas novelas e precisa que as coisas sejam repetidas e detalhadas para facilitar o seu entendimento? Ou será que o público é mais “esperto” do que se imagina, mas ainda é estigmatizado como ignorante? Fica aqui uma lição de casa…

1 salva de palmas no momento em que a peça realmente deveria ter sido encerrada

O que a galera acha

1 comentário

  1. astier says:

    marquinho,
    qdo vc imaginou a entrada
    de antônio fagundes
    eu fiquei imaginando
    q essa entrada seria ao som
    de Lenine ou Antônio Nóbrega
    abração


E você, o que acha?

Deixe seu comentário

 A Bacante é movida a Wordpress e seu conteúdo é Creative Commons.