Noite elegante, crítico deselegante

Fotos: Guga Melgar
(Leia também a crítica de Fábio Leal para este espetáculo.)
Uma atriz elegante (aquela, que é incensada pela imprensa em geral como talvez a mais elegante das atrizes brasileiras) entra num palco elegante para fazer seu monólogo elegante sobre a vida de Simone de Beauvoir. Num cenário elegante e minimalista (uma cadeira sobre um tablado de madeira, todos negros, perdidos na imensidão negra do palco) assinado por Daniela Thomas e iluminado pela precisa (trivial, mas elegante) luz constante de Beto Bruel, Fernandona (segundo Gerald Thomas) ou Fernandoca (segundo Bárbara Heliodora) interpreta, com tom didático, contido e elegante, um breve pot-pourri da vida da filósofa e de sua elegante relação amorosa com Jean-Paul Sartre.
A plateia paulistana do Teatro SESC Anchieta reage ao espetáculo com risadas contidas e elegantes, a cada pequena fissura de desmistificação que a atriz abre para a incensada e elegante relação dos dois pensadores-ícone do existencialismo francês. Não, não foram muitas ou consideráveis essas fissuras, mas a plateia paulistana reagia, e por isso, foi elegantemente elogiada pela atriz, ao final do espetáculo, por ser sempre tão calorosa, inteligente e receptiva. Um show de elegância, aquela mulher, quase uma caneta Montblanc.
Independente da qualidade do monólogo (sem cair mais uma vez na encruzilhada clássica da forma do diálogo que o formato estabelece com o público), tamanha elegância só me fez pensar no que poderia significar a declaração que ela deu, uma semana antes, em entrevista para a Folha de S. Paulo, dizendo que no Brasil só se faz um tal de “teatro possível” e que, para ela, hoje em dia, para que o trabalho artístico seja completo, é necessário recorrer ao monólogo. Aí eu faço uma pergunta de apenas duas letras: Oi?
Sem querer acreditar na possibilidade daquela atriz elegante fazer a deselegante afirmação (indireta) de que centenas de companhias e grupos espalhados pelo Brasil não têm um processo artístico “completo” (aliás, que significa isso? teatro patrocinado por um banco vermelhão?), fico pensando no que a dita senhora-grande-dama-do-teatro-brasileiro poderia ter tentado dizer então. Será que ela anda sem grana? Acho que não, afinal, como bem pesquisou o Astier lá no site do Ministério da Cultura, a produção já captou uma quantia de recursos que aposto que a maioria dos grupos por aí considera suficiente para viabilizar produções plenamente “possíveis”. De qualquer maneira, a questão que levanto não é sobre quantias ou sobre deselegantes juízos de valor relacionados ao merecimento. Tampouco é o caso relacionar mais uma vez por aqui os inúmeros aspectos altamente questionáveis da lei Rouanet (que, ironicamente, segundo Fernanda nessa mesma entrevista, não precisa ser reformada): apenas gostaria de entender o que torna este elegante espetáculo minimalista mais “possível” do que tantos outros.
Pode ser também que minha deselegância seja pelo fato de eu estar sendo cri-cri com uma leitura distorcida, quando ela, na verdade, queria se referir à “impossibilidade” de conseguir ingressos para a temporada. Aaaaaah, não acho que foi isso que foi dito, mas vamos fazer de conta que foi. Aí entramos mesmo numa outra questão. Não apenas porque a elegante temporada mal começou e já está tudo esgotado (como já era de se esperar, ora pois), mas também porque quando abriram as vendas para todas as apresentações, já estavam “indisponíveis” TODOS os ingressos centrais das primeiras fileiras, o que daria algumas boas dezenas de lugares por dia reservados aos convidados dos elegantes patrocinadores (eu chutaria algo por volta de 1/3 da lotação do teatro, ocupando todos os melhores assentos) – isso sem contar a questão do valor do ingresso (no site do MinC, uma das defesas presentes no resuminho do projeto era que os ingressos custariam de 10 a 20 reais, enquanto no SESC, vai de 7,50 a 30). Mas beleza, não li o projeto inteiro – só a informação publicada nos site – e, portanto, posso estar torcendo o nariz de chato que sou. Mas sou chato mesmo e torço o nariz mesmo.
E vale ressaltar também que isso nada tem a ver com o espetáculo propriamente dito. Durante a uma hora que olhamos para aquela senhora sentada em sua cadeira (coroada por uma chaminé preta de ponta-cabeça, é verdade), presenciamos um minucioso processo de construção de uma personagem que, num primeiro momento, mais parece uma declamação em primeira pessoa de um texto mecanicamente decorado. Mas com o passar do tempo, esse aspecto mecânico revela partituras mínimas, delicadas, precisas, e aos poucos vamos vendo a Zazá (desculpa, foi inevitável lembrar dessa novela em dado momento do monólogo) se convertendo numa voz que, sem a pretensão de mimetizar a histórica pensadora, conduz o público por lampejos de uma vida inteira em 60 minutos. Enfim, teatrão como todo mundo já sabia, com uma atriz cujo trabalho todo mundo já conhece, com um rigor que já era possível de se imaginar, e um tradicionalismo na construção da montagem que já era bastante previsível. Nada muito diferente do já era esperado por todos que foram ao Teatro Anchieta para ver a atriz que há anos não pisava num palco.
Fato é que, após assistir ao elegante teatrão da Fernandona, o que mais me perturbava ainda era a tentativa de descobrir o que significa, de fato, esse tal de “teatro possível”. Não apenas porque essa expressão no fim das contas soa bem, mas porque Fernanda Montenegro talvez abra uma chave para compreender a cena teatral brasileira – porque afinal o teatro no Brasil está a anos-luz de ser idealmente “possível”, isso também não dá pra discordar. Mas já que foi ela quem levantou a questão, gostaria muito de saber o que nossa elegante amiga sugere para mudar esse quadro, porque na entrevista ficou uma sensação de conformismo cômodo, de quem não está realmente preocupada em tornar as coisas mais “possíveis”. Pena que na entrevista publicada na Folha, em vez de esmiuçar um pouco mais esse tema, logo após essa declaração, eles mudam de assunto e pedem pra elegante atriz mandar conselhos para Rodrigo Santoro e Alice Braga, afinal eles estão em Hollywood. Enfim.
Mais vale um monólogo possível na mão do que uma peça de grupo voando




Não vi… Mas gostei do texto!
Há braços.
EU QUERO ASSISTIRRRRRRRRRRRRRR!!
como que uma peça sobre a ícone do feminismo apresentada por nada mais nada menos do que Fernanda montenegro, e eu, nascida com extrema vantade de lutar por IGUALDADE, adquirindo forças e idéias a cada dia, não vou assisti-la.
mundo injusto..rs
merda.
Detestei o texto.
Cansativo, pretensioso, mal escrito, mal elaborado.
Mas adorei a idéia deste site.
Abs
Oi Marcio,
Boa, você pegou o espírito do site! Inclusive, ele é aberto a colaborações (quanto mais visões diferentes, melhor). Está convidado a mandar a sua!
Abraço,
Maurício
Acho que a ideia não é pra ser “gostei” ou “não gostei” do texto, mas vou dizer que gostei muito, embora discorde do tom dele. Discordo na verdade da “contaminação” do texto pelas declarações da Fernanda na Folha. Eu consigo/prefiro separar as coisas.
Acho que a colocação dela a respeito do “teatro possível” foi infeliz e bem exagerada, até porque o projeto, como está lá no site do Minc, contava também com o Sergio Brito. Essa coisa do monólogo como saída possível para o teatro não se aplica a ela, e ela sabe disso. Mas os grupos teatrais que se mantêm dignamente (no sentido de oferecer uma vida classe média aos integrantes) são os patrocinados pelas Petrobras da vida. Ou seja, todo mundo sabe que a Lei Rouanet é torta e contempla alguns poucos felizardos, incluindo a Fernanda. Ela não querer que a lei seja mexida eu acho até compreensível, embora lastimável. Fato é que a Lei Rouanet é o Zampari de hoje e foi com esse tipo de financiamento teatral que ela fez a carreira dela.
Por outro lado, mesmo com todo esse ranço TBCista, acho que ela é uma das únicas que se arriscam – se não financeiramente, artisticamente. Risco no sentido de desafio, de se propor desafios.
Mas essa é uma discussão tão longa que fico com preguiça de escrever…
eita, Fábio.
Separar? Dividir?
Hummm. Eu não consigo fazer isso.
Quem quis o “Arte-pela-arte” foram os parnasianos.
Separar a arte e encerrá-la numa torre de marfim.
E tome sonetos perfeitos descrevendo vasos e ouriversaria.
E tome belle epoque. E tome poesia sorriso da sociedade.
Olavo Bilac é um exemplo de perfeição.
E, como diria Mário de Andrade, perfeição em arte é a morte.
Como separar a arte do tempo em que ela se insere e fala?
Como só olhar virtuose e esquecer que somos feitos, monstros sagrados também, da mesma matéria que qualquer pessoa comum, que paga imposto e que financia os projetos.
O contexto exterior à obra não deve, imagino eu, interferir na apreciação da obra. Mas o que é a obra? O que é o teatro? É só a pessoa ali em cena? É só o ato em si?
Não levar em conta o contexto, direcionar o olhar só para isso, a apresentação em si, faz com que muitos outros ângulos não sejam vistos.
Pra mim é impossível ler as lições, por exemplo, de Ezra Pound, e me esquecer de que ele era nazista. O “Abc da literatura” tem lições válidas até hoje, mas não consigo simplesmente ignorar isso.
Bom, “a Lei Rouanet é o Zampari de hoje” é uma frase que também prefere não levar em conta também contextos, né? O histórico principalmente. Ao que eu saiba, e aí reside a principal diferença, Zampari era iniciativa privada, corria riscos. Não era pago por mim, por meu imposto. Dá pra jogar esse contexto fora?
Abração.
Astier, acho que você tá confundindo as coisas… Em nenhum momento eu falei que o espetáculo era parnasiano nem muito menos que todas as peças de teatro deveriam ser parnasianas. No parnasianismo, a “arte pela arte” estava incutida na própria obra, o que não é o caso, ao meu ver, de Viver Sem Tempos Mortos.
O que eu quis dizer é que eu separo, sim, o ato em si das posições políticas de quem está lá, quando a obra apresentada não está lá apresentando essas posições políticas e sim outras visões de mundo. Além do mais, você exagerou bastante ao citar Pound. A Fernanda Montenegro tá longe, bem longe de ser considerada nazista.
Mas se a gente vai sair do âmbito da política cultural e ir pra “política barra pesada”, eu consigo achar o Charlton Heston um ator foda, mesmo sabendo que ele era um republicano reacionário presidente da associação do rifle, entende? Pode ser uma posição bem ingênua, mas eu prefiro ler pouco sobre o que eu vou ver (não leio sinopse nem vejo trailer de filme) pra ter o olhar mais “virgem” possível praquilo que está sendo mostrado. Não condeno quem vá “armado” de informações, só não é a minha.
E, finalizando, todo o parágrafo que falo do teatro possível, da lei Rouanet e do Zampari é discordando completamente das posições da Fernanda. Esse tipo de financiamento teatral viciou tanto uma geração de atores e artistas de teatro que, quando o financiamento passou a ser dado pelo governo, os atores (que viraram OS ATORES) usaram da sua influência pra perpetuar, com o nosso dinheiro, algo que existia com dinheiro privado. E, se não deixei claro antes, digo agora que acho isso uma merda.
Lembrei agora de algo que tinha esquecido de comentar antes: o projeto dizia que os ingressos custariam de 10 a 20 reais, mas o espetáculo ficou todo o mês passado circulando pelo Rio de Janeiro de graça. Se isso é um ato demagógico ou não, fica a critério de cada um. Eu não acho que seja.
bom, pelo que vc escreveu, a gente tá num diálogo de surdos, mesmo Fábio.
Não tá entendendo com o outro quer dizer.
como vc escreveu explicando o q eu não tinha entendido direito no comentário,
então, vou esclarecer o que eu quis dizer no comentário anterior também.
Eu não disse q vc achou o espetáculo parnasiano.
Eu quis dizer que a mim soava parnasiano uma postura de “separar as coisas”
no que se refere à “contaminação” da crítica do Mau pelas declarações de Fernanda.
Acho que “separar as coisas” tende a que tenhamos um olhar bem “Arte pela Arte”. E era esse tipo de olhar/postura/ visão de mundo presente com os parnasianos.
Não disse que a Fernanda era nazista. Apenas dei um exemplo bem looonge de coisas que “eu” não conseguia separar.
Retificando, não disse q a Fernanda é, era nazista.
Eu disse que o Pound era.
E disse também que um Pound é um teórico fantástico com lições válidas até hoje. E disse também que não conseguia ler as lições dele esquecendo-se do que ele era e do que ele dizia.
Valeu pelo esclarecimento sobre o q vc quis dizer com o lance do Zampari.
Valeu ainda sobre a informação que o espetáculo ficou circulando de graça.
Abração
Isso me lembra uma vez que eu vi uma camiseta dum amigo meu com ZURDOS FAMOSOS escrito. O primeiro da lista era Chaplin. “Chaplin era surdo??”. “Zurdo é canhoto em espanhol, idiota”. “Ahhhnnnn…”
ahahahahahahahaha
o lance é q eu li
lá em cima q tinha 9 comentários pensei: “opa, o Fábio respondeu”
Aí rolei, rolei. Só que parei no teu comentário anterior. E comecei a ler de novo e disse: “meu Deus”.
ahahahahahahaha
Beleza, Fábio.
Fucei na net e vi um conto teu.
tu escreve contos tb?
Então, gente. Essa discussão tá muito boa, faz pensar num bocado de coisas.
Sempre defendo que a crítica, antes de “avaliar” ou “avalizar” uma obra, ela tem um papel central de contextualizá-la, provocar/apontar leituras.
Se a leitura for contemporânea à obra, que permita algum tipo de atravessamento (qualquer que seja), que faça com que a peça seja percebida para além de si mesma. Se a leitura for posterior à realização da montagem, que sirva como um registro histórico que não se restrinja apenas à peça. É uma forma de não tornar o teatro inteiramente efêmero (ai que chique, eu sou clichê! hehehehe).
Acho que é aí que o Astier menciona a questão do parnasianismo, que acho um paralelo muito legal, mesmo (vou adotar a expressão, primo Basílio). Acho absolutamente necessário o levantamento de outras leituras que ajudem a contextualizar tudo isso (a entrevista, essa crítica, a do Fábio, a do Estadão, a do blog do chiquinho, até a da Monica Bergamo). E, claro, todas essas leituras são questionáveis – e têm que ser sempre questionadas mesmo (até porque o questionamento também faz parte dessa contextualização critica).
A postura política e a entrevista da atriz não estão necessariamente contidas na apresentação de 60 minutos, mas estão contidas no contexto (econômico, político, social, cultural) em que a peça é montada – e particularmente isso me interessa muito mais do que falar do que acontece naquele palco. Acho que se tivesse que escrever só sobre o que acontece no palco e nada mais, eu preferiria fazer um desenho livre.
Reparem que na crítica do Fábio também há apontamentos para fenômenos sociais/culturais que vão além do espetáculo: coquetel, jornalistas, celebridades, engravatados, além do próprio paralelo com a vida pessoal da atriz. É a mesma coisa, só que com recortes diferentes para aspectos diferentes.
Abraços!
PS: Como mencionei na crítica, não li o projeto e não sei como será justificado com o MinC a questão dos preços dos ingressos – só levantei a lebre!
PPS: Tenho medo do Astier quando ele pesquisa sobre as pessoas no Google. Hehehe.
Eu escrevia contos quando eu era menino lá em Barbacena. Se for o “Arroz”, acho que eu tinha 16, 17 anos. Nunca tive coragem de reler. Escrevi durante um tempo umas crônicas pra Revista Paradoxo também. Mas larguei dessa vida hahaha
Uma pergunta: “levantar a lebre” é como refazer a cena clássica do Rei Leão em que o Simba é apresentado aos outros animais da savana?
eu já escrevi um livro de sonetos – quando tinha 18 anos -
“sonetos soltos no vento e outras poesias”
ahahahahahahaahahahahah
Hahahahaha. Esse é o tipo de expressão que tem gente que usa muito aqui no trampo… Aí você se acostuma e nem pensa no quão esquisita ela é.
Mas respondendo ao Fabrício. É tipo isso mesmo, com música do Elton John e tudo.
Hakuna matata.
Eu acho o máximo que a gente possa fazer que nem os seriados americanos quando eles pedem um dossiê sobre fulano e na cena seguinte já tem uma pastinha com a ficha do FBI.
“levantar a lebre” eu ouço aqui na redação tb.
O foda é quando o cába disse: “deixa eu fazer uma colocação”. Aí dá vontade de dizer: “pode, mas não em mim”.
Posso estar dando meu pitaco? Fazia um tempo que eu não aparecia, né? Agora só leio, mas enfim. Eu escrevia? Ah, sim.
Então, o problema que eu vejo, apesar de ser bem contrário à posição do “teatro possível” da grande senhora citada, eu também entendo que a discussão de fomento, Rouanet e o cacete a 4 surgiu pelo fato da própria ser infeliz na entrevista ao jornal pelas razões já citadas. Mas e se não tivesse sido infeliz? Se não citasse “teatro possível”? A discussão estaria em pauta? Talvez, porque vejo que os meus ex-colegas críticos (heheh) têm batido na tecla “fomento”, “lei”, blãbs, recursos e tal faz um tempo. Não detecto uma mágoa de cabocla. Isso é bom.
Mas detecto um empecilho pra crítica. Porque então melhor adotar uma posição bem clara, do tipo “não vamos a espetáculos fomentados” e virar “o site da crítica de teatro independente”. Senão, todas as críticas terão de citar o “problema”. Senão, abra o fórum: “Lei Rouanet e de Fomento” são ruins? E debatamos!
Porque senão, nessa, Mau, soube mais do “problema” do que do espetáculo. E sei que a crítica deve abrir espaço e dialogar com o contexto, é importante, mas não a ponto de não apontar, não exercer grande parte do seu papel que é CRITICAR O ESPETÁCULO, indicar, aprovar ou desaprovar e poder levar mais gente pro espetáculo ou esvaziá-lo (Bacante chega lá!).
Outra coisa: veja só, a lei está errada e os critérios do fomento são obscuros, todos sabemos, mas, se não se deve fazer “arte pela arte”, alguém vai ter que ganhar, certo? É o grande problema com a expressão “teatro comercial”. Quem não quer ganhar, faça de graça. E, apesar de estar tudo errado, as coisas estão aí para ser usadas. Esse é o mecanismo. Lutemos pelo o que é nosso, tentemos fazer mudar, mas usem também, não esperem mudar. Espertos de quem usam.
Beijos!
concordo com o valmir…
as criticas estão ficando chatas…
fala-se mais de fomento( não digo tbem que não é importante), mas o espetáculo, o dito cujo em questão, fica em segundo plano…
existe uma raiva quando as pessoas ganham dinheiro, e reclamam…
por favor minha gente…
Paulo,
Não disse que achava chato. Eu gosto das críticas mesmo assim, viu? Só acho que tem que falar do espetáculo e o papo do fomento – muito pertinente, por sinal – deve ser abordado, mas acho que de outra forma. Não sei se os bacantes me entendem.
Por outro lado, a proposta da Bacante é essa coisa meio denuncista-humorista e é o charme. Pra mim, é.
Galera,
eu acompanho a Bacante desde seu início, e acho o trabalho de vocês sensacional.
Um coletivo de crítica teatral.
Mais bacana, não há uma linha editorial que vocês sigam senão as próprias impressões.
Qual é a função da crítica, senão gerar um embate através de opiniões bem embasadas?
Vocês apresentam uma coisa que está em voga, no jargão da inteligentsia elegante ( o uso da palavra elegante no texto é impagável, Maurício): diversidade.
Essa diversidade de opiniões é, ao meu ver, exatamente o que falta para que aquilo que chamamos arte possa estar em constante processo evolutivo.
Não se trata de concordar ou discordar, mais importante é gerar o debate. É preciso que vocês tenham consciência disso (vocês tem).
O material crítico gerado numa análise artística é capaz de gerar opiniões, revisões, encontros.
A arte vive de encontros.
São sua matéria prima.
O encontro sempre gera um conflito, e o lidar com isso é o fazer artístico.
Pode ser o encontro de uma moçada que decide se juntar e começar um grupo, pode ser de gente que se conhece e se admira e resolve montar uma peça, pode ser da Fernanda Montenegro com o Felipe Hirsch.
Havendo um grande encontro, a possibilidade artística se expande.
É claro que, para isso tudo, existe uma prática.
O outro lado da moeda.
O que mais se faz e que menos se reconhece.
A viabilização prática da arte e do entretenimento (não nos esquecemos do entretenimento!!!) é aquilo que chamamos produção.
Eis um assunto necessário, lodoso e urgente.
Sem aparelhos de produção, não se produz arte, não se produz qualidade no entretenimento.
No entanto, uma coisa é o que o artista faz para viabilizar sua obra, e outra é o que ele realiza num palco.
A análise deste contexto é uma questão de critérios.
São dois objetos interligados, mas de natureza completamente diferentes. Quem é melhor, Pelé ou Mozart?
Um critério é artístico, remete a outros valores, outras aspirações, é subjetivo, é fractal.
O outro critério, o de produção, tem relação direta com a sociedade em que vivemos, com aquilo que construímos, tem a ver com a falta de uma política cultural clara.
Uma política cultural que não pode ser apenas embasada em leis de mercado, mas deveria criar perspectivas para que a arte e o entretenimento possam ajudar o cidadão comum a expandir seus horizontes.
A arte gera conhecimento, arte inquieta, a arte faz enxergar.
Isso deveria ser mais que uma questão de estado: é puro bom senso evolucionista. Pra que sermos os humanos que somos se podemos ser mais humanos?
Pois esse plano ainda não existe.
Aqui, em território brasileiro, não.
Eu entendo que expor o relatório de Lei Rouanet de uma peça tenha esse caráter guerrilheiro cheio de excelentes intenções – como a de mostrar o quanto os coletivos de arte sofrem com as leis de mercado – mas é injusto quanto ao trabalho artístico.
Seja pra ganhar rios de dinheiro ou pra fazer de graça, uma artista como a Fernanda Montenegro tem uma história de luta pelo fazer artístico.
Deveria, ao meu ver, ser tratada com a mesma dignidade com que se apresenta – seja esta dignidade elegante ou não.
As opiniões dela sobre a prática de produção interessam a quem se interessa pela discussão.
Seu trabalho em cena é outro.
São duas naturezas, dois pesos e duas medidas.
Vocês todos escrevem muito bem (eu me divirto muito com as ironias do Maurício, do Fabrício, do Astier e do Valmir), e tem nas mãos uma possiblidade de ouro de mostrar que os coletivos tem uma grande força nas mãos.
Não existem coletivos de atores propondo novas saídas?
Não existem coletivos de dramaturgos, pensando juntos?
Pois existe um coletivo de críticos, que pode mudar a forma de se fazer crítica: não mais a crítica boa moça, não mais os arremedos de Paulo Francis, não mais os focas que migram de agronomia para escrever críticas nos jornais, não mais os academicistas.
Uma crítica conectada com as novas manisfestações artísticas, com os embates de gerações, com a delícia e o pavor do novo. É isso que falta.
E é isso que vocês potencialmente apresentam.
Uma sugestão: por quê vocês não criam um instrumento à parte (um blog, talvez?) para discutir estas idéias de produção, de fomento às propostas de política cultural? Difundir novas idéias é um passo tremendamente difícil se não existe quem tope a parada.
E isso vocês já toparam.
Enfim, dei minha opinião.
Um grande abraço a todos vocês.
Otávio
No “botóx” da Bacante deveria-se colocar um “contador de comentários” logo na home, embaixo de cada crítica.
Pois eu só me toquei dessa discussão no vigéssimo primeiro comentário!
Bom, 16 comentários atrás, o Astier disse algumas coisas que eu concordo demais. E retomo pois acho mesmo que seja a grande questão do exercício crítico. Um problema, na verdade, a ser resolvido: pois facilmente o contexto engole todo o texto, e vice-versa. Acredito que é sempre o desafio em estabelecer o diálogo nesse “entre” desconhecido que deveria mover toda crítica. Que, no entanto, vira um nada normativo no exato instante em que se ignora ou um ou outro.
Por exemplo, falar desse espetáculo sem citar a entrevista na Folha, a problemática do incentivo etc torna a crítica um sopro qualquer, “ahistórica”, normativa (mesmo quando rompe com os padrões de linguagem) – pois nega-se, assim, a própria arte: diálogo íntrinseco com a sociedade (queira ou não) e com seu tempo. Sendo sociedade e tempo, conceitos materiais e não subjetivos ou metafísicas da existência (da mulher, da atriz, e dessa lenga-lenga toda…)
enfim… só pra constar na discussão!
Astier! entre a ultra-esquerda e a direita festiva existe concordância! ehe…
Abs
Estive gostando da opinião retumbante do digníssimo Otavio e da sugestão também. Posso estar ajudando nesse blog/seção/fórum de política cultural.
Estejam contando comigo.
Eu continuo pensando sobre o danado do lugar da crítica.
E pensando nesse lugar, continuo acreditando que a crítica tem que se sujar, sim, desse contexto.
Não consigo, ao menos pra mim, uma crítica “limpinha”, sabe?
Por que, a rigor, não há nada limpo, nem sujo.
Tudo tem a ver com tudo.
O mundo está interligado e sem fio.
Lembro, como eu sou da turma da literatura,
do maior quebra pau que rolou em listas e fóruns do projeto “Amores Expressos” da Cia das Letras.
O que era? Grosso modo, financiamento público com grana da Rouanet para escritores viajaram para várias partes do mundo e escreverem uma história… de amor.
Sei, sei que tô ampliando a discussão, fungindo do foco, da crítica da Fernanda Montenegro,
que se eu não for a São Paulo ou Rio, dificilmente eu vou assistir, pois, uma produtora daqui entrou em contato com a assessoria do espetáculo e elas falaram textualmente que não compensava sair do eixo – sequer disse quando era pra trazer o espetáculo pra cá.
Mantenho a minha posição de que o espetáculo é quem vai pedir uma abordagem crítica própria.
Que não existe, pelo menos não é essa a crítica que eu tento praticar, uma receita de bolo para se escrever e formatar o teatro dentro disso.
Não.
Por que não discutir financiamento, discurso, postura política ou a-política no espetáculo?
Acho legal a observação do Otávio em sacar isso do coletivo de crítica. Não tinha pensando nisso antes. E realmente você tem razão. Muito de minha visão de mundo, do que eu penso sobre a crítica, foi construído e consolidado aqui, neste um ano de colaboração com as meninas e os meninos, vem dos pitacos, conversas, observações, troca de ideias…
Acho, ainda, que o lugar dessas discussões, quando elas houver e o espetáculo pedir essa abordagem, é na própria crítica e não fora dela.
É isso.
(agora despedida com piadinha interna)
Love,
Bas
sim, Paulão. Topo ser vice na sua chapa, tá?
Candidato a q?
A qualquer coisa.
Abração
Paulo,
gostei muito de suas colocações – de fato, tudo está relacionado.
Coloco aqui um outro lado da moeda, para que a importância desta discussão não se perca.
Eu acredito, de fato, que o debate é mais importante para a causa do que a prevalescência desta ou daquela opinião.
Quando uma atriz do porte de Fernanda dá uma entrevista à Bravo! e à Folha, no lançamento de sua peça, suas palavras e grandes olhos preenchem a capa, mesmo que a entrevista nem seja tão interessante, mesmo que os repórteres resvalem para a fofoca midiática.
A formação dos repórteres está ligada?
Está.
Mas não vem ao caso.
O fato de Fernanda achar que faz o “teatro possível” muda alguma coisa pra quem rala em conseguir um dinheirinho e comprar o próprio figurino?
Não.
Está relacionado, sem dúvida, mas não muda em nada a necessidade do figurino (nem a fome e a vontade do artista).
O problema do incentivo fiscal está relacionado com a prática de produção de um espetáculo?
Claro!
Mas a grande quantidade de excelentes espetáculos com incentivo zero prova que é possível passar ao largo disso tudo.
Está relacionado, mas não é determinante.
A ditadura militar não impediu o Chico Buarque de compor algumas das mais inesquecíveis canções CONTRA a ditadura.
Por que?
Porque existe o componente artístico.
Existe a arte.
E a arte é, como você bem coloca, o “diálogo intrínseco com a sociedade e seu tempo”.
Não se faz arte sem esta preocupação.
A questão é: este diálogo, proposto pelo artista, vem através de sua obra ou de seu meio de produção?
Ainda não vi o espetáculo da Fernanda, mas o que está em cena é a vida de Simone de Beauvoir e a analogia de seu pensamento com o mundo de hoje, ou a discussão sobre os meios de produção desta peça?
Condicionar a análise artística de uma obra ao modus operandi dos que estão por trás dela é julgar a obra através dos atos pessoais cotidianos, e não da própria obra.
É dar razão aos repórteres que abrem mão de verticalizar a entrevista para fazer perguntas pessoais que resvalam na fofoca barata. (não é exagero, o conceito é exatamente o mesmo)
Existem artistas como Wagner, ou Ezra Pound, ou Leni Riefenstahl, cujas crenças pessoais em nada corroboram para que os chamemos de “gente do bem”; no entanto, é possível negar a qualidade e vitalidade de suas obras?
Se a função da crítica artística não focar a obra, ela deixa de ser uma crítica sobre a arte feita para ser uma crônica da realidade que a cerca.
É matar a própria arte.
Pode-se criticar (e eu faço coro) o uso de Lei Rouanet pra bancar a viagem de escritores, afinal aquilo é dinheiro público, mas a análise de cada uma dessas obras geradas a partir disso deve ser independente, e baseada na qualidade artística.
Confia-se na opinão de um crítico literário para isso.
A função da acusação deste processo de uso de dinheiro público é a de um repórter investigativo, que pode ser a mesma pessoa, mas em funções completamente diferentes.
A obra literária gerada é uma coisa, suas condições de realização são outra.
Alhos e bugalhos estão relacionados, sempre.
Mas nem por isso devem ser misturados.
A intenção de abarcar os problemas de produção de uma obra num país desprovido de política cultural consistente é nobre e justa, não fosse por um pequeno detalhe: ela mata sua função primeira, que é a de análise da obra efetuada.
É uma questão de princípios.
Como sou artista, mantenho a obra artística num lugar sagrado, meu objetivo maior.
Como sou produtor da maior parte das coisas que faço, brigo muito por melhores condições.
As coisas estão relacionadas, Paulo, e você tem toda a razão.
Mas quando a gente entra numa sala de ensaio, os problemas de produção – ao menos durante as horas que duram o ensaio – devem dar lugar a esta matéria delicada e subjetiva que chamamos de arte.
Pra mim, só há razão em lutar por melhores condições de produção se o objetivo for a qualidade artística. Se este objetivo se perde, toda a luta corre o risco de ser em vão.
Abs a todos
e daí o mar, uísque… livros, mulheres tão lindas e distantes… efemérides, passageiros…
até breve.
(festivos ou ressentidos? … qualquer coisa…)
PS: o comentário acima era pra ter entrado antes do do Otávio..
já continuo
Mas Otávio, o que é a arte, ou ainda a “qualidade artística” da obra?
Isso existe? As obras de Chico Buarque são arte em qualquer tempo-espaço?
A monalisa é uma obra-prima universal?
Isso tudo, a meu ver, é construção histórica. A arte como potência em si é contrução. Selecionamos aquilo que nosso tempo (leia-se ideologia dominante) afirma, permite, corrobora.
Não existe “lugar sagrado”. Eu acho que isso contribui pra allheação da arte, pro formalismo desmedido, pra indústria cultural. Esse “lugar sagrado” justifica tudo e todos.
Que quero dizer é que a obra É o meio em que se insere É os modos de produção como É sua forma e seu conteúdo.
É intrínseco. Não há catalogação esquartejada.
como, exemplo, a luz de um espetáculo não é nada por si só… só existe pelo diálogo, ou seja, ela é o todo…
A crítica normativa insiste em forjar separações do tipo, interpretação, luz, cenário blá blá blá…
que, no fundo, tratam tudo como aparatos técnicos de um “bem-fazer”. Ou, pior, mergulham a arte no mar de subjetividade onde tudo ganha as vestes da relatividade.
Pode ser…
mas se for assim a crítica não é nada. É só exibicionismo de leitura particular (de alguma autoridade reconhecida como O crítico).
Como não acredito nisso, penso que a crítica é olhar histórico. E, portanto, vê a obra e a arte como fenômeno histórico, material e fruto do (ou em relação com) seu tempo.
“Qualidade” e “Vitalidade” são categorias hiper-relativas que só dizem respeito ao contexto. Pois se não for assim, estamos afirmando que há uma arte universal. Ou mesmo, uma essência do ser humano, que liga tudo.
E eu não posso acreditar nisso…
grande abraço!
Concordo com rigorosamente tudo que o Otávio falou. Acho que as críticas da Bacante tem esse “diferencial” de privilegiar – também – o entorno, mas quando o entorno e o modo de produção e outras variáveis “engolem” o espetáculo, a crítica de um espetáculo perde a sua função. A meu ver, não haveria problema nenhum em criar uma seção Artigos pra discutir, entre outras coisas, política cultural lá.
Também mantenho a obra artística num lugar sagrado e não me interessa de maneira nenhuma tirá-la de lá, senão ela não teria mais sentido pra mim. Gosto/preciso sentar (ou ficar em pé, se for o caso) num lugar e voltar minha atenção para aquela obra e sair de lá pensando no que aquela obra me deixou. Não me importa, naquele momento, o dinheiro que financiou aquela obra porque, se importasse, eu preferiria não ver. Se eu já vou entrar num espetáculo puto da vida porque discordo de tudo aquilo, eu não preciso vê-lo pra saber que não vou gostar.
Agora, uma coisa que não entendo é por que pegar a Fernanda Montenegro pra Cristo da Lei Rouanet. Porque ela fez um comentário infeliz sobre “teatro possível”? Porque ela acha que a Lei não deve ser mexida? Porque o espetáculo, no SESC Anchieta, custa 10 reais a mais do que constava no projeto? Está aí em cartaz As Centenárias custando 90 reais, depois de uma temporada de mais de um ano (custando os mesmos 90) no Rio de Janeiro, também financiado pela Lei Rouanet. E poderia ficar aqui dando mais dezenas de exemplos…
Sugestão: A Fernanda Montenegro está, toda quarta feira, de graça, no SESC, debatendo sobre a Simone de Beauvoir e também sobre o espetáculo, porque “acha importante abrir os bastidores, mostrar o caminho que se faz até chegar na obra final”. Acharia interessantíssimo levantar esse Simba pra ela própria.
Paulo,
A arte é subjetiva.
Sei que isso pode parecer um xingamento à razão, mas não é.
Um quadro de Rafael tem seu contexto histórico, mas é antes de mais nada um quadro de Rafael.
Guernica tinha um significado histórico quando pintada; hoje, sua qualidade artística ultrapassa o tempo em que foi feita, ultrapassa o próprio Picasso. É possível se apaixonar por Guernica sem conhecer as circunstâncias em que foi feito.
A melodia e as letras do Chico são eternas, sim.
Cotidiano e Construção não resistiram ao tempo?
A arte é maior que o retrato de seu tempo.
Para complicar ainda mais este colóquio, ainda existe um enorme e gigantesco meio-termo disso tudo, que é Brecht: ele localiza a ação dos personagens em um tempo, como um quadro, e esse quadro ressoa na arte e na forma como vivemos o mundo de hoje, como viveremos o mundo de amanhã.
A obra de Brecht ultrapassa o tempo justamente por não fugir dele.
Pensando racionalmente, é uma idiossincrasia.
Pensando filosoficamente, é um paradoxo.
Pensando artisticamente, é um olhar para si através do olhar do outro.
O tal distanciamento.
Não acreditar na arte é possível.
Só deixa o mundo mais triste, mas é possível.
Eu prefiro o mundo com a subjetividade.
Talvez eu prefira acreditar.
Questão de fé.
Artaud sobrevive.
Shakespeare sobrevive.
(e olha que, se tinha um cara que bajulava os poderosos pra conseguir financiar suas peças, ninguém supera o velho Bardo…)
Acredito que a obra é MAIS que o meio em que se insere, é MAIS que seus modos de produção, é MAIS que sua forma e seu conteúdo.
A obra é o que atinge as percepções e mentes para além desta compreensão primeira, seja pelos meios racionais, seja pela subjetividade intrínseca no fazer artístico (que, já sei, você não acredita – o que é um direito seu).
A catalogação esquartejada é obra de anatomistas.
E se pedir a um artista que a retrate, ele dará a este esquarteamento um olhar inusitado, que propõe a seu espectador o convite às novas formas de olhar a vida.
É isso que faz a arte necessária, e não apenas uma commoditie: a possibilidade de abrir novos horizontes não é um latifúndio da razão.
Cada um tem o direito de acreditar no que quer: eu acredito no sagrado do fazer artístico, e te faço o convite ao mergulho.
O crítico lança um olhar histórico, sem dúvidas: é o que o referencia, o que o aproxima da obra e da realidade à sua volta.
Mas esta é apenas uma faceta.
Porque é possível fazer uma análise crítica de obras feitas no passado, por exemplo.
Assim, leva-se em conta o modo de produção, mas o que vem à tona é sua relevância artística na história.
Não é explicando a sociedade em que Vivaldi vivia que fará um garoto comprar um CD de As Quatro Estações ao invés de comprar o novo lançamento do Linkin Park.
Existe o subjetivo: o prazer, o sentir, o gostar.
Caso contrário, o mundo está condenado às pequenas misérias cotidianas, mais relevantes aos repórteres investigativos e aos políticos que usurpam o bem estar.
O mundo merece mais que isso.
A arte, também.
Se tudo está relacionado, então existe uma essência humana.
Você tem todo o direito de não acreditar, como eu tenho o de acreditar.
São posicionamentos filosóficos, que antes de serem opostos, são complementares.
É um prazer poder debater contigo.
Se puder, assista minha peça (Mediano) e leve um susto: este defensor da subjetividade é muito mais alinhado ideologicamente a você do que possa imaginar.
Abraços
Se tem alguma coisa que eu curto deveras é uma conversa franca com gente que gosta de teatro. Meu email falhou de ontem pra hoje e perdi metade da conversa que vem acontecendo aqui. Quando todo mundo está discutindo se devemos colocar ou não os meios de produção dentro da crítica, sinto vontade de falar das pessoas que estão na conversa.
Todos que aqui comentaram estão ligados de alguma maneira à prática teatral. Atores, dramaturgos, diretores, estamos fazendo e escrevendo sobre o nosso tempo, pra muito, muito além de qualquer peça da Fernanda Montenegro – e contraditoriamente não é essa posição que ocupamos nem nossos ganha-pãos que nos definem. Daqui, parto pra dizer que, como manda o clichê, me empolga de verdade que uma conversa dessas seja possível. Mesmo que ela tenha acontecido nos comentários sobre a peça da moça que fala sobre o “teatro possível”, que pra mim é o extremo oposto da nossa realidade artística.
Ao Otávio, Valmir e Fábio, explico algumas coisas que parecem já naturalizadas pra nós. Nós, eu digo esse coletivo, que parece estar em expansão com essa conversa. Existem tantas, mas tantas possibilidades de abordagem numa crítica que nem me ocorre separar o que é jornalismo e o que é crítica. Isso porque, o jornalismo, como a propaganda, as relações públicas, o que se convencionou chamar de “áreas da comunicação” (que contraditoriamente não as menos comunicativas e mais transmissivas), ganham importância exatamente no momento em que a produção excede a demanda, lá no século XIX. Ou seja, convencionou-se chamar de jornalismo aquilo que está acontecendo ou que mal aconteceu. A origem de jornalismo e da palavra diurno é a mesma, ou seja, do dia. A Julie, que é jornalista dissidente da profissão, pode corrigir qqer erro meu.
Parece que a crítica, como a arte, pode falar do que aconteceu exatamente agora ou do que sempre existiu. Nesse sentido, crítica e jornalismo não podem ser separados em campos distintos, como pede a sociedade capitalista. Na real, eu diria que o jornalismo poderia deixar de existir e ser recriado do zero, que mesmo assim não daria conta de nada que não seja um instante, um momento. Já a crítica seria um duplo da arte.
E como duplo, a crítica pode ser normativa (como a arte já foi). Pode utilizar atribuições do jornalismo – investigação, apuração, parcialidade asumida etc. Pode ser materialista, como a arte já foi. Enfim, pensando por essa chave, eu não coloco absolutamente limite nenhum na hora de escrever e na hora de refletir sobre qualquer objeto artístico. E sempre que me dizem que uma coisa não cabe na crítica, o raciocínio seguinte é fazer caber.
A idéia de distinção de campos me parece restritiva. Achar que não existe arte e crítica no fazer jornalístico é torná-lo alienado e burocrático (como os veículos costumam fazer). Expandindo mais, achar que não existe arte e crítica em qualquer palavra que se escreve, é alienar a palavra.
Diferente do que propõe o Otávio, a arte pra mim é nada sagrada. Ligada diretamente ao tempo. O contexto é sua motriz, mas nunca atemporal e muito menos universal. Mas é óbvio que ao dizer isso, já penso nas possibilidades atemporais e universais (inclusive guernica e chico buarque, que podem ser considerados quase nossos contemporâneos). Acho que não existem mesmo.
Sendo assim, continuo achando que, no meu fazer crítico, nesse momento histórico em que vivemos, no Brasil e em São Paulo, é essencial falar o que não se fala: o dinheiro público e sua utilização privada. E pouco me importa, na real, se é a Fernandoca, ou o Sérgio Britto, ou a jornalista da Bravo quem vai lançar a próxima besteira. Essas críticas e essas citações dos absurdos que rolam na mídia só servem pra mapear o nosso tempo.
A meia culpa que faço com relação ao comentário do Otávio é que, quando me deparo com um objeto artístico que dá conta de driblar esses problemas sérios de circulação (que, na maioria das vezes, definem o próprio objeto), aí sim é que a crítica atinge a própria crítica. Aí sim me sinto em crise. E nesses momentos sou obrigado a pensar em formas novas de dialogar com o objeto artístico. Aqui é necessário ter repertório crítico, que não quer dizer ter lido todos os críticos de teatro do brasil nem somente ter visto um monte de peças e filmes. Tudo isso ajuda, mas o repertório crítico está relacionado com o próprio tempo que se vive. Sou obrigado a criar uma linguagem sob encomenda para o meu tempo e aqui entra um aspecto subjetivo: a intuição. A intuição, pra mim, é o duplo do raciocínio.
Enfim, é um saco quando eu esqueço do humor. Com cerveja seria mais fácil de conversar.
Abraço a todos os envolvidos na conversa.
Fabrício,
brilhante o teu pensamento.
O raciocínio crítico está, sempre e incondicionalmente, ligado ao tempo que se vive.
Esta é, inclusive, a base da comédia textual.
(engraçado você ter localizado a questão do humor!)
Ri-se de alguma coisa quando nosso senso crítico, baseado nas referências cotidianas, aponta um desequilíbrio, uma idiossincrasia, uma rachadura no que se costuma chamar de ordem.
Ironicamente, a ditadura militar costumava chamar de subversivos aqueles que causavam esta racahadura na ordem.
Pois é esta atitude subversiva que eu admiro no que vocês escrevem, aqui na Bacante.
É preciso não se acostumar, é preciso não aceitar este ou aquele fato como “naturais”, é preciso entrar em conflito.
Sem o conflito, não existe a arte.
Até aqui, estamos de acordo.
O problema é julgar uma obra (sim, crítica também é julgamento) pela perspectiva de seus meios de produção, quando o ideal (será que esta palavra cabe aqui?) seria analisá-la em seu viés artístico: o quanto desta obra pode mudar a capacidade do ser humano de olhar sua realidade de outro modo?
Entra-se, assim, numa questão muito mais lodosa que essa vergonhosa ausência de política cultural no Brasil: o que é arte, hoje?
Ok, se a perspectiva de lançar um outro olhar fosse necessariamente arte, obras como as do Vik Muniz deveriam ser alçadas à condição de obras primas.
Sabemos que não é BEM assim.
O guarda-chuvas do pós-modernismo ampliou essa regra, e tudo vale: há uma justificativa plausível e inteligente até mesmo para a banda Calypso.
A questão é: como manter um diálogo crítico com essa realidade dos meios de produção, resguardando a análise do objeto artístico?
Você deve estar se perguntando justamente “por que resguardar o objeto artístico?”.
Talvez você tenha razão, é impossível dissociá-las.
Ao mesmo tempo, sabemos que é injusto em relação à obra e ao artista.
Falo como testemunha: nunca tive patrocínio, em 15 anos de profissão, a nenhum projeto pessoal – e olhe que eu estou sempre tentando.
Sempre tive que arrumar dinheiro de outros trabalhos para injetar no que era meu projeto pessoal.
E nunca tive um retorno desse montante investido.
Minha satisfação é o da obra realizada.
Simples assim.
Ingênuo assim.
Subjetivo assim.
Não que eu ache justo. Não é.
Quer coisa mais ingrata que não ser remunerado com o trabalho que se faz 24 horas por dia, 365 dias por ano?
Quer coisa mais triste ver que a labuta artística é uma prova de resistência, e ver tanta gente bacana pendurando as chuteiras porque não tem como pagar um pãozinho?
Eu já fiz muita publicidade, já dei aulas de teatro, de inglês, fiz (e faço) roteiros e traduções, apresento eventos, sorrio e finjo estar feliz com a lama, e tudo com o intuito de ganhar dinheiro ali pra investir em projetos que eu acredito.
Assim é que é, e não sou o único.
E não somos heróis.
É o preço que pagamos pela escolha.
Essa é uma coisa que eu faço até hoje, e que certamente deve se repetir por um bom tempo.
Quando surge um convite pra fazer um projeto remunerado, a minha primeira preocupação é a de encaixar o tempo dedicado a isso com a de outros projetos pessoais.
O tempo milagrosamente se estica, e a gente faz tudo se encaixar.
A administradora do condomínio, infelizmente, não vai entender o atraso no pagamento por conta dessa vaidade artística.
E assim eu tento seguir o meu caminho, ganhando aqui, perdendo logo à frente.
É uma questão de escolha, e não há nada demais nisso.
Só que eu sou um cara do limbo.
Um “independente”, como ouvi outro dia.
(as pessoas resistem em ser chamadas de fantasmas desse limbo das leis de fomento e incentivo…)
Eu não sou grupo, nem pretendo me filiar a um pra tirar proveito das fracas leis de fomento que injetam um dízimo nos projetos de pesquisa.
Também não sou um global, montando um textinho pra faturar em cima da orda de gente que espera tirar uma fotinho com o cara da novela no fim da peça.
O que deve contar é que, tanto no limbo quanto nos grupos e entre os globais, residem pessoas de boa e má índole, desta ou daquela vertente.
Existem grupos muito ruins, e existem os muito bons.
Existem globais muito ruins, e existem os muito bons.
Existem os fantasmas do limbo muito ruins, e existem os muito bons.
O que diferencia esse povo todo, senão a qualidade artística, a seriedade com que encaram o ofício?
Como julgar todos aqueles que estão nesse saco, sem separá-los por algum critério?
Se este critério for o de meio de produção, como proceder?
Ser condizente com os menos favorecidos e cruel com os mais favorecidos?
Isto seria maniqueísmo.
Veja o caso da Marieta Severo e da Andréa Beltrão, a seriedade e compromisso artístico que empregam em seus trabalhos.
Estão em cartaz com um texto que veio do limbo, de um autor fascinante como Newton Moreno.
Elas não merecem ganhar dinheiro, só porque já o ganham em outros meios?
Cabe julgá-las pelo aspecto dos meios de produção, quando o que salta aos olhos é a qualidade e rigor artístico que empregam no trabalho?
Se não existem condições de trabalho suficientemente boas para outros trabalhos, a culpa não é delas.
A culpa é dessa maldita falta de política cultural, que joga uns contra os outros em troca de migalhas (sim, perto do que lucram, o montante investido pelas empresas é um troco besta).
Por isso acho injusto criticar a obra por seus meios de produção.
Porque o problema de captação, distribuição e circulação é muito maior, muito mais grave.
Se a razão é apontar as causas, enterrar o objeto artístico no lodo dos meios de produção é um erro.
Os problemas com os meios de produção são uma consequência da ausência de política cultural, e não sua causa.
Seria o mesmo que tentar frear um carro segurando o velocímetro.
O assunto merece a atenção, a urgência e o ataque.
Só que também merece que se acerte o alvo certo.
Este é um ponto de vista de quem está do outro lado, e que já viu de tudo.
Que sabe que o seu ponto de vista tem argumentos concretos.
Mas tão falíveis quanto os meus.
Também sigo minha intuição, Fabrício.
Só não sei se, no meu caso, essa intuição seria um raciocínio duplo.
No meu caso, é um misto de empirismo com subjetividade.
E uma enorme vontade de que as coisas melhorem.
Quanto à cerveja para recuperar o humor, estou totalmente de acordo!
Abraços a todos
Otávio, de certo que vc não está tão do outro lado assim.
Como o fabrício colocou, todos nós que escrevemos na Bacante somos também “do meio” (a expressão mais ridícula que conheço).
Inclusive, cabe enfatizar, que muitos de nós por diversas vezes recebendo verba das leis de incentivo etc. e tal.
a Bacante, por exemplo, desde o inicio do ano é apoiada pelo Proac!
Digo isso pra enfatizar uma questão: quando se entende os meios de produção como parte da obra (tá, já entendi que pensamos diferente e que ótimo! mas só vou insistir nisso um pouquinho) não se trata em nenhum aspecto de julgamento! É o oposto. É ampliar a perspectiva de contradição na coisa.
Se por acaso isso ganha tons de julgamento (e concordo plenamente com vc que isso facilmente acontece) é um erro da crítica que deve sim ser apontado e questionado.
Entretanto não é regra. A abordagem da crítica tendo em vista o “contexto” (que inclui tudo isso) é a tentativa máxima do olhar polidimensionado, não um catálogo de certo e errado. Justo e injusto. herói ou vendido. (claro que muitas vezes é isso que parece). Mas te garanto que isso nunca foi objetivo. É sempre ampliar a percepção da coisa elaborar uma nova perspectiva de olhar, levar em conta problemáticas que permeiam o todo – e então, tecer as linhas de intersecção.
Por isso, Fábio, ninguém pegou a Fernanda Montenegro pra Cristo. Simplesmente é inegável a força que essa questão tem na obra. Principalmente sabendo todos nós que a entrevista na folha onde ela critica abertamente as reformas na Lei é parte de uma campanha descarada contra o projeto que está em trâmite. Olhar pra isso é ampliar, e jamais reduzir, a apreensão/a fluição da coisa. Não olhar seria, a meu ver, minimizar totalmente o entendimento [como ler Heiner Müller sem saber que ele morava na RDA - podemos achar maravilhoso todos os textos e tal, mas jamais chegaremos ao paroxismo da relação com eles sem saber das conjunturas históricas de criação e produção dos mesmo]
E Otávio todos concordamos obviamente nas dificuldades estratosféricas pra fazer o que fazemos. Mas isso não reduz (e vc deve concordar com isso) nossas responsabilidades e não nos exime das contradições inerentes. Pelo contrário, o olhar afiado a tudo isso só reforça nosso trabalho (na minha humilde visão de estudante pouco “vivido” na labuta do dia-a-dia)
Enfim, acho que nossa divergência está mais sobre o entendimento do teatro enquanto obra, do que sobre crítica propriamente, e acho isso muito bom e interessante.
Mas assistirei seu espetáculo. E quanto a cerveja guardem um lugar pra mim!
Abs!
Ver a peça sem ter lido a entrevista da Fernanda Montenegro na Folha minimiza totalmente o entendimento da obra? Gente…
Acho que chegamos naquele ponto da discussão em que ela implode.
Fábio,
sua atitude reproduz uma operação escrota.
Recortar um argumento e depositá-lo distante do contexto com o intuito de ridicularizar o interlocutor e diluir seu real significado é uma prática típica dos meios de comunicação de massa (vide as frases da semana na Veja) e muito comum nos instrumentos de poder.
Ademais, decretar a “implosão” do debate me soa de uma arrogância desmedida e sem a menor justificativa além de sua beleza ferida.
Se vc se cansou, tchau.
não me venha com deturpações estúpidas e pedantes.
Paulo, quem decretou o fim da discussão foi você, a partir do momento em que falou “simplesmente é inegável a força que essa questão tem na obra”. Se não me é dado o direito de negar o que você fala, não existe mais discussão, e sim imposição de ideias, falta de controle e de educação. Realmente, não tenho a mínima vontade de dialogar com alguém que me acusa de “reproduzir uma atitude escrota” (oi?). Não tirei seu argumento do contexto, é só você reler seu comentário que vai ver que tá tudo lá.
Mas, enfim, finalizo aqui minha participação nesse debate e quero distância de qualquer mesa de bar em que você esteja.
ai que preguiça de todos vocês.
Comentários breves.
Paulo e Fábio, não estamos em campos opostos e a cerveja continua gelada.
Virgínia, achei ótima a citação do Macunaíma.
Abraço
O mais difícil de tudo é acompanhar essa discussão toda e não conseguir separar uma horinha que seja para comentar também. Mas vamo lá. É tanta, mas tanta coisa que dá vontade de usar a mesma técnica que usamos ao escrever/editar os textos por aqui, deixando comentários coloridos diretamente sobre cada citação. Mas como não dá, vamos aos recortes da discussão (na verdade, é sobre recortes o que mais quero falar).
Nessa discussão, concordo com os argumentos de Astier e Paulo, sou da turma dos que não conseguem enxergar essa cisão da arte e seus meios de produção. Sendo, para mim, tudo uma coisa só, e “tudo” algo muito grande para ser analisado em sua totalidade, para escrever acho necessário que façamos recortes.
Escrever sobre o que acontece no palco é uma possibilidade de recorte, que deixa de lado tudo o que está fora de cena para tratar sobre o que se vê. É o todo? Não, é um recorte. Inclusive, até mesmo quando falamos “o espetáculo”, estamos fazendo um recorte que exclui tudo o que não dialoga diretamente com a realização da obra final. A trajetória dos artistas dentro e fora desta obra, o histórico do texto, as referências infinitas, sua produção, sua captação de recursos – tudo é essencial, mas só aparece no recorte caso caiba nele, em geral de forma fragmentada.
Vejo a cisão obra/produção como apenas um dentre os infinitos recortes possíveis para analisar (e não retratar!) um evento artístico, da mesma forma como até mesmo “a peça” (ou “a apresentação a que assisti”) também são recortes que não dão conta de refletir (e nem precisam refletir, que fique claro) todo seu contexto (processo, pesquisa, produção, bastidores, histórico dos artistas envolvidos, etc) – apenas um recorte dele.
Vamos deixar claro que fazer um recorte não significa “eleger o mais importante”, mas escolher deliberadamente um ponto para orientar uma análise ou discussão – que pode não ser sobre o espetáculo, assim como também pode ser sim, senhor! Discordo do Otávio quando ele diz que fazer uma crítica sobre a produção – e não o resultado – é injusto com a obra e com o artista, porque não há relação hierárquica ou de desmerecimento de uma coisa em relação a outra. Em momento algum falo que a peça é ruim, ou que não vale a pena, ou que o trabalho de Fernanda é menos importante do que a produção de seu espetáculo.
Quando escrevi a crítica, fiz uma escolha deliberada por partir da entrevista – não por achar que a entrevista tenha mais valor que a peça, ou que a substitua, ou que o que foi dito à Folha seja representativo do que acontece no palco. Meu recorte não foi para “criticar a obra pelo meio de produção”, mas criticar o meio de produção que envolve a obra. Melhor: não somente essa obra especificamente, mas um cenário que abarca também muitas outras obras. Percebem que há uma diferença?
Aí quando fala-se da necessidade de “criticar a peça”, “falar dela sob o ‘viés artístico’”, fala-se, indiretamente, de determinar um recorte obrigatório que pode, sim, trazer uma leitura mais clara do espetáculo – se for essa a intenção. Mas e quando não for a intenção? Por quê incluir à força um recorte obrigatório, sendo que há diversos outros possíveis, ainda que apontem para outras análises para além da obra?
Vamos pensar aqui que o objetivo maior da crítica (ao menos para mim, em minha definição pessoal e torta de crítica) é provocar discussão, encontro, reflexão (e não indicar, aprovar ou desaprovar, esvaziar ou encher o teatro, como defendido). E vamos pensar também que essa discussão não precisa ser apenas sobre critérios “artísticos” – até porque não acho que apenas o viés (ou recorte) artístico, sozinho, constitua a totalidade da realização artística (assim como a produção, que ressalto nesta crítica, também não corresponde a essa totalidade). Mais legal, pra mim, é pensar sobre como esses mais diversos aspectos interferem diretamente no “fazer teatro”. E com os comentários todos que estão surgindo aqui, fico feliz demais de ter feito meu recorte torto (e nada elegante).
No fim, não só não concordo nem um pouco que essa discussão tenha implodido, como deixo bem claro que quero estar presente em qualquer mesa de bar em que essa discussão continue com a qualidade com que está acontecendo. Como bem disse o Fabrício, é bom demais conversar com quem gosta de teatro e quer pensar teatro. Melhor ainda quando tem cerveja no meio.
Abraços
Maurício
ia começar dizendo “amores”…
mas muita gente não iria entender o enunciado, então,
mudo pra um prosaico e comum,
“aê, pessoal”
Seguinte. Devo ir pra Sampa ainda esse ano.
E:
1) eu gosto de cerveja.
2) eu gosto de conversar sobre teatro.
3) eu não conheço pessoalmente nem o
- Paulo
- Fábio
- Otávio
4) não passarei muitos dias – em geral passo um finde
5) queria tomar cerveja com os 3 e mais a galera dos pitacos coloridos.
E aí? Rola, né?
Amores
(essa é pro Astier!)
Acho toda essa discussão muito bacana.
Se houvesse um pedacinho desta inquietação em cada núcleo, seja artístico, seja jornalístico, certamente não seríamos rodeados de tanta mediocridade.
Fábio e Paulo: a vida também é feita dos “vai tomar no cú”.
A cerveja foi inventada justamente pra gente dizer “te considero pra caralho” depois de dizer mandar o outro ao orifício anal.
De volta, a cerveja.
Tudo se resolve com a cerveja.
Seria ainda mais bacana se tivéssemos a Fernandona no boteco com a gente, mas acho difícil.
Ela só deve beber o whisky possível.
Essa não é uma discussão puramente retórica, onde quem argumenta mais ganha a contenda.
Não há contenda.
Não é gincana.
Existe a pluralidade, e se os diferentes posicionamentos se dispuserem a ouvir, talvez caminhemos para algo extremamente positivo.
Entendo os posicionamentos do Maurício e do Fabrício, e acho que existe uma grande lógica em seus argumentos.
Discutir os meios de produção pode, de fato, levar a uma reflexão mais aprofundada sobre os caminhos da arte.
Espero que eles entendam que o objeto artístico, no entanto, não deva ser colocado em segundo plano, em detrimento de análises políticas (sim, estamos falando de política e de gente politizada).
Só não se esqueçam, todos, que fazer arte hoje é um ato político.
De guerrilha, ao menos das pessoas que conhecemos.
De novo, a cerveja.
A cerveja tem esse poder mágico.
Deixemos que a cerveja embale novos posicionamentos, questionamentos e outros entos.
Que a vinda do Astier possa ser comemorada com garrafas de Original.
Sim.
Porque eu acho que a Original é a cerveja possível, na falta de uma caixa de Stella Artois.
Abs
Galera,
por menos que vocês considerem que essa é a realidade da Fernanda, vocês não acham que ela defendeu uma causa que é a realidade brasileira de se produzir teatro? Será que não rolou uma implicância com a atriz porque ela é perseguida por paparazzi aonde quer que ela vá??
Cheguei a essa conclusão porque também li a entrevista da Fernanda e na verdade o que ela disse não foi que a Lei Rouanet não precisa ser mexida, mas que ela não é a favor da criação do Fundo de Cultura no lugar da Rouanet e ainda, que a Lei Rouanet precisa sim de reparos.
Não entendi porque a entrevista foi cortada pra servir de base a essa crítica.
Abraços!
Não foi cortada Juliana.
Tem um link pra versão na íntegra da entrevista na Folha online.
E ela disse, sobre o projeto proposto pelo MinC:
“É uma reforma que não precisa existir”.
e, antes, diz:
“Hoje, estamos, talvez envergonhadamente, estatizados”
(a mesma crítica, de dirigismo, que a direita liberal faz sobre qualquer projeto que não passe pela iniciativa privada)
e o único reparo que ela propõe na lei é:
“[...]botar lá um parágrafo dizendo que não pode trazer estrangeiros patrocinados por leis de incentivo à cultura”
e se vc pegar o histórico de 3 meses da Folha Ilustrada vai poder mapear mais de 20 matérias críticas a reforma e nenhuma de defesa.
Ou seja, há um claro trabalho de mídia contrário à qualquer fissura nos confortos do incentivo privado.
Inclusive, sabe-se que a Fundação Roberto Marinho emitiu carta ao MinC criticando a fundo a reforma.
acho que a Fernanda Montenegro encampa, justamente por “ser perseguida por paparazzi”, com muito afinco essa luta pelo status quo.
Pra terminar, uma nota triste totalmente fora de lugar, mas que com certeza faz tudo parecer bem pior: hoje, depois de décadas (ditadura, AI-5), a PM invadiu a USP para repreender a movimentação dos funcionários e estudantes…
enfim.. só pra compartilhar minha tristeza
fico até com vergonha depois do Paulo mencionar o lance da USP – pô, merda, hem?- eu falar em cerveja.
Mas, minha sede alcança um bar também, não é só sede de justiça.
Otávio,
não mangue de mim não (adoro usar esse verbo)
mas essa cerveja (o Mao faleu pela aula)
não desceu o Rio São Francisco não, viu
ahahahahah
ao menos nos bares que eu vou ainda não apareceu por aqui (se bem que eu sou mais de bebidas q nocauteiam tipo vodca com Fanta, mas quando bebo acompanhado é a breja mesmo)
Então, vai ser minha primeira vez de Original.
Não bebo e sou a favor das suas cervejas e do meu refrigerante. Eu aceito. Faz tempo que não os vejo e tô a fim de discutir.
Quero dizer que achei a citação do Macunaíma uma grande candidata ao Prêmio Bacante.
Beijos na bunda de todos
Paulo,
Falar em direita e esquerda hoje é meio fora de moda: afinal, o Fernanda Henrique não era o ápice da esquerda? Eu lembro a porcaria que foi o governo dele. E todos os paulistas que votam Serra e Kasab?
Acho melhor falar em oportunidades: a Fernanda tem as mesmas dificuldades de um grupo estreante, numa outra escala. Fazer arte é sempre difícil, caro, exige entrega e mil malabarismos. Em qualquer lugar do mundo.
A lei tem que mudar para melhor, mas como vamos saber se isso está acontecendo? Nada está sendo regulamentado. Poderá a lei mudar para nunca colar, como várias que existem?
Acho que depender de leis de incentivo para fazer cultura é uma lastima. Sinto falta do verdadeiro mecenas, o capitalista que quer fazer dinheiro, seja com uma peça complicado do Beckett, que tem seu público, seja com uma comédia boboca sobre as manias da mãe ou da sogra. Essa figura falta no Brasil porque todos queremos mamar nas tetas do governo. E o governo, todos eles, inclusive o Lula, que apoio e sempre apoiei, quer dirigir a cultura, buscando uma brasilidade que só existe na cabeça das pessoas que não entendem que ser brasileiro é igual a ser canadense, americano, francês, senegalês ou tailandes: somos todos pessoas.
Nossas diferenças nos unem e não nos separam. Antes de criticar uma pessoa como a Fernanda por suas visões, procure ter uma carreira como a dela, baseada no talento, na emoção e na entrega. São 65 anos de palco, ela já foi jovem, já teve mais dificuldades, e hoje consegue fazer esse teatro que faz. Seja porque os profissionais que trabalham com ela são os mais proeminentes em suas áreas e tem um preço caro, seja porque ela deseja fazer esse tipo de espetáculo, é uma lástima se afirmar negando o trabalho de alguém, de quem quer que seja.
Nietzsche chamaria essa postura de uma postura do ressentimento: não sou ave de rapina, sou cordeiro, logo sou bom. Pois bem, se eu fosse você pensava em me afirmar por meus méritos, por minhas realizações e pela minha própria força.
Acho que meu comentário segue para todos os que concordam com esse artigo lastimável, que só critica o seguinte: o projeto é bom. E por isso, como não é meu, merece ser criticado. Mas não podia ser diferente, em se tratando de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre.
Paulo e demais amigos,
Falar em direita e esquerda hoje é meio fora de moda: afinal, o Fernanda Henrique não era o ápice da esquerda? Eu lembro a porcaria que foi o governo dele. E todos os paulistas que votam Serra e Kasab? São de esquerda, direita, centro? Não vivemos a era do pragmatismo?
Acho melhor falar em oportunidades: a Fernanda tem as mesmas dificuldades de um grupo estreante, numa outra escala. Fazer arte é sempre difícil, caro, exige entrega e mil malabarismos. Em qualquer lugar do mundo e para qualquer grupo de pessoas.
A lei tem que mudar para melhor, mas como vamos saber se isso está acontecendo? Nada está sendo regulamentado. Poderá a lei mudar para nunca colar, como várias que existem? Afinal, não regulamentar quem vai decidir quais os projetos que merecem ou não incentivo pode ser bastante perigoso e toda a grana ir direto para os tais “globais”.
Acho que depender de leis de incentivo para fazer cultura é uma lastima. Sinto falta do verdadeiro mecenas, o capitalista que quer fazer dinheiro, seja com uma peça complicada do Beckett, que tem seu público, seja com uma comédia boboca sobre as manias da mãe ou da sogra. Essa figura falta no Brasil porque todos queremos mamar nas tetas do governo. E o governo, todos eles, inclusive o Lula, que apoio e sempre apoiei, quer dirigir a cultura, buscando uma brasilidade que só existe na cabeça das pessoas que não entendem que ser brasileiro é igual a ser canadense, americano, francês, senegalês ou tailandes: somos todos pessoas.
Nossas diferenças nos unem e não nos separam. Antes de criticar uma pessoa como a Fernanda por suas visões, procure ter uma carreira como a dela, baseada no talento, na emoção e na entrega. São 65 anos de palco, ela já foi jovem, já teve mais dificuldades, e hoje consegue fazer esse teatro que faz. Seja porque os profissionais que trabalham com ela são os mais proeminentes em suas áreas e tem um preço caro, seja porque ela deseja fazer esse tipo de espetáculo, é uma lástima se afirmar negando o trabalho de alguém, de quem quer que seja.
Nietzsche chamaria essa postura de uma postura do ressentimento: não sou ave de rapina, sou cordeiro, logo sou bom. Pois bem, eu pensaria em me afirmar por meus méritos, por minhas realizações e pela minha própria força.
Acho que meu comentário segue para todos os que concordam com esse artigo lastimável, que só critica o seguinte: o projeto é bom. E por isso, como não é meu, merece ser criticado. Mas não podia ser diferente, em se tratando de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre.
É botar a palavra “direita” que lá vem lenha.
Caro Tiago,
Não acho nada “fora de moda” falar em direita e esquerda. (Quem acha isso fora de moda e vive dizendo por aí são os grandes conservadores editorialistas da Folha e do Estado e os geniais articulistas da Veja). Quem acompanha o mínimo da política nacional sabe disso. Seu exemplo é bem ruim. FHC nunca foi ápice de esquerda; foi um sociólogo importante que com uma semana no poder disse “esqueçam o que escrevi” (e por que? justamente porque rompia com qualquer valor “de esquerda” que porventura teve). Serra e Kassab (e Lula, diga-se de passagem) são veneráveis defensores do liberalismo (vide o projeto educacional para o ensino superior do Serra, por exemplo: contra a “construção” de conhecimento; pelo “funcionalismo de mercado” do ensino superior); o que, na conjuntura histórica atual, caracteriza uma postura de manutenção do establishment. E reflete um longo posicionamento político conservador no Estado de SP (que não vota neles a toa).
Se você der uma pequena olhadela no plenário nacional assistirá discursos corroídos do mais arcaico coronelismo provinciano, e, de outro lado, da mais radical postura socialista.
Mas nós, brasileiros, insistimos na manutenção dessa postura apolítica. Que faz de todos pretensiosos comentaristas políticos sem o menor conhecimento de história ou mesmo de conjuntura. Papagaiando por aí besteiras do tipo “o anacronismo das categorias esquerda/direita”
Em nenhum momento Tiago, defendi a reforma da Lei Rouanet. Mas critico sim a campanha de oposição que se faz a ela.
Por que dessa campanha? Por que quem encabeça são justamente os grandes produtores, e os “artistas famosos” (sem contar as grandes corporações de mídia)?
Porque a reforma começa a tocar nas contradições intrínsecas que é o financiamento privado (principalmente nas declarações do Juca Ferreira, pois na prática muda muito pouco). Começa a esboçar um questionamento sobre esse perveso casamento entre arte e marketing. E isso deixa esse pessoal com os pelos arrepiados porque eles vivem disso: da Cultura-mercadoria.
Sobre o Nietzsche, eu recomendaria que você lesse a obra dele a fundo,observasse em que período histórico ele estava escrevendo, entendesse com que ele estava dialogando antes de sair por aí usurpando frases soltas como se fossem lições de moral e de ética(Nietzsche é o oposto disso).
Por último Tiago, dê uma olhada no quanto seu comentário se parece com 200 outros pela Bacante que só dizem a mesma coisa: “vcs tem inveja! inveja!”.
Ou tudo isso (as críticas, a Bacante etc) é uma válvula de escape de nossa dor de cotovelo edipiana (aliás já disseram pro Fabricio ir resolver os problemas com o pai, ao invés de escrever críticas! eheh), ou teu comentário junta-se aos 200 na prática mais “normal”, infantil e repetitiva de rebater uma crítica desqualificando seu autor com simplificações moralistas do tipo: “invejoso!”.
engraçado, tava lembrando, Paulo que vc achou “escroto” o Fábio por retirar uma palavra do contexto que a Veja fazia isso e tal. E, qdo fui beber água na geladeira esses dias, fiquei pensando q a esquerda morreu de fazer isso com FHC sobretudo nessa frase q ele cita; eu tenho a impressão – não é certeza – de que quando a frase foi dita, dentro de uma situação em que o interlocutor evocava uma passagem do livro dele referente a algo bem específico, FHC disse “esqueça o q eu escrevi” para responder aquela questão.
De qualquer forma, não vou defender FHC. Eu enchi o saco de dizer palavra de ordem contra ele no meu tempo de movimento estudantil. Sobretudo no congresso da UNE de Goiânia onde eu vi o nascedouro da corrupção dos partidos de esquerda, o vestibular pra bandido e ludibriador – eu tava lá, vi gente do movimento punk ser agredido com violência; vi o PC do B fraudar delegado – eu fui eleito no meu curso, concorri com 5 chapas, venci e o meu curso teve dois delegados porque o DCE dominado pelos comunistas fraudou o processo e colocou “uma deles” lá. Não vou dar a ficha corrida do q eu eu vi no Congresso pq não vale a pena.
Em seguida trabalhei dentro do gabinete de dois parlamentares, um vereador outro deputado, do Partido dos Trabalhadores. Eu falo de um contexto histórico que eu testemunhei, que eu vi.
Mas, voltando: o “esqueçam o escrevi” fora ou dentro do contexto mereceu mesmo ser colada nas costas de FHC pq é uma “frase-sintoma”, uma “frase-emblema” que emblematiza bem o espírito FHC e todo o seu funesto primeiro e segundo mandato,
Não sei se entendi bem o que você quis dizer Paulo, do fundo do coração quando você diz
“Se você der uma pequena olhadela no plenário nacional assistirá discursos corroídos do mais arcaico coronelismo provinciano, e, de outro lado, da mais radical postura socialista”.
Não quero pecar por descontextualizá-la, mas pensar a partir dela me faz ter um outro ponto de vista. Sinceramente e com toda a admiração que tenho por você, eu não consigo enxergar o “outro lado” com discursos da “da mais radical postura socialista”. Embora concorde plenamente quando você diz que o discurso quando você fala que é um discurso conservador achar anacrônico a questão “direita e esquerda”
Pensando além. O que vejo – minha memória é boa: lembro vagamente de Figueiredo – uma ou duas imagens só; lembro bem de Sarney, passei minha infância sonhando com o fim da inflação e a cura da Aids; lembro melhor ainda de Collor, sai de mãos dadas com meu pai gritando Collor, pus o adesivo da campanha dele no meu caderno, e anos depois sai sozinho com meus colegas de curso mandando ele ir pra rua, sim, eu fui cara pintada – lembro que levei uma surra da minha mãe quando cheguei em casa: até hoje me orgulho dessa surra de corda; de Lula I, sai nas ruas, fiz campanha, distribui santinho…
O q eu vejo não é a polarização direita esquerda no plenário –
Minha “retinas fatigadas” não conseguem.
Eu, à medida do possível acompanho tv Câmara e tv senado – não é mas sim a mesma peça mambembe sendo encenada; o mesmo mau teatro sendo encenado; a diferença é que rolou um sistema coringa e os que diziam antes que instalar CPIs era um instrumento legítimo democrático e espaço para transparência política, agora diz que CPI é instrumento eleitoreiro, que quem quer CPI é contra o Brasil – pra ficarmos num contexto bem de agora, como é o caso da CPI da Petrobras.