Críticas

Vozes dissonantes

por Astier Basílio

11 Comentários 05 August 2008

Ora direis, assistir estrelas

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“(…) Invejo o ourives quando escrevo:
imito o amor
com que ele, em ouro, o alto-relevo
faz de uma flor.
Imito-o. E, pois, nem de Carrara
a pedra firo:
o alvo cristal, a pedra rara,
o ônix prefiro (…)”

O trecho acima é do poema “Profissão de fé”, que foi escrito nos finais do século XIX pelo poeta parnasiano Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac. Reparem em como, através de rimas perfeitas, domínio métrico e modulação rítmica, o eu-lírico equipara o ideal de busca de perfeição estética ao ofício de um ourives….

Pára, pára tudo. Não, você não caiu na revista Bravo! Nem na revista Cult. Definitivamente, leitor, você não clicou num gato e abriu a page de uma lebre. Mas é chato você se sentir assim, né? Eu por exemplo me senti numa aula de história chááááta, ministrada por um professor petista, quando fui assistir, semana passada, Vozes Dissonantes, no 33º Festival de Inverno de Campina Grande.

O espetáculo é dirigido, escrito, atuado e proibido de fotografar por Denise Stoklos. Esperem e verão mais semelhanças entre a autora de “teatro essencial” e o co-autor de “tratado de versificação”.

Quando saímos do teatro, no final de Vozes Dissonantes – não, isso não é um filme do David Lynch, sem pé nem cabeça, vai ser linear essa crítica, ok? – um dos atores de uma galeeera que veio de João Pessoa – deve ter rolado cota pra gasolina e tudo – praticamente escreveu um trecho dessa crítica. Ele manteve com um diretor o seguinte diálogo:

Ator 1 – Tu tá ligado que esse espetáculo a Denise, tipo, ia fazer pro governo brasileiro, o lance lá dos 500 anos?

Diretor – Oxen e foi, foi?

Ator 1- Foi… Então, aí, cara, a galera viu as “Vozes Dissonantes”… (pausa feita especialmente para dar mais efeito dramático ao relato)

Diretor – Disseram: aqui não! (risos)

Ator 1- Foi… Fernando Henrique, ó (eu estava de costas, ele deve ter utilizado o mesmo gesto em que foi pego em flagrante o ministro Marco Aurélio “top top” Garcia de Melo… Mas ela disse: “Quer saber? Eu vou fazer mesmo assim”.

Olavo Bilac e os seguidores dele atravessaram o final do século XIX e continuaram século XX a dentro como o ápice do virtuose, o esmero com as rimas, do arte pela arte… Um novo tempo surgindo, vanguardas pipocando na europa, cinema surgindo, cubismo, Picasso e muita gente ainda vidrada em “mármore”, “estrelas”… tsc. Foi preciso a Semana de 22.

Quando vi um dos primeiros quadros, em que Denise atualiza as maracutaias do descobrimento do Brasil, com o Pedro Álvares Cabral ao celular com um aspone do Rei reclamando porque este esquecera o logotipo da empresa patrocinadora da expedição – a Cruz – pensei: é isso.

Mas aí Denise veio e disse: “é nada”.

… e Denise Stoklos e o seu corpo. As arquiteturas em movimento. As partituras físicas. A respiração quântica. O gesto elipsoidal antuniano. Seu figurino pretinho básico. O cenário basiquíssimo, preto também, lógico. Sapatinho preto com saltinho. Denise Stoklos e as citações lugar-comum. O xaxado de trilha na parte que cita os Sertões. A luz em foco nela, na cela da prisão de Frei Betto e a mímica das grades. As vociferações contra o capitalismo. O bom mocismo esquerdista. Dom Hélder, Caio Prado, Milton Santos, Gilberto Freyre e, tipo, uma expressão no ar de: “galera eu li, tá?”

A “voz” que antes poderia ser chamada de dissonante – evocada por Denise no título do espetáculo – agora já é oficial como “nunca antes na história desse país”, com logo patrocinador da Petrobras e tudo.

O repertório de citações e de discursos tão surrado, que quase eu ouvi o velho Vandré puxando uma greve com “caminhando e cantando…”. Denise teve a coragem de ironizar o presidente… Fernando Henrique Cardoso. Ei, alguém precisa dizer a ela que as coisas mudaram, tipo: o cara que tá com a faixa agora só não repetiu “esqueçam o que eu escrevi” porque ele nunca escreveu nada, mas bem que poderia dizer: “esqueçam quem eu fui” .

As novidades, Denise, não param por aí. Desculpa, mas eu tenho mais recados do século XXI, já que você insiste em ficar no século passado. Sua peça no máximo vai até Lamarca, né? Aí é fácil brincar de polícia e ladrão, o ladrão usava farda. Quero ver agora, que emboloaram o jogo e trocaram o figurino dos dois lados.

Olha só, Denise, sinto em lhe dizer: o Corinthians foi rebaixado, uns malucos se esborracharam com um avião em Nova Iorque… tudo isso nestes quase dez anos em que você não atualizou a sua peça e mesmo assim continua circulando com ela em festivais.

“Ah! mas ela não é boa, não?” – me perguntará o leitor – E eu vos direi, no entanto, dileto amigo: tão boa quanto os parnasianos, retrato de um tempo que não consegue se enxergar e se refugia no porto seguro das formas fixas, virtuosismos e arte pela arte.

E pra terminar, a Denise começou a peça com um “Parabéns pro Brasil, nesse um de abril” e terminou com um “Parabéns pra você [dirigindo-se à platéia ou puxando as palmas pra ela mesma] parabéns pra você! Pra você!”. Tudo bem redondinho, que nem uma chave de ouro de um soneto decassílabo perfeito parnasiano.

2 estudantes de Ciências Sociais recordaram das aulas na saída do teatro.

O que a galera acha

11 comentários até o momento

  1. E os 2 estudantes de ciências sociais aplaudiram de pé.

    coitada da muié se ler esse texto, astier. hahaha.

    abração

  2. Rodrigo says:

    A pergunta que não quer calar é: se Denise é Bilac do teatro, Mario de Andrade da crítica que é,?Vc? Esse é o seu Prefácio Interessantíssimo? Para cada Bilac ultrapassado não deve haver um DE ANDRADE qualquer revolucionando por aí?
    A comparação com Olavo Bilac é escolar e essa querela entre modernistas e parnasianos tão ultrapassada quanto o próprio Bilac em 1922 e mais requentada que qualquer coisa que Denise produza na vida.
    2- Gestos Antunianos de Denise Stoklos? Em que lugar, meu filho? Vc já assistiu a algum espetáculo do Antunes?
    Me diga qual é essa montagem “Antuniana”de gestos “Stoklianos” e chamo os dois pra uma historinha juntos.
    3- Bom mocismo esquerdista do Gilberto Freyre? A pergunta agora é dos alunos de ciências sociais : vc leu? Os tempos mudaram mesmo!
    Conselho: vc está perdendo tempo aí.Saia da Bacante! Veja se encontra um lugarzinho aqui na Folha de São Paulo ou na VEJA e ganha uns TROCO. Sua foto vai ficar fofa do lado da do Diogo Mainardi.

  3. Astier Basílio says:

    “querido rodrigo.
    Vamos por partes, como diria aquele cabinha de goiás.
    1- Acho q a pergunta um é se eu sou o Mário de Andrade da crítica, né? Acho que não, mas meu sonho é ser o “Macunaíma”

    2- Querido eu não falei “gestos Antunianos” não. Eu falei: “O gesto elipsoidal antuniano”. É beeem diferente, sabe? E respondendo à sua pergunta, se eu vi algum espetáculo dele, vi sim. Pronto, resposta dada.

    3- Querido, o bom mocismo não é do Gilberto Freyre, é da moça do espetáculo que além da clave esquerdista só citou lugar-comum, e o Freyre, que é cátedra em Recife, é um lugar-comum… ai meu Deus, não ficou claro isso não, lá em cima, tipo, “Vozes Dissonantes”, tsc, tsc…

    Agradecendo ao conselho: Rodrigo, eu só fiz jornalismo pra poder chamar o Diogo Mainardi de colega”

  4. Rodrigo says:

    Falou, colega!

  5. boa resenha, astier. n vi esse espetáculo, mas assisti outro de Stoklos e gostei. talvez, nesse teu texto, eu diminuiria o tom corrosivo, mas acho q essa é uma característica da bacante, n é?

    abs!

  6. cauê says:

    tu é um esquizofrênico filhinho de papai que acha que encher o cu de cerveja e chorar ouvindo gente humilde tá na moda. Pau no cu de ti.

  7. Ttiago says:

    Péssimo texto. sem nenhum compromisso… molecagem mesmo.

  8. Daniel says:

    Sei que a crítica já é antiga (e a peça muito mais), mas insisti em comentar. Achei a crítica super ácida. Enquanto estava lendo, parecia que estava chupando limão. Eu assisti a peça esses dias e gostei.

    Eu não costumo ir a teatro, até porque não tive contato com isso durante toda a minha vida a não ser agora. Depois de ler a sua crítica, percebi o quanto esse tipo de arte está distante do povão, do qual faço parte.
    Você me pareceu tão superior a Denise Stoklos (que, pra minha esposa, é ma-ra-vi-lho-sa) que eu me senti muito distante de onde você está.
    Será que há uma maneira de aproximar essa refinada arte ao povão, que não conhece nem mesmo os lugares-comuns que você citou? Ou o teatro é só para a elite?

  9. astier basílio says:

    Oi Daniel, tudo bem?
    Primeiramente, grato por vc ter vindo aqui, ter escrito, colocado sua opinião, partilhado conosco…

    Vamos lá.
    Você diz que assistiu e que gostou.
    Q bom.
    Fernando Pessoa tem um poema que diz:
    “sou rei absoluto na minha simpatia”.
    Então, qm tem o direito de tocar
    no teu reino ou na tua simpatia?
    A crítica?
    Nunca acreditei que a função do crítico fosse moldar o gosto, traduzir, ou servir de intermediário entre o público e o espetáculo – não é a crítica que quero fazer, e, creio, não é a que fiz – emiti, como você, minha opinião.
    Não sou autoritário ao ponto de não imaginar outro ponto de vista além do meu – o texto registra o que pensei à época – e se eu vir o espetáculo terei outra, não quer dizer que vá gostar, mas isso é uma questão de foro íntimo, Daniel.

    Você fala que não tem o costume de ir ao teatro e que ao ler o que escrevi percebe que esse tipo de arte está distante do povão, do qual você faz parte…

    Sinceramente, não sei, objetivamente, o que levou vc a pensar nisso,
    não me lembro de ter feito qualquer alusão objetiva com esse propósito.

    Você diz: ‘vc me pareceu tão superior a Denise Stoklos’

    Novamente, estamos no reino da subjetividade, dá tua opinião.
    Não creio, pode procurar no texto, qlqr referência minha que dê base ao que vc falou. Se você acha que um artista está acima de qlqr opinião, qlqr texto, bom, é uma forma de ver o mundo – q não a minha – mas fazer o q?
    Cada um olha o mundo com os olhos q tem.

    Sua esposa achou ‘ma-ra-vi-lho-sa’ a Denise?
    Q bom. Qm há de tocar ou de mexer nisso?
    Qm é q vai arrancar a coroa da simpatia dela? Eu? Não, não tenho nem a vontade nem o direito de fazer isso.

    Novamente, não consigo racionar em termos objetivos – vc optou por situar sua argumentação na subjetividade, q é meio um faroeste, uma terra sem lei -
    não sei te responder sobre as questões que vc suscita entre arte, povão,
    qm sabe se vc formular melhor a pergunta,
    talvez trazendo, objetivamente, algo do meu texto facilitaria um debate.

    No mais, bem-vindo,
    e novamente agradeço pelo seu texto.
    Abraço

  10. Daniel says:

    Olá Astier,

    obrigado por me responder.
    foi muita gentileza sua :) .
    Acho que você respondeu todas as minhas dúvidas principais.
    Também me acendeu uma vontade de prestigiar mais teatros – com certeza virei aqui para procurar por indicações :) .

    Abraço

  11. astier basilio says:

    Daniel,
    apareça sempre.
    Abraço.


E você, o que acha?

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