Cantorias Cucarachas

Foto: não é propaganda de O Boticário, é de divulgação mesmo.
Teatro musical é mais música, mais teatro, mais dança, mais palminhas na platéia ou tudo junto? Cada vertente artística tem o mesmo peso, ou há uma predileção do público por uma delas? (Claro que pra essa pergunta as ruidosas salvas de palmas em cena aberta não contam – são hors-concours.) Quais são os limites que separam a criação musical, dramática, cênica e coreográfica? Nos programas e créditos dos espetáculos a separação é bem nítida, mas quando vemos um espetáculo em que um diretor abraça o trabalho de outros criadores para dar sua versão, o conceito de “criação” se relativiza um bocado.
Meu primeiro contato com West Side Story não foi por meio do teatro, mas da música – a culpa foi de uma amiga violoncelista que alguns anos atrás fez algumas apresentações com as canções de Leonard Bernstein (que, segundo o programa, tinha até “espírito aventureiro” como uma de suas atividades, além de compositor, professor e maestro). Apesar de já ter lido sobre o musical, visto fotografias, vídeos, depoimentos e críticas, meu contato sempre foi mais próximo com a música – depois da amiga, veio o CD gravado em 1957 com as vozes do elenco original da Broadway.
Com a ansiedade de ver finalmente essa cantoria toda materializada num palcão, fui para o Teatro Alfa assistir à produção de Jorge Takla (que assina a direção, produção, cenografia e iluminação – e já é um forte indicado ao “Prêmio Miguel Falabella de Megalomania Musical“, nova categoria que deve ser incorporada ao II Prêmio Bacante AOCA, no ano que vem). Minha expectativa era a de ver um espetáculo que, assim como a montagem de Takla para My Fair Lady, desse alguma vida pra essa cantoria em minha cabeça – apesar de não reinventar ou revolucionar o aclamado (e rentável) “broadway-way-of-life”. Enfim, eu tinha que saber como era a cara dessa tal de Maria, versão porto-riquenha da Julieta de Shakespeare.
Sim, West Side Story é uma adaptação de Bernstein, Stephen Sondheim e Arthur Laurents pros dois pombinhos bebedores de veneno de Verona. Com muito mais amargura do que o romantismo bocó de novela das seis (normalmente atribuído às montagens mais tradicionais desse Shakespeare juvenil), as relações entre Maria/Julieta e Tony/Romeu revelam que o mesmo amor que faz com que os jovens apaixonados vivam sob constante efeito de Lexotan, também os torna mais cínicos e cruéis, só para estar junto ao seu parzinho de sapato ou sua tampinha de panela. Ai, que brega!
Acontece que nesta produção tapuia, não só a ironia do libretto de Sondheim, mas boa parte do clima do espetáculo se dispersa com a ingenuidade da encenação, que tenta deixar tudo atraente e não saca que existe muito mais a ser percebido além de cores e movimentos.
O figurino, coloridinho que só, parece patrocinado por All-Star ou alguma marca de jeans – dá até vontade de sair à procura de uma calça com aquela elasticidade toda. Pra platéia, fica claro que quem usa vermelho (elenco não-loirinho) veio de Porto Rico, e quem usa tons de verdinho, amarelinho e azulzinho (elenco loirinho) é americano e torce o nariz pra turma do Ricky Martin. Mas o que, visualmente, essa cisão fashion diz além da rixa que já se percebe desde a primeira cena?
Com o cenário as coisas não são diferentes. Tem o quarto-da-barbie-de-Maria, o salão-de-costureira-da-barbie-onde-Maria-trabalha, o boteco-onde-a-turma-do-ken-e-do-Tony-bota-pra-quebrar, e não faltam os clássicos andaimes e escadas de incêndio da montagem original, tão famosos que não poderiam ter ficado de fora – ainda que seja pra aparecerem numa única cena e por pouquíssimos minutos. Vai ver que eram pra platéia não achar que foi ver a peça errada – sabe como é, a concorrência dos musicais tá se acirrando, né?
Além de correr o risco de distanciar demais a história do contexto histórico em que acontece, a tentativa de modernizar (ou recriar, reciclar, reler – ou qualquer outro eufemismo que você quiser) o visual do espetáculo faz com que tudo fique (um pouco mais) com cara de Malhação. Tudo tão maquiado, enfeitado, colorido, perfumado e brilhoso (tô falando da peça, não do público do Alfa) que quase não percebemos a decadência do bairro onde acontece a ação.
Também quase não percebemos a realidade daqueles personagens todos que enchem o palco com suas danças e piruetas: demora muito para notarmos que não estamos falando de filhinhos-de-papai com roupinhas coladinhas, coloridinhas e gozadinhas, mas de gangues de adolescentes que hoje a histeria politicamente correta definiria como “em situação de risco”. Essa falha na percepção da realidade dos personagens tem menos a ver com o trabalho do elenco e mais a ver com escolhas estruturais – sobretudo quando, fora do contexto de grupos estabelecidos e criações autorais, as relações com os atores são mais contratuais/empregatícias do que de troca criativa.
Ao término da apresentação, o único elemento que me encantou, coincidência ou não, foi a tal música de Bernstein, muito bem-conduzida pela orquestra ao vivo – ignorada pela maior parte da platéia que, após o fechamento da cortina, sequer percebeu que nem tudo havia acabado. Sabe como é a fome, de pizza, quando bate, bate, né? Também estranhei o fato de, no programa ególatra, haver espaço pra fotos, currículos dos envolvidos (não todos os envolvidos, só os protagonistas e principais nomes da equipe técnica, que fique claro), descrições à la Wikipédia dos criadores originais… mas não havia a tradicional relação das canções e de seus intérpretes. Vai ver que ela foi tirada pra dar espaço pra propaganda de página dupla do Bradesco…
18 reais de valet (é sempre bom lembrar)

