Conflito da vida com a representação

O projeto X Moradias, abrigado somente nos dias 24, 25, 26 e 27 de junho pelo Sesc Consolação, foi resultado da união de artistas e coletivos artísticos de diversas áreas. Não era um passeio, não era ioga, não era uma atividade para terceira idade, não era performance, não era teatro, não era instalação de artes plásticas, não era documentário. No entanto, era um pouco de tudo isso. Bem, talvez realmente não fosse ioga, nem uma atividade muito acessível pra terceira idade, já que era preciso andar bastante (2 km), além de percorrer escadarias e ladeiras – nesse caso, tudo depende do preparo do senhorzinho e da senhorinha. Seja como for, X Moradias é uma mistura de muitas linguagens e, sobretudo, entre a arte e o real. A ideia central é caminhar pela cidade, entrando, de tempos em tempos, em casas cedidas por seus donos para a realização de performances diversas.
Além do percurso que fiz, Consolação e Bela Vista, havia outros dois – Higienópolis e Santa Cecília; República e Vila Buarque. Para todos, as mesmas regras básicas (algumas escritas, outras ditas, não exatamente com essas palavras): só são permitidas duas pessoas por vez em cada local; não ultrapassar 10 minutos em cada parada; a distância entre um ponto e outro foi planejada para ser percorrida tranqüilamente em 10 minutos (anda logo, seu lento!); e, finalmente, se der merda, liga pro produtor!
Imediatamente, me lembrei das duas versões de Audiotour Ficcional que assisti. Uma em São José do Rio Preto, outra em São Paulo. Desta vez, no entanto, o percurso não era acompanhado por uma historinha ingênua tentando ser fio condutor e nem tinha ninguém me chamando de Gregório durante todo o caminho. Os trajetos estavam escritos detalhadamente num folder, que também já continha os créditos e, assim, trazia pro “espectador” um pouco de realidade antes e depois de cada momento de representação.
E é justamente na ideia de representação que quero me focar pra falar do percurso que fiz. Foram 8 espaços visitados com performances extremamente diferentes entre si e posso afirmar que as que mais me tocaram foram as que não tentaram ser a representação de algo – uma casa, um parto imprevisto, uma separação – mas as que simplesmente eram.
Para explicar melhor, em cada casa éramos recebidos por um ou mais personagens, com quem ficaríamos pelos 10 minutos seguintes. O primeiro impacto do meu percurso, por exemplo, era encontrar a Lenise Pinheiro vestida de freira. Ao entrarmos, Lenise e sua assistente fingiam estar se depilando… engraçado, mas bem menos interessante do que simplesmente ver a Lenise, vestida de freira, tirando uma foto de você, também vestido de freira.
Fica estabelecida, então, como uma espécie de regra desse jogo, a escolha dos artistas entre a simplicidade e a tentativa de sofisticar a experiência. E, pra minha percepção, a simplicidade sempre ganha a disputa. Explico com uma comparação: ficar tentando acreditar no desespero interpretado pelos jovens do espaço na Rua Dona Antônia de Queirós não passou nem perto da intensidade de conhecer Juliana Cândida de Souza, moradora de uma casa antiga na Rua Marquês de Paranaguá. Com os jovens, era muito clara a intenção de convencer e chocar, de deixar você constrangido com a situação que eles criavam. Com Juliana, eu me sentia naturalmente constrangida quando ela abria um dos quartos da ocupação em que vive e encontrávamos um morador dormindo. Como resultado, não me senti nem um pouco preocupada com o grito da menina grávida na Dona Antônia, mas fui tão bem recebida pela Juliana que a enchi de perguntas sobre a vida dela (que é, de fato, a vida dela e não a representação de um ator sobre a vida dela).
Outra questão que quero destacar – e que talvez esteja ligada à necessidade de interpretar, talvez não – é a despolitização da maior parte das propostas. Eu acabei de andar aquelas ruas e nada do que me é proposto dentro das moradias reflete o que se vive naquelas ruas. Assim, o percurso me trazia pra um espaço-tempo presente e contextualizado do qual as historinhas interpretadas entre quatro paredes me expulsavam.
Além disso, usa-se tecnologia por exibicionismo, sem criticidade ao próprio meio, sem potencializar encontros e ações, de forma que um ovo frito se tornava muito mais potente do que uma câmera filmando ao vivo, uma projeção num sofá ou um encontro fake guiado por instruções em celulares.
Chegamos, enfim, ao ovo frito e, com ele, ao meio termo. Quando um estrangeiro me recebe vestido com roupas “típicas” e me força a entender seu idioma pelo tom de voz e expressão facial, começa um encontro diverso; interpretado, sim, mas, ao mesmo tempo, aberto ao diverso que é próprio do encontro. A dificuldade da comunicação instaura a liberdade do riso. Rabiscar a parede com as próprias lembranças instaura a liberdade do ser agora – ainda que constituído por estas lembranças. Abandonar a carteira de identidade na entrada instaura a liberdade de ser somente em relação ao outro. E, então, pode-se fazer perguntas absurdas e comer pão com ovo e tomar vinho. Há códigos, marcas, há uma câmera e uma tela com imagens do dono daquele ateliê. Mas há, para além disso, a interferência do público como parte ativa e essa interferência possível, mas não obrigatória, é colocada no centro da cena.
Penso, então, que a politização e a ausência de interpretação não precisam estar evidentes ou radicalizados como no caso da Juliana que destaquei acima, mas é preciso que haja algo de que falar e que haja uma verdade a compartilhar, mesmo que restrita àqueles instantes. O contexto ao redor pode estar tematizado das mais diversas e tímidas maneiras, como, por exemplo, na celebração dos encontros que independem de fronteiras e idiomas. Pode-se falar em uma afirmação de individualidade imposta com a impressão digital deixada em ovo, mas rompida com a quebra dele, logo a seguir, para “alimentar” o encontro. E, enfim, posso quase esquecer a carteira de identidade, símbolo do indivíduo-nação, na hora de ir embora.
3 horas no Poupa-Tempo pra tirar outra identidade

