Mapeamento eternamente em construção – Conteúdo completo

Especial   |       |    3 de novembro de 2009    |    0 comentários

Cia 4compalito – Belo Horizonte – MG
Representante: Júlio Vianna

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

A gente atualmente não tá trabalhando com financiamento. Nosso último espetáculo foi o Quixote, a gente montou com o Fundo Municipal de Cultura e ano passado a gente não captou nenhum por projeto de lei. Então, o nosso sustento vem do trabalho mesmo, de renda de apresentação, oficinas. Bilheteria é mais complicado, é mais quando viaja, vende apresentação, faz festival.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Até dois anos atrás a gente não tinha sede, trabalhava com permuta e essas coisas. Aí de dois anos pra cá a gente locou uma sede, num bairro bem bacana de Belo Horizonte, bem residencial, bem bairrinho mesmo, gostoso, então a gente entrou, a gente já é reconhecido lá pela comunidade, no início tem um estranhamento, mas depois tem um envolvimento. Mas a gente ainda não conseguiu efetivamente desenvolver uma atividade com o bairro, que é um desejo nosso. No ano passado, inclusive, a gente previu isso… Quer dizer, não exatamente. A gente desenvolveu um projeto de pesquisa vinculado a bares, universos de pessoas que freqüentam bares e alguns dos bares que a gente trabalhou foram bares do bairro Concórdia, que é onde a gente está alocado. Mas em termos de troca até hoje foi só o que a gente conseguiu fazer. Mas existe uma demanda interessante, porque muitas pessoas no entorno nos pedem oficinas, cursos e, ocasionalmente, quando a gente tá ensaiando, vez ou outra a gente chama de “meia porta aberta”, a gente brinca com isso, porque esse local que a gente alugou é uma loja grande, não é bem um galpão, é uma loja e, como a ventilação não é muito boa, só tem janela no banheiro, a gente às vezes deixa a porta semi-aberta embaixo, pra ventilar enquanto a gente ensaia e geralmente aparece alguém pra assistir. Então a gente até levanta um pouquinho a porta, eles até pedem, às vezes, a gente tá ensaiando, eles batem: “dá pra levantar um pouquinho?”. Ocasionalmente, né? Não é rotina, mas é bem interessante e a gente quer muito, inclusive a gente vem discutindo esse ano como a gente pode fazer essa troca com a comunidade, a gente já pensou em fazer um curso livre… Indiretamente a comunidade acaba nos alimentando, você começa a ter uma relação de vizinho mesmo com eles, de troca de açúcar, mesmo, de pegar a escada emprestada, de alguém falar: “ah, peguei sua correspondência”, porque a porta tava fechada e não passou, então essa relação é gostosa. E ela cria uma coisa no teatro que é bacana que às vezes, dependendo do jeito que a gente trabalha, da rotina, a gente perde um pouco o que essa relação mais familiar – não é familiar – é uma relação de cotidiano, de rotina – não na criação, que na criação a gente foge disso – mas uma relação cotidiana positiva, isso que eu falei mesmo, de trocar açúcar, de conversar com as pessoas sobre outras coisas, de trombar com o seu vizinho na padaria, de comer ao lado dele, isso é bacana. A relação com o entorno hoje é mais essa, mas gente tá com projeto nesse ano pra fazer um curso livre e a idéia é pegar especialmente moradores do bairro e da região e também no nosso próximo processo a gente abrir mais ainda. (…) Com relação aos grupos, na verdade a gente sempre participou e procurou ter uma troca com grupos, seja em formatos de redes, circuitos, movimentos, nosso grupo participou durante 3 ou 4 anos de um movimento que a gente criou em Belo Horizonte chamado Circuito Off de Teatro e a idéia realmente era uma rede de troca e discussão, reflexão artística, mas também na esfera política, na esfera das relações sociais. Mas essa rede, por exemplo, era muito local, era BH e grande BH, vez ou outra tinha alguém do interior, mas o foco realmente era BH e grande BH. E a gente também participou do Redemoinho durante 3 ou 4 anos. No Redemoinho a troca se efetivava mais, tanto em termos de sudeste, quanto de Brasil. Essas redes elas facilitaram essa questão de troca. Quando a gente viaja acaba também trocando com grupos que a gente conhece, mas ações efetivas no Sudeste, por exemplo, a gente praticamente não tem, tirando esses movimentos.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Essa é uma boa pergunta, ontem inclusive no grupo de discussão a gente conversou sobre isso. Não é uma pergunta muito fácil, é uma das questões, mesmo. Eu vou tentar agora pensar sobre isso, porque eu não tenho uma resposta, até porque existe uma questão muito pessoal e individual, cada um tem um motivador. Se a gente pensar em termos de chão, base, tem o desejo óbvio de fazer teatro, mas fazer teatro coletivamente. O diferencial pra mim é existir uma continuidade, isso já muda tudo, uma continuidade de convívio, de crescimento artístico, estético, avanço e desenvolvimento ético também, do que a gente acredita, o que a gente quer fazer, o que a gente tá fazendo, por que a gente tá fazendo isso. Quando se trabalha em grupo essa discussão ela é contínua, ela não pára, né? Mesmo que às vezes você não fale diretamente sobre isso, mas você tá falando indiretamente sobre isso o tempo todo. E essas pequenas conquistas como uma sede, um espaço seu, começar a ter um reconhecimento das pessoas do seu trabalho, começar a ter um referencial bacana, ter feedbacks, positivos, negativos, mas trocando o tempo todo com o que as pessoas pensam, porque você tá mexendo com o público. Eu acredito que isso é muito mais possível, a possibilidade de isso acontecer é muito maior com um coletivo trabalhando do que com ações isoladas, como produções, porque numa produção as pessoas acabam vinculadas a um outro desejo, mesmo que seja você que esteja puxando o carro chefe da produção, porque aí é um desejo seu e as pessoas têm que ir te seguindo. E no coletivo, não, não tem como acontecer isso, sempre a questão é do grupo. Eu acho que isso é a diferença. Eu particularmente sempre quis ter um grupo, nunca me vi trabalhando em produções isoladas, praticamente nunca trabalhei, só bem no início da minha carreira profissional, nunca me interessei por isso, sempre quis desenvolver algo coletivo.

Grupo de Teatro AE – Cruzeiro do Sul – AC
Representante: Edinilson Ney de Souza

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Na verdade, como Cruzeiro do Sul é um pouco distante da capital do Acre e chegar lá é um pouco complicado porque não tem estrada, então na região do Vale do Juá, só existe o nosso grupo de teatro. Então a gente acaba se apegando às Leis de Incentivo do Estado do Acre e a prefeitura também acaba ajudando em alguns aspectos, então fica fácil porque a gente é o único grupo da cidade e a gente tem dois teatros pra trabalhar, então a gente acaba tendo uma renda legal. E tem também verba privada porque os comerciantes da cidade também ajudam. Como a cidade só tem 90 mil habitantes, quando a gente monta um trabalho que é legal, que eles gostam, fica mais fácil conseguir apoio. Então, em Cruzeiro do Sul a gente não tem o que falar, porque é muito legal com respeito a apoios culturais.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

A gente tem uma certa dificuldade com o diálogo, apesar de ser fácil conseguir apoios e informação pra gente, ao mesmo tempo é difícil o diálogo com a região. Mas com relação ao crescimento de Cruzeiro do Sul eles têm muito que agradecer ao nosso grupo, o diálogo se torna um pouco mais fácil. Falamos de questões da cidade no trabalho, por exemplo, os grandes empresários que apóiam a gente… Cruzeiro do Sul tem uma coisa interessante, o Jorge Viana que é ex-governador do Estado, ele é tão forte na cidade que, mesmo ele não sendo mais político, qualquer pessoa pra sair candidato precisa da aprovação dele. É tanto… O pessoal acredita tanto nele que se ele disser que vai chover à tarde, o pessoal tem que acreditar. Existem essas coisas lá em Cruzeiro do Sul. Então, nas peças a gente faz homenagem, falando dessas pessoas que ajudam Cruzeiro do Sul realmente, dão “sacolão” pra todo mundo… são 90 mil pessoas, então fica fácil ajudar todo mundo.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Uma grande necessidade de Cruzeiro do Sul de ter um ato político desse tipo. Por isso que o grupo de teatro AE existe.

Coletivo Alfenim – João Pessoa – PB
Representante: Márcio Marciano

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Olha, agora a gente tá administrando a verba que a gente ganhou do edital em nível estadual, que é o Fundo de Incentivo à Cultura de João Pessoa, que proporcionou a confecção do primeiro espetáculo e com a venda desse primeiro espetáculo, participação em Festivais, com esses cachês a gente tá se mantendo. Agora, a gente conseguiu vencer um edital da Caixa e com o dinheiro desse edital, a gente rachou esse dinheiro no meio, metade a gente mantém pra manutenção do grupo e metade a gente investiu na produção pra circular com o espetáculo. Mas a forma de financiamento é: a gente inscreve projetos em vários editais e vai sempre na perspectiva daquilo que interessa pra nossa pesquisa, pro nosso projeto de formação, então se a gente não atende às exigências do edital, então a gente não entra, só entra naquele editais que não ferem a nossa perspectiva de pesquisa.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

O caso do Alfenim é bastante particular porque como eu sou de São Paulo e é o primeiro espetáculo que a gente realiza, sentindo a necessidade de dialogar com a região, eu procurei estudar a história do lugar e esse primeiro espetáculo relata um episódio da história da Paraíba que é obscuro inclusive pros próprios paraibanos. Então, a partir daí, a gente estabeleceu um diálogo bastante produtivo com a região e a gente tem circulado muito com a região Nordeste por conta do interesse que o espetáculo tá gerando. E a nossa idéia é ampliar agora esse debate pra que os temas sejam nacionais, não sejam tão episódicos da região. Agora a gente já tá com outro espetáculo, quer dizer, tá surgindo um outro espetáculo que trata da questão da repressão durante o período da ditadura militar, então já é uma coisa mais abrangente. E ainda sobre essa questão, eu acho que como existe aí um choque de olhares entre meu olhar do Sudeste com o olhar do Nordeste, tem gerado também um outro interesse, porque dessa fricção é que tá saindo um outro tipo de perspectiva pro trabalho e isso também tem chamado a atenção do espectador, porque alguns lugares por onde a gente passou, já conheciam o trabalho que eu desenvolvi aqui em São Paulo na Cia. do Latão e aí eles se surpreendem por verem os mesmo procedimentos mas de uma forma completamente diferente porque ele é realizado por artistas que são paraibanos que é uma outra forma de olhar as mesmas questões. Isso tá sendo bastante interessante pro diálogo.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Eu acho que a perspectiva de formação de um olhar comum… Até porque as perspectivas são muito díspares. A história do teatro paraibano ela é uma e como as pessoas lá da Paraíba se inserem dentro da história, é uma coisa que… a minha chegada tá servindo como um processo de auto-reconhecimento deles e isso pra mim tá sendo interessante porque eu também tô me revendo a partir do olhar deles. Eu acho que esse é o fator agregador, porque a gente está criando uma perspectiva comum a partir da nossa diferença, porque são duas experiências muito díspares. Então eu acho que o primeiro espetáculo aponta uma possibilidade de um olhar comum que deve se desenvolver agora nesse segundo espetáculo.

Grupo de Teatro Arte e Fatos da Universidade Católica de Goiás – Goiânia – GO
Representante: Danilo Alencar

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Num passado não muito longínquo, a Instituição que mantém o grupo ela também financiava a maioria dos projetos. Hoje, não deixa de financiar, porque eu sou funcionário, eu sou contratado como coordenador-diretor do grupo, mas devido a esta crise muito grande que vem se alastrando por algum tempo muito antes de ser institucionalizada como crise, nós tivemos que percorrer outros caminhos. Então, hoje nós temos uma Lei forte, funcional, com alguns paradoxos, que precisam ser discutidos e estão sendo discutidos, que é a Lei Municipal de Incentivo à Cultura, que é do município. É um modelo, essa lei foi fundada na gestão do PT, há uns oito anos, e ela se mantém viva. É por isenção de ISSQN e IPTU, os empresários deixam de pagar isso e existe uma cota pré-estabelecida pelo município, pela Secretaria Municipal de Cultura e nós fazemos a captação, é uma lei bem funcional. E também nós nos beneficiamos muito e achamos que o panorama melhorou bastante com os prêmios federais, que é o Myriam Muniz. O meu espetáculo hoje me cartaz, que é Balada de um Palhaço, do Plínio Marco, ele foi contemplado tanto com a Lei Municipal quanto com o Myriam Muniz.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

O grupo de que estou à frente é oriundo de um curso de História, eu sou historiador e o grupo chama Arte e Fatos, como eu disse anteriormente. Então, a gente tenta ao mesmo tempo quando vamos contemplar a dramaturgia ou a concepção de montagem não só criar uma relação com a linguagem e com o contexto fragmentado da região, mas também com a linguagem universal. Como é uma instituição que se baseia na filantropia, esse grupo mantém também oficinas, que são administradas por mim e por outros colegas em outras áreas, outras linhas artísticas que contemplam a comunidade, então o trabalho acaba respaldando não só na linguagem do produto final artístico, como também nesses exercícios de convivência cultural pros alunos da instituição, pra comunidade geral da Universidade e a comunidade também tanto da capital, como do Estado.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

A persistência e a paixão. Eu estou à frente do grupo há 21 anos e temos, através do resultado dos trabalhos, demonstrado isso, não só local, no município, como no âmbito nacional, às vezes até internacional e a seriedade do trabalho, isso acaba respaldando e a ressonância é muito grande e a comunidade local e fora da cidade tem um entendimento dessa ressonância pelo resultado, né? A seriedade. São mais de 21 anos de trabalho, mantendo sempre uma linha coesa, isso não é de absolutismo, mas de muita responsabilidade, muita seriedade no trabalho.

Grupo Bagaceira de Teatro – Fortaleza/CE
Representante: Démick Lopes

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Hoje a principal receita do Bagaceira é a receita de festivais, porque é um grupo que participa do circuito dos festivais nacionais, e editais. Ano que vem o grupo faz dez anos e pela primeira vez a gente foi contemplado com alguns editais de verba pública. BR Cultura pro ano que vem, projeto de circulação, e o Myriam Muniz, com projeto de montagem do novo espetáculo do grupo, a peça de dez anos.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Assim… Nós não temos uma proposta intencional de regionalismo. Eu sei que é diferente da pergunta, mas é só pra deixar claro. Então a gente não carrega essa bandeira, embora não tenha como fugir disso. A gente não… Nós temos sotaque inerentes de nossa cidade, inerentes de nosso Estado, mas a comunicação com a região… Assim, hoje a gente tem um circuito de trocas com alguns grupos de Estados vizinhos: a gente é muito amigo do Clowns de Shakespeare, já teve trabalho de sala juntos conduzidos por ele, a gente é amigo de um pessoal de Pernambuco, o pessoal da Cia. Cênicas, o pessoal do Angu de Sangue… Algumas pessoas também da Paraíba. Esses encontros eram feitos inicialmente através de um movimento chamado ‘A Lapada’, que é o Movimento de Teatro de Grupos do Nordeste. Tanto com a política como também com trocas estéticas… Hoje deu uma resfriadinha, mas existe esse movimento, essa troca entre os grupos da região Nordeste…

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Bom… Às vésperas de completar dez anos isso é colocado em xeque. A gente vive o tempo todo em crise, se reavaliando… Redescobrindo inclusive isso: o que é que nos une? Quais são as pontes em comum…? Tanto que o próximo espetáculo do grupo ele vem na proposta de ser um processo colaborativo, que a gente visa horizontalizar as relações entre dramaturgia, direção e atores, porque até então vinham com propostas mais fechadas… A gente tem uma característica de ser autoral, então tem um dramaturgo no grupo, que assina os textos do grupo, que é o Rafael Martins e o Yuri Yamamoto normalmente assina as direções do grupo. Nessa nova montagem devido a alguns anseios de alguns integrantes do grupo, talvez por não serem contemplados em nenhuma outra montagem, optou-se por fazer um processo colaborativo. Então a gente vai descobrir inclusive essa forma de contemplar, então a gente fez… E como é que se deu esse trabalho pra descobrir que todo mundo queria fazer um processo colaborativo? O grupo fez um trabalho de entrevistas com cada integrante, o que gerou 15 horas de conversar, conduzidas pelo Rafael. O Rafael foi escolhido por todo mundo pra fazer essa condução porque ele… pra ele dar um desenho a essas… E ele seguiu um roteiro de perguntas, tipo um questionário: como se sente no grupo? Que se espera do grupo? Qual seu anseio teatral hoje no momento? Que você busca com o teatro? Tinha coisas bem existenciais… Da profissão e da gente nesse grupo. Então quais são os anseios de cada um fazendo teatro e fazendo teatro de grupo no Bagaceira. Esse é o ponto de partida. A função do Rafael foi juntar os pontos em comum na maioria das falas e dizer: “olha, a gente vê que todo mundo quer falar sobre tal tema; tal tema é muito recorrente”. E tem algumas coisas comuns em todo o grupo, com temáticas como solidão, com angústias do ser humano mesmo, isso é sempre comum. Mas teve pontos que não houve; teve gente que assim: “eu queria falar uma coisa mais verborrágica agora, no próximo trabalho” e aí como é que a gente vai contemplar o interesse dessa pessoa? E ai teve gente que fala “olha, to louco pra fazer teatro de rua, queria muito que o grupo fizesse um projeto de rua” Então é uma forma de democratizar as falas… Às vezes tem uma ideia e briga por ela e só a gente é contemplado, mas quando você escuta todo mundo dá uma certa abertura. É o início pra tentar contemplar o máximo de pessoas possíveis. Claro que nunca vai contemplar tudo nem todo mundo num só projeto, quem faz teatro de grupo sabe que isso é ilusão. Em dado momento certa ideia é contemplado, em segundo momento outra… Mas existe uma abertura muito grande, não tem nada imposto. O Yuri que tem essa característica, que assina a maioria das direções do grupo até hoje, mas nada imposto: “olha vai ser esse texto e a direção é minha” Não, não… Isso tudo é muito discutido. Então muda ao longo do processo, muda varias vezes até achar o que todo mundo quer mesmo. Tem sido assim até agora.

Baião de Dois – Manaus – AM
Representante: Selma Bustamante

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

A nossa relação com o financiamento é diferente no sentido negativo. Porque nós não temos a Lei Municipal nem a Lei Estadual de fomento. Então existem alguns projetos, alguns programas que você pode colocar dentro da prefeitura do município, mas é uma coisa que não é nada certa e que não depende de você. Depende da curadoria e da verba que é designada, que é colocada. E também lá a maioria dos projetos são em relação a montagem, não existem projetos de circulação. E a circulação lá é muito cara, muito mais cara do que em outros estados. A distância é muito grande, não tem estrada ou é por rio. E se você fica muito distante do rio você tem que viajar de avião. É mais cara a circulação. Então, eu tenho me firmado bastante nos projetos da Funarte, que a gente dá sorte. Não conheço ninguém lá, não! Conseguimos ganhar quatro projetos de circulação, dois projetos do Myriam Muniz e agora ganhamos o terceiro projeto, que eles juntaram os dois e distribuíram em um projeto… O Myriam Muniz dá também circulação. Então nesse sentido da circulação pela região Norte o meu grupo circulou bastante e eu diria que foi totalmente financiado pela Funarte. E os projetos de montagem, além dos projetos da Funarte, com os projetos estaduais. Nossa grande briga é pela Lei. Porque nós não temos possibilidade nenhuma da Rouanet, não só porque a Rouanet é difícil pra grupos não conhecidos, mas porque lá nós estamos dentro de uma Zona Franca, onde não existe imposto e então não tem do que descontar. Então realmente pra gente dificulta e seria muito interessante a Lei Municipal e Estadual. As montagens do meu grupo são montagens pequenas então até a padaria da esquina, que me conhece, se pudessem financiar com parte do imposto deles seria suficiente para mim. É muito complicado, porque lá, inclusive, a gente não tem nem a possibilidade de cobrar bilheteria porque o Secretário ele compra os espetáculos e fornece de graça para a população. Então a população nem paga ingressos se a peça for de lá, só paga se a peça for de fora… Ela tá acostumada a ver peças de lá sempre gratuitas. Então eu vejo como muito difícil [o financiamento] de outra forma a não com a questão do edital, porque a gente não tem muito pra onde… A não ser o edital.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Eu acredito que meu grupo – só tem eu que sou de fora o resto todo é de Manaus – então eu acredito que o trabalho que a gente faz é o trabalho de Manaus. Agora, eu fiz Molière. Eu fiz Molière porque ele é a própria Manaus, entendeu? As Preciosas Ridículas… Tem uma briga que ele coloca, sobre a Trupe dele em Versalhes, eu até falei “olha avisa depois que a gente tá usando Molière!”… Porque é muito parecido. Na verdade, a realidade não mudou. A realidade humana não mudou. Mudou a realidade técnica, mas o homem é muito igual. Então, nesse sentido eu acho que você reflete uma sociedade se você sabe onde você tá, conhece onde você tá e trabalha, apresenta onde você tá. Então a gente já fez trabalhos regionais, mas não trabalha só com trabalhos regionais. A gente fez o Auto do Boi, porque o Boi lá de Parintins ele ganhou toda essa repercussão, mas ele perdeu uma parte essencial que é a parte dramática. Eles fazem a festa, mas não fazem essa parte dramática. Então a gente refez isso daí é interessante porque as crianças não conhecem, os adultos se lembram… Então a gente trabalha também com coisas regionais, mas a gente faz uma linha mais do que a gente quer pensando sempre no que a gente tem, pra haver uma troca interessante. Eu acho que se você fizer um teatro que não fala da realidade você se mata né? Você tem que falar da realidade de uma certa maneira que você vê ela com a profundidade que você pode ter e com a troca que você pode ter com o seu publico. Eu faço um Beckett lá – que aliás fiz antes que ele viu? Do Sérgio Britto – é um Beckett, mas é um Beckett musgo é um Beckett com clown. Eu faço os dois atos do Ato Sem Palavras e ele fala do não-sentido da vida… E aí? Eu acho que é uma coisa que tá inerente ao homem. Eu, pessoalmente acho, pra todo mundo… Eu acho que o Beckett é maravilhoso, mas eu acho que o [teatro do] absurdo europeu é um absurdo do pós-guerra, a gente vive uma outra batalha, a gente vive numa rua com gente dormindo, que não sei o quê… Que é um absurdo também, só que eu acho que com muito menos você pode dizer a mesma coisa. Então, por exemplo, eu preferi o Beckett sem palavras, o ato I e o ato II sem Palavras porque eu acho que diz a mesma coisa em menos tempo e o público entende. Até criança entende. Eu acho que a própria criança tem a leitura dela dessa impossibilidade. Eu brinco que a importância que o grupo tem em Manaus é porque ele se mantém enquanto grupo mesmo, quer dizer, às vezes mudam algumas pessoas, mas ele tem uma característica de grupo, não é Companhia. A gente tenta resolver as coisas juntos, embora a gente não consiga… Acaba muita coisa com eu colocando, mas a gente vota, a gente se coloca, a gente tenta fazer uma coisa de grupo… Eu acho isso importante pra cidade. Porque a maioria da cidade trabalha muito com Cia. O cara é o dono e os outros fazem… Então é importante essa ideia do grupo. Eu acho que o grupo tem um papel de formação também, importante que as pessoas… Como a cidade não tem uma faculdade, não tem uma formação… O grupo tem esse papel de formação com aquelas pessoas que estão lá…

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Eu acho que, sem falsa modéstia, eu acho que o que agrega o grupo sou eu, de uma certa forma. Porque sou uma pessoa que sou professora lá, que tive uma influência… Que nem você perguntar assim: por que as pessoas então no Ventoforte? Elas podem ter mil motivos, mas quem agrega o Ventoforte é o Ilo Krughi, não querendo me comparar com ele… Eu trabalhei com ele, mas… Eu digo assim, o que agrega o Oficina é o Zé Celso. Então independente de as pessoas procurarem uma ideologia que existe em comum no grupo… Nem todas elas percebem, dentro do meu grupo tem alguns que percebem a diferença que esse grupo tem de outros, e tem algumas pessoas que tão lá, mas elas não percebem naturalmente a diferença e aí eu não acho que é impositiva, eu acho que é uma coisa que você tem uma formação dentro do grupo pra que as pessoas percebam a diferença do grupo e queiram também segurar e se saírem pra outros lugares levarem isso na mente.

Grupo Beira de Teatro e Coletivo Atores a Deriva – Natal – RN
Representante: Henrique Fontes

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Natal, historicamente, é uma cidade que não tem política pública voltada pra teatro, nem pra cultura de forma geral. Há muita política de eventos, que não é novidade, mas a gente vem batalhando, se organizando com outros grupos pra buscar editais e uma nova forma de fomento. Esse ano surgiram dois editais, um pra teatro de rua e outro pra todo tipo de linguagem, mas que ainda não saíram efetivamente, são verbas muito pequenas, mas, enfim, já é uma pequena conquista. A gente, na verdade, monta os espetáculos no risco, sem financiamento, a gente faz a temporada no risco, com pequenos apoios da iniciativa privada, e aí tenta ir circulando na marra, é tudo na marra mesmo. Bilheteria, venda e entrada em Festivais. Acho que o exemplo mais bem-sucedido talvez seja o do Atores a Deriva com o espetáculo A Mar Aberto que conseguiu chegar até Porto Alegre, Caxias do Sul, Guaramiranga, enfim, circulamos muito graças aos festivais, a gente manda o projeto, é selecionado, e aí vai circulando e é um pouco como o grupo tem sobrevivido. Nós não conseguimos viver disso, a gente dá aulas de teatro, a gente se prostitui aqui e ali – no sentido de vender trabalhos mais comerciais – mas a tentativa, pelo menos desses dois grupos, é trabalhar com a educação pela arte, mais fortemente, pra não ter que fazer outros trabalhos e também porque acho que é nossa praia, a gente gosta de trabalhar com a educação, então acho que vale a pena.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Então, a nossa grande luta é não levar o termo regionalismo à cena, até porque eu acho um reducionismo bobo, essa coisa de arte regional pra mim é bobagem mesmo. Mas temos um sotaque, temos uma forma de olhar, de sentir, que talvez em outros lugares não tenham, e temos questões também nossas mesmo, da região. Então, eu acho que sim, acho que os questionamentos surgidos ali, até porque esses dois grupos apostam em dramaturgia própria, um trabalho colaborativo em que a gente cria os textos, então inevitavelmente vão surgindo questões nossas que estão ligadas diretamente com as questões de onde a gente vive. O A Mar Aberto acho que tem esse exemplo que é a história de um pescador, na verdade é a história de um homem mais velho, no caso um pescador, que se apaixona por um menino e ele vive esse drama dessa atração. E se passa numa região de pescaria, só que na verdade está tratando um tema muito maior que a relação homem-homem e que a relação de pescadores, a tentativa é extrapolar esses dois universos, a gente têm tentando isso. E eu acho que a gente é profundamente contagiado com tudo, eu digo que Natal é uma cidade excelente pro teatro, não tendo fomento, não quero que isso continue pra sempre, mas o que eu quero dizer com isso é que pra mim é um grande desafio e esse desafio move a gente, porque quanto mais difícil parece que a gente consegue trabalhar com mais afinco numa questão que pra gente é cada vez mais cara, cada vez mais verdadeira, mais profunda mesmo.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Eu acho que no Beira de Teatro, inicialmente, era a vontade dessas pessoas de estarem juntas, por uma diversidade de pensamento, somos de áreas bem diferentes, temos músicos, cientistas sociais, atores e diretores de formação, mas essa diversidade e o duelo desses pensamentos é que acho que constituiu o grupo e que trouxe uma força também pra cena. O Atores a Deriva foi uma confluência de pessoas que se gostavam muito e se encontraram ao longo de vários processos criativos e a gente via que também era uma diversidade interessante, mas com um ponto comum, então quando eu propus o texto, que o nascimento do coletivo foi através desse texto que a gente queria montar, acho que foi um momento muito feliz, da gente encontrar essa diversidade de linguagens até, mas com um objetivo comum muito certo que era explorar nossos limites e transpor essas linguagens, não se prender nem ao dramático, nem ao lírico, nem ao épico, nem ao que quer que seja, mas misturar isso tudo e transpor, acho que o desafio foi bem esse. E acho que o afeto… nos dois grupos eu acho fundamentais os afetos, o que nos afeta e como nós afetamos uns aos outros. E isso passa por várias crises, vários movimentos internos. Mas isso tudo eu acho que é muito agregador, mesmo as crises, mesmo as desavenças e as diferenças.

Boa Companhia – Barão Geraldo – Campinas – SP
Representante: Eduardo Osório

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Bem, na verdade, todo mundo tem um trabalho paralelo, que geralmente tá ligado a dar aulas de teatro. O grupo vem funcionando com venda de espetáculos e agora, com essa avalanche de editais, a gente conseguiu alguns… E aí vai tentando manter a estrutura da companhia, o que a gente chama da parte de produção: se organizar pras coisas que estiverem acontecendo e, basicamente, a produção criativa é a gente que se banca pra estar lá trabalhando, improvisando pra criação dos espetáculos. Ganhamos o Myriam Muniz que é o que a gente está fazendo agora pro novo espetáculo, Caixa Econômica Federal, que a gente viajou agora pra Curitiba e pro Rio, aí tem as vendas de espetáculos, que geralmente o SESC é um dos prováveis compradores e Festival também, né? – agora, como a gente ficou um tempo sem produzir peças novas, faz uns dois anos que a gente não vai pra Festival. Mas é basicamente isso, né? Aquilo da bilheteria, na verdade, é uma briga de foice, porque tem os dois lados da coisa, que um é… Porque é muito difícil de qualquer forma viver de bilheteria, tem gente, por exemplo, que cobra 50 reais e fala que não paga as contas. Mas independente disso a gente não quer fazer um teatro de 50 reais, a gente tenta cobrar o menor preço para conseguir o maior número de público, que na verdade trata-se mais disso, já que nem quem cobra 50 reais não consegue, é melhor a gente se preocupar com outras coisas e não isso.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Quando a gente fala de arte… Essa pergunta é meio complexa… Porque, por exemplo, a gente não tem uma preocupação de falar na nossa obra sobre problemas, temáticas que são regionais, mas ao mesmo tempo, a arte trata de temas universais, mesmo que você não queira e mesmo que você esteja fazendo uma coisa mais regionalista, você vai tocar no universal, então, na verdade, esse é um limite muito difícil de clarear, de dizer com exatidão e a gente acaba sendo movido – o que a gente quer falar o que a gente quer fazer – pelas agonias, pelos desejos dos próprios participantes, por exemplo, tem um espetáculo nosso que a gente fez uma oficina com a Luciana Castelo Branco, em que eu levei um conto o Kafka pra fazer uma pequena improvisação e depois não trabalhamos mais com a Luciana, não usamos o método que trabalhamos com ela, pelo menos diretamente, e fizemos um espetáculo que foi nosso carro chefe e que é um texto de Kafka. E que, ao mesmo tempo, onde a gente vai todo mundo se identifica, todo mundo se vê de alguma forma no espetáculo, porque o conto do Kafka é genial por essa universalidade dele porque fala da situação do homem na sociedade moderna. Eu falei tanto que até me perdi… Uma era se a região está presente outra é se a gente está ativo, né? Aí também é outra questão que é uma dicotomia complicada que é um artista criando uma obra que você apresenta onde você está, você tá interferindo politicamente, você já é uma intervenção. E isso também tá ligado muito à viabilidade da produção, né? Por exemplo, em Campinas, a gente tem uma política cultural que foi sempre muito aquém da cidade, que é uma cidade grande, de um milhão de habitantes, e muito rica, mas que culturalmente, apesar de ter muitos atores, inclusive, o distrito de Barão Geraldo nos últimos 20 anos, começou com o Lume, depois a gente, o Barracão Teatro, … tem vários grupos – tô fugindo de novo do assunto – … mesmo assim a gente tem dificuldade de viabilizar as apresentações lá, não tem apoio. O nosso espaço é um espaço que cabe apertado, com pessoas no chão, 45 pessoas. Então é difícil, a partir do nosso espaço, realmente integrar a comunidade ao que a gente faz ali diretamente. Então a gente fica um pouco a mercê disso e aí, por exemplo, quando a gente tem oportunidade, a gente tenta se apresentar em outros espaços, então ou na prefeitura ou em Barão Geraldo, como uma toca mesmo, os grupos acabam se ajudando e a gente vai tentando participar da vida desses outros lugares. Sobre isso, na verdade, acho que é isso.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Com certeza tem mais de um fator, não sei eu vou conseguir falar nenhum deles direito. Na verdade, isso tá dentro do nosso encontro aqui do Próximo Ato que é: o que faz a gente estar junto? E, no início, é a coisa do encontro, daquele grupo, no caso da Boa Companhia os “bons companheiros” e a vontade de estar criando alguma coisa e com o tempo isso vai se depurando e vai virando algo a se dizer mais objetivamente. Logo depois, tem uma frase que é do Moacir, um dos integrantes da Boa Companhia, Moacir Ferraz, ele fala que ele começou a fazer teatro pra mudar o mundo e hoje ele faz teatro pro mundo não mudar ele. Então tem um pouco essa qualidade interessante que é essa pequena conspiração que a gente faz, se junta num lugar, organiza um… né… uma… conspiração, baseada em algum texto, algum conceito, alguma imagem ou o que quer que seja e começa a organizar ela pra um dia sair lá fora e atacar, surpreender as pessoas. Eu acho que isso é um fator que une um pouco, porque a partir de um momento você se vê com a necessidade de estar fazendo isso, sabe, de você estar organizando um discurso em cima de alguma linguagem pra falar alguma coisa que você acha importante. E isso é uma resistência, né, em relação ao mundo lá fora, porque a gente acaba, dentro desse grupo tem uma organização que é particular, depende das pessoas que estão lá e dessas individualidades. E tratando-se de arte tem uma hierarquia que não é respeitada, tem uma anarquia necessária pra criação, que a gente não encontra nas outras organizações… grupais, vamos dizer assim. E isso tudo caracteriza uma resistência ao mundo lá fora, sem o qual a gente não estaria fazendo nada, então tem essa força, essa dualidade que é importante. E que eu acho que começa… Porque, por exemplo, a gente tá há 17 anos juntos, hoje em dia a gente já se olha, às vezes em algumas reuniões, percebe-se no olhar da gente, pelo menos eu consigo perceber, isso de “o que é que a gente tá fazendo junto ainda?”, que é muito tempo, a gente já fez muita coisa, já disse muita coisa, e eu acho que uma das coisas que mantém a gente junto é isso, é essa necessidade de encontrar dentro da Boa Companhia a possibilidade de estar se organizando pra fazer essa pequena conspiração, pra manter esse foco de resistência contra as coisas que a gente não acredita, enfim, contra tudo o que a gente acha que tá errado no mundo. (…) A gente sofre até um pouco com isso porque… A gente inclusive tem grupos irmão nesse sentido que é: “como definir a Boa Companhia?”, porque a gente fez um espetáculo muito famoso que foi considerado teatro físico, só que depois disso a gente não fez nenhum outro teatro físico, a gente fez outras coisas, inclusive a gente trabalhou muito com textos do Kafka, mas não seguiu isso… Então a gente já não era mais teatro físico; e a gente já chegou a misturar diretamente dança com teatro, mas a gente não faz teatro-dança, porque se você pega as outras coisas que a gente fez não é teatro-dança; a gente já pegou textos clássico e já montou como o autor escreveu, que foi o caso do Esperando Godot, mas é o único caso nosso, a gente não fez mais outro texto assim. Então, na verdade, é difícil dar linha, ou talvez seja justamente isso que nos identifique, essa pluralidade de buscas diferentes. Como é que eu vou falar isso? Tô pensando no novo espetáculo que a gente tá fazendo… Isso de tentar traduzir, corporalmente, pensando em tempo e espaço, mesmo, o palco, esse espaço simbólico em que você brinca com tempo e espaço, e aí você pega idéias, conceitos… a gente tá fazendo agora um trabalho em cima das primeiras cartas que os jesuítas mandaram quando chegaram ao Brasil pra Portugal, então a gente tá num embate de visões de paraíso diferentes e a possibilidade do paraíso na Terra… Como é que a gente traduz isso cenicamente? Então esse jogo de você musicar o espaço simbólico do teatro, né? O tempo-espaço, essa coisa de você com o corpo desenhar o espaço e com o ritmo propor um tempo pra esse movimento… Como é que se traduz isso do conceito, da idéia, da literatura pro corpo e pro palco? Acho que isso é um pouco o que a gente tenta fazer, mas de novo… Tá todo mundo fazendo isso de certa forma aqui, né? É difícil, eu realmente não tenho uma… Tem uma dificuldade que eu acho que se fala pouco até mesmo aqui no Próximo Ato que eu acho que é: “como a gente se torna um produto se nada nos define?”, isso é um problema pro artista. Então, às vezes, um grupo que trabalha Grotowski, ou sei lá, quem quer que seja, isso não quer dizer, inclusive, que o cara é carola, no sentido de que ele só faz o que o cara mandou, às vezes, o cara subverte tudo, radicaliza naquilo pra subverter aquilo, geralmente são os melhores casos… Aí, às vezes ele consegue uma entrada, um nicho, onde ele vai se encontrar e conseguir encontrar seu espaço ao sol… Mas isso, cada vez mais, inclusive, porque com a comunicação, a informação muito rápida, a gente tem acesso a cursos e a gente que já estudou os grandes nomes do teatro, então a gente já tá querendo ir lá na frente, né?, então é difícil a gente… Como que a gente vai se nomear? Como a gente vai dar cara, vai dizer o que nós somos? Se um cara chegar e falar assim: vocês fazem o quê? Só artista? Só teatro? Não… tem que ter alguma coisa, mas o quê? Isso é muito geral… tem que ser uma coisa mais objetiva, o que que é? Não tem. Porque é um monte de coisas, são forças que se cruzam e que às vezes não dá certo, porque a arte tem esse problema também, dá errado! E ela tem que dar errado! E às vezes é justamente quando dá errado que dá certo! Então, toda essa coisa de como se produzir, como se financiar, e um problema aqui do Próximo Ato: como a gente se identifica como um grupo só, todos os grupos unidos formamos uma massa pra reivindicar alguma coisa se nós somos tão diferentes? E tão diferentes dentro de cada grupo, entre nós atores… Então, eu acredito que a grande força do Próximo Ato é o movimento em si… vai ter um papel que é importante, que tem as indicações, mas o importante é o movimento, é saber que ao contrário do que alguém falou que foi falar com um político e o cara falou: “seu teatro nem tem público e você vem reivindicar coisa pra mim?”, falar, não, espera um pouquinho, não sei quantas pessoas vão vir, podem vir só cinco por sessão, não interessa, mas o que é o movimento é diferente, não só meu grupo, não só essas pessoas, mas as pessoas que trabalham com outros grupos, que movimentam outras pessoas, esse movimento é real e é o importante e não exatamente o que define ele, porque quando você começa a definir a arte geralmente é quando vêm todos os “ismos”, surrealismo, dadaísmo, quando definiram o que era, começou o fim do movimento. Fui longe agora, mas em todo caso: eu não sei o que nos define.

Grupo Carmin de Teatro – Natal – RN
Representante: Giovanna Araújo

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

O Carmin não tem financiamento, a gente não é financiado por nenhuma instituição, a gente depende realmente de editais como a grande maioria dos grupos, que é como é a nossa realidade. Então, a gente participa de editais, faz projetos, de acordo com a nossa necessidade, de acordo com o que a gente tá vivendo e a gente tá precisando e, enfim, alguns a gente consegue e outros, muitos outros, não, e a gente fica realmente dependente dessa verba pra poder realizar algumas coisas. O trabalho não pára enquanto não há, mas a gente fica… o foco é que a gente consiga sempre, pra que esse trabalho possa se realizar, a gente fica dependendo disso. Nós também não temos sede, isso também é uma coisa importante, a gente não tem um lugar próprio, então a gente vai ocupando lugares possíveis, tem o Centro Experimental, tem a sede dos Facetas, tem sede de outros grupos, como dos Clows, que a gente vai se utilizando de acordo com a necessidade e dos espaços disponíveis e acaba sendo mais uma dependência que a gente tem, também de espaço.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Na verdade essa não é uma preocupação, não é um foco, que a região esteja enraizada ou que a gente esteja se utilizando disso, eu acho que a forma como a gente faz isso é uma forma muito natural, porque é a nossa formação, nosso gestual, nossa forma de se mexer, de falar, de pensar, eu acho que isso traz muito da nossa região porque nós três somos de lá, então isso é muito verdadeiro na gente, eu acho isso acaba se revelando independente da obra que a gente tá construindo, a gente traz isso naturalmente, né? Mas não há uma preocupação em direcionar os trabalhos da gente pra serem necessariamente regional ou não. Nós temos um trabalho que se chama Pobres de Marré, que fala da pobreza, então coincidentemente, esse universo nordestino ele tá muito aparente no trabalho por ter sido construído, ter sido feita a pesquisa lá mesmo, então muitas vezes quando alguém vê esse trabalho, pode até pensar que essa é uma vertente, alguma preocupação do grupo, mas não. Nosso trabalho que a gente tá agora em montagem é um infantil, que também vai no sentido de que o motivo do nosso encontro é poder falar sobre questões que inquietam a gente, que mexem, que movem a gente. E, apesar de ser um trabalho infantil, é um trabalho infantil que questiona muito a arte do ator, então é um trabalho infantil que fragiliza o ator no palco, então é onde as coisas estão acontecendo e não estão dando certo, então esse ator se revela, ora ele é personagem, ora ele se revela ator e se enfraquece, isso é uma coisa que é legal e que não tem nada a ver com o primeiro trabalho, assim, esteticamente, no sentido de que um trata de pobreza, de diferenças sociais e o outro tá tratando de uma crítica da própria arte.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Eu acho que o grupo mesmo, a gente se junta, acho que o maior motivo é mesmo essa necessidade de que a gente possa discutir e que a gente possa realizar, trazer pro trabalho as nossas inquietações, mesmo, acho que essa união, a formação desse grupo se segura e se sustenta muito nessa condição da gente poder estar trabalhando com as nossas inquietações. A gente também está experimentando nesse trabalho de montagem do infantil, um trabalho colaborativo entre a gente mesmo, de a gente criar junto e talvez até fazer uma direção colaborativa onde a gente proponha, mas que outras pessoas venham também ajudar, colaborar dessa forma. Mas o principal é que a gente possa estar trabalhando com as nossas próprias inquietações e dizendo tudo o que a gente quer falar ou questionar.

Companhia Carona – Blumenau – SC
Representante: Pepe Sedrez

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

O grupo não vive da bilheteria como a maioria dos grupos, acho que quase todos. Nós fazemos teatro de pesquisa então os nossos espetáculos têm cada vez menos espectadores por culpa nossa mesmo. Porque a gente procura limitar, não sei de onde vem essa minha idéia de achar que teatro pra menos gente é mais interessante, eu acho… Eu me acho ridículo mesmo por isso… É uma questão. Mas o financiamento vem… Nós temos uma sede em Blumenau no Teatro Carlos Gomes, um teatro privado, mas que abriga nossa sede e lá nós temos há 5 anos uma escola de teatro, que acaba dando algum retorno, alguma verba para os atores da companhia que são professores na escola. Além disso, apresentações contratadas e editais, como Myriam Muniz, como o edital recente Artes Cênica na Rua, da Funarte, e temos projeto aprovado já pela terceira vez na Lei Rouanet, vamos ver se dessa vez a gente consegue captar porque nas outras duas não captamos. A Lei Rouanet ainda traz aquela alegria de ter o projeto aprovado, mas nos não chegamos ao momento maior da captação pra poder realizar o projeto. Temos Lei Estadual de Santa Catarina também, ela é muito complicada, uma Lei em que o governo do Estado arrecada primeiro o dinheiro de imposto que a empresa paga para depois repassar ao proponente do projeto aprovado e há casos, não é o nosso caso, de grupos lá em Santa Catarina que esperam há um ano o repasse, o dinheiro entrou na conta do Estado há um ano e não foi repassado ainda para os legítimos donos. O grupo faz o projeto, é aprovado na Lei Estadual, capta depositando na conta do governo e depois deve voltar, deveria pelo menos voltar, e ainda fica 20% para o governo para um Fundo Estadual de Cultura. É uma Lei que incide sobre o imposto estadual, o ICMS, então parece que a gente virou cobrador de impostos do governo, eu já falei: “olha, isso vai dar vínculo empregatício, eu quero receber alguma coisa, hein? Isso dá CLT”. E aí temos uma Lei Municipal também, mas ela tem recursos muito poucos, a verba é muito baixa, embora acabe sendo uma alternativa para grupos produzirem pequenos projetos como edição de algum livro, uma exposição, workshop mesmo… Então ela tem acontecido assim. São as formas que nós temos de financiamento.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Há na verdade esses dois níveis de relação, sim. Embora eu não faça exatamente um espetáculo falando dos costumes e maneirismos da minha cidade ou região, mas de qualquer forma as questões que nós levantamos e abordamos acabam sendo muito pertinentes à nossa cidade, pelo menos esse é o retorno que o público nos dá. O nosso espetáculo mais recente chama-se Volúpia, que trata de sexualidade e de tabus, nós ficamos receosos de estrear na nossa cidade, que é uma cidade de colonização germânica e muito hipócrita, uma sociedade muito fechada com relação a sexo, muita coisa ainda é tabu, e pelo contrário, nós temos briga por ingresso. Talvez a gente tenha acertado e esse tiro saiu pela culatra, porque esse povo reprimido tá querendo ver essas coisas que nós estamos discutindo e é um fato, os espetáculos da nossa companhia, que vai completar 15 anos semana que vem, a gente já tem um público que quer assistir os nossos espetáculos. Fora isso, a nossa mostra dos alunos nós fazemos na escola, temos uma mostra semestral dos trabalhos produzidos durante o semestre letivo. A nossa última foi a cena contemporânea com o olhar sobre a cidade, então as pesquisas e trabalhos dos alunos foram justamente por aí, foi ver a nossa cidade com outros olhos e geraram oito pequenos espetáculos que falavam dessas questões – desde crianças, adolescentes e adultos, nós separamos assim, eram oito turmas que fizeram e uma turma de clown, e eles trabalharam sobre esse mesmo tema com a liberdade de criação de cada turma, claro. Nossa relação e nosso vínculo político são muito fortes também, nós estamos muito presentes, eu sou diretor e criador do grupo e já fui por algumas vezes conselheiro de cultura da cidade, já fui presidente da Federação Catarinense de Teatro, atualmente sou vice-presidente dessa Federação. Nós nos organizamos agora em Blumenau, há cinco anos nós realizamos uma temporada blumenauense de teatro que é um evento muito simples, nós nos reunimos e antes de criar uma Associação que já tivemos e já se desfez há muitos anos, quando nós nos sentamos com o poder público local pra discutir o que queríamos, nós pensamos: “nós queremos apresentar os nossos espetáculos, é a primeira coisa, nós queremos trabalhar juntos. Nós queremos organizar, não vocês, vocês apóiam dando o espaço, e a organização é toda nossa, toda independente, cobramos bilheteria e…”. Então, todo mês em Blumenau tem uma semana de teatro de um mesmo espetáculo de grupos da cidade. Com isso, começaram a surgir mais grupos, nós temos um curso na universidade também que começou a gerar mais grupos, tem grupos que saíram da nossa escola, e hoje nós temos 15 grupos de teatro em Blumenau, já é uma realidade um pouquinho melhor, claro que as coisas não são fáceis, é muita luta e apresentar muito pra ganhar uma bilheteria muito baixa ainda, como eu disse não dá pra viver de bilheteria, mas dá pra ter público, nossa média nesse semestre que encerra agora é de 53 espectadores por seção e a gente considera esse número bem bom, bem significativo pra cinco noites de teatro no mês. A gente tem percebido que outros grupos, inclusive a Cia. Carona, têm feito espetáculos em pequenas temporadas também e têm tido público em função dessa divulgação que a própria temporada traz. Nós estivemos presentes na Conferência Municipal de Cultura, vamos pra Conferência Estadual, elegemos novos conselheiros de cultura vindos do núcleo de teatro. O núcleo de teatro em Blumenau hoje é o segmento mais organizado da cultura, isso é reconhecido pelos outros segmentos, então parece que a gente tá começando a entender melhor quem nós somos e isso vem dessa idéia de trabalhar juntos na temporada blumenauense, um trabalho de muita doação, mas a gente se reconhece primeiro trabalhando juntos e agora então fundamos a nossa associação blumenauense de teatro, agora a gente já trabalha juntos, a gente já sabe como é que é cada um, cada um passou a respeitar mais o trabalho do outro, porque havia muita desavença, que é comum em cidades do interior, não só do interior, em cidades maiores também, mas começar a entender e respeitar melhor o trabalho de cada um, isso fez muita diferença.

Este grupo não respondeu à terceira pergunta porque a entrevista foi interrompida.

Cênicas Cia. de Repertório – Recife – PE
Representante: Antonio Rodrigues da Silva Filho

Conteúdo editado pelo grupo, por email

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

A gente participa de editais públicos de fomentação. Porém, mesmo quando não há um apoio governamental nós damos continuidade aos trabalhos e a pesquisa e obtemos retornos da bilheteria, festivais e para algumas empresas. Os editais são: a Lei de Fomento Municipal, o Funcultura, que é um fundo de cultura do Estado de Pernambuco e o Prêmio Myriam Muniz de teatro. A verba dos editais e da renda do grupo ainda não garante sustentabilidade aos atores, hpá um investimento maior na produção e aperfeiçoamento técnico e teórico. Hoje, não se tem condições de sobrevivencia exclusiva de nosso trabalho em grupo, cerca 80% dos integrantes têm atividades paralelas ou em outras áreas para garantir a sobrevivência, mas a nossa vontade é estabelecer a nossa sede e a partir daí fortelecer ainda mais nossas atividades artísticas e formativas. Nó início de 2009 o Cênicas estabeleceu uma sede durante seis meses, mas por questões internas não foi dada continuidade. Há uma porcentagem muito pequena de grupos nordestinos que se auto-sustentam, acho que só 3 ou 4 na região inteira. São vários coletivos, mas 100% são poucos e isso é uma coisa que tem que mudar. Porque nossa atividade tem que ser vista de outra forma: fazer cultura não é só entregar um produto e sim financiar a pesquisa pra que o resultado artístico possa acontecer.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

O nosso grupo ele tem uma linguagem mais urbana e nem por isso ele deixa de ser Nordeste, porque é como eu sempre digo: Grandes cidades existem em qualquer lugar seja Recife, São Paulo, Nova Iorque, e os anseios das pessoas que vivem nas grandes cidades são meio comuns. As pessoas que vivem à margem, estão nas diversas camadas da sociedade… Elas têm, basicamente suas particularidades e peculiaridades e passam por problemas e situações semelhantes a qualquer cerntro urbano. Mas falando do nosso urbano, nos também estamos falando de nosso nordeste que é tão nordestino quanto o [movimento] “armorial”, quanto as referências do sertão… O grupo faz parte do movimento GRITE: Grupos Reunidos para Investigação Teatral, e discutimos não só estéticas, mas a participação política: nós temos um olhar voltado para o trabalho de grupos de pesquisa continuada porque vemos, principalmente, que não há um olhar diferenciado pra esse tipo de atividade, os nossos resultados não são tão imediatos quanto uma produção comercial; não que nosso trabalho não possa se fazer comercial, mas não é o objetivo dele, o objetivo dele é ser resultado de uma pesquisa e que essa pesquisa possa se desdobrar em outros futuros trabalhos; então nosso resultado não é tão imediatista quanto as produções que geralmente são contempladas. Então precisamos ter esse olhar diferenciado para o nosso fazer artístico. Estamos lutando junto com vários coletivos pra ter esse olhar diferenciado dentro das políticas publicas de nosso Estado, da nossa cidade.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Olha, eu acho que qualquer grupo, qualquer coletivo define-se por afinidades e elas são tanto afinidades afetivas, quanto afinidades estéticas. Acho que as pessoas que estão ali têm interesses e objetivos comuns voltado à pesquisa desenvolvida pelo grupo. O Cênicas trabalha principalmente a estética do urbano, mas voltada com a linguagem do quadrinho e do desenho animado; É algo que viemos pesquisando há um tempo, não diria que nosso trabalho é só voltado para essa linguagem, mas viemos sempre pincelando nossos trabalhos dentro desse corpo e voz diferenciados, desse estado de corpo diferente que o desenho tem, que o quadrinho imprime. Nos nossos trabalhos temos exemplos mais fortes dessa linguagem em: Neuroses, a Comédia é totalmente baseado nos desenhos animados; na montagem de As Criadas, do Jean Genet, que nos levou pra uma ligação do Genet com o teatro oriental só que buscando relação com a linguagem dos mangás japonês, muita gente falou que essa mistura fosse levar a uma confusão, mas pelo contrario, potencializou a força da obra do Genet e foi uma experiência muito rica para todos. E o nosso último espetáculo, Pinóquio e Suas Desventuras, que foi realizado um trabalho de corpo específico para os atores e, sobretudo, na questão de velocidade e de forma que é peculiar no desenho animado mesmo. Esses são os fatores de união estética, sem contar as nossas afinidades políticas e afetivas.

Chama Viva Cia de Teatro – Palmas – TO
Representante: Cícero Belém Filho

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Nós temos uma trajetória de 25 anos de trabalho e o financiamento se deu ao longo desse tempo de formas diversas. Por um período nós nos financiamos com recursos próprios com atividades mantidas pelos próprios membros do grupo. Num determinado tempo nós conseguimos nos inserir de uma certa forma, aprovando projetos através da Lei Rouanet e captando recursos de algumas empresas, concorremos sempre a editais públicos e esses mecanismos, em uma certa medida, tem contribuído na continuidade de alguns projetos, mas a manutenção mesmo, o dia a dia, vem se dando a cada momento de acordo com as circunstâncias, mas depende muito do esforço coletivo e, de certo modo, um desdobramento pessoal.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Veja bem, essa pergunta é importante e complexa pra eu te responder de forma objetiva. Nesse tempo todo de história nós procuramos desenvolver algo que interessasse e chegasse às pessoas da cidade onde nós moramos que é Palmas. Esse experimento é um experimento longo, eu não sei se nós encontramos uma fórmula, até porque o que nós em algum momento nos propusemos a fazer, havia uma certa dificuldade, vamos dizer assim, não diria de compreensão, mas de diálogo com a população. Então, a partir do momento que nós fomos percebendo uma vocação – não sei se o termo correto seria vocação, mas uma identificação maior das pessoas que moram em Palmas, que na grande maioria são nordestinos, são pessoas mais simples, com textos que traziam uma temática mais popular, houve uma mudança completa na relação com o público. Então hoje nós temos uma relação muito forte com o público de Palmas, é uma cidade em que a companhia se afirmou, tem um público, uma trajetória, um repertório, lota os teatros… Mas a gente vive nessa constante investigação, inquietação se o que nos fazemos interessa ao público, se a gente está falando interessa ao público e se o que possa interessar ao público interessa a nós. Às vezes o artista também quer dizer algo que pode não interessar ao público naquele momento, né? E aí entra uma séria dificuldade na questão do financiamento, na questão do que o mercado está assimilando. Enfim, a gente enfrenta esse dilema com um jogo de cintura muito grande pra dizer muitas das vezes o que a gente gostaria de dizer e pra às vezes dialogar com o público com algo que a gente não gostaria de estar dizendo. Existe uma preocupação forte com essa questão, com a estética, com a elaboração do que nós fazemos. Nós moramos num estado absolutamente novo, que é caçula do Brasil, o Estado do Tocantins. Palmas também é uma cidade que está se formando, se construindo, é um canteiro de obras. Eu creio que nós nem poderíamos querer que fosse diferente. O nosso processo – se é que existe algum processo – ele está em construção. E o Grupo Chama Viva eu acho que consegue espelhar esse processo, pelo fato de ser um grupo que começou antes de criar o Estado e que permanece até hoje com um núcleo de seis pessoas que fazem parte da história do grupo já há um longo tempo, então a gente vem acompanhando as mudanças, as transformações que estão ocorrendo não só na cidade, mas também em termos das discussões que envolvem a problemática do teatro contemporâneo.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Nós estamos talvez iniciando a superação de uma das maiores crises enfrentadas em vinte anos de existência. Decorrente mesmo da trajetória, da história do grupo, nós tivemos a experiência de ser patrocinados por um período por uma empresa através da Lei Rouanet. Esse momento nos permitiu alçar vôos, experimentar uma forma de produção que a gente ainda não tinha experimentado na região e que eu acho que a gente sonhava como todo grupo de teatro sonha com estrutura, a gente não deixa de sofrer de alguma forma a influência dos modelos de produção do Rio e de São Paulo e a gente tem uma ponte muito forte com o Rio de Janeiro. E o que acontece? A gente experimentou um modelo de produção e no dia que esse patrocínio desapareceu, a gente se viu na mão. Então, a crise está provocando uma reorganização do grupo na sua forma de produção, na sua forma de trabalhar a questão do teatro na região. A crise que nos levou foi financeira, foi de subsistência também, porque pessoas que se dedicavam exclusivamente ao grupo passaram a não ter mais essa estrutura, de certo modo isso afetou as relações, a estrutura interna, e a gente conseguiu manter o núcleo até hoje junto. O teatro conseguiu. A necessidade de fazer teatro naquela região, com as dificuldades mais diversas. Eu acho que as diferenças e dificuldades nos mantiveram unidos, claro que se confrontando diariamente. Nesse momento a gente está discutindo qual é nossa cara, qual é nosso formato de produção: será que a gente não pode ter um formato muito próprio de trabalho? Uma metodologia muito própria de produção que não precise estar espelhada em modelos que talvez não funcionem na nossa região, que é muito carente de recursos, de equipamentos, de material humano?

Clowns de Shakespeare – Natal/RN
Representante: César Ferrario

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Dadas as dificuldades naturais da sobrevivência de teatro, principalmente falando de grupo, uma das saídas encontradas pelo coletivo foi a diversificação. Então essas vias de financiamento de grupo vem de diversas áreas que vão desde a venda de CDs, a bilheteria, a editais, a venda de espetáculos pra festivais, a editais pra oficinas, a ponto de cultura, enfim.. A oficinas que o grupo dá pra comunidade em geral. Então é bem diversificado. Mas eu diria que o substancial, o que pesa mesmo é o que vem através de editais. Quase nada, em toda sua historia, [vem] de leis de isenção fiscal, e diria que em segundo lugar vem de venda de espetáculos, principalmente pra festivais. Mas principalmente alguns editais como Myriam Muniz, que é bem recorrente na história do grupo; lá no Nordeste, o Banco do Nordeste do Brasil tem um Edital voltado pra região que também a gente vem pegando durante alguns anos consecutivos. Esses dois eu acho que são os principais… Nos valemos do Caravana Funarte que foi extinto, o próprio Ponto de Cultura também é um edital que acabou beneficiando o grupo também, mas os dois principais são esses: o do BNB e o do Myriam Muniz, que são os mais recorrentes.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Primeiro a região no grupo: diria que, vou começar pelo básico: é quase impossível você se isolar do meio em que você vive, de uma forma ou de outra o seu contexto acaba vazando pro seu projeto artístico nem que você não queira então começa daí, mas não só isso. Existe uma linha de pesquisa do grupo que passa pelo regional e acho que isso não é nem decidido assim, pactuado de uma forma objetiva dentro do grupo… Mas se você olha os nossos espetáculos você acaba percebendo a presença de uma estética regional dentro desse contexto, dentro de nossos espetáculos. Passa pela musica também, da pesquisa de Marco que bebe na musicalização regional também; as próprias feituras de figurino e cenários, que sempre também buscam materiais específicos da região… Acho que toda a linguagem também, acho que todos os itens da confecção, da feitura do espetáculo, de uma forma ou de outra acaba se percebendo a presença do popular, embora nós não sejamos um grupo de cultura popular, acho que o grupo vai alem disso. E no inverso a gente também busca tá alcançando a nossa comunidade. O grupo… Não só a nossa comunidade do entorno, do nosso barracão… Mas também da interiorização: vários projetos que o grupo aprova ele ta lá bem especificado a busca do grupo pela interiorização: o próprio ponto de cultura a gente chamou de Barracão Mambembe, onde há um conjunto de oficinas e montagens que vão ser dadas por cidades do interior, oficinas que a gente ta sempre buscando ir pro interior do estado… O projeto de pesquisa do Ricardo III, que vai ser nossa próxima montagem, partiu de uma caravana de investigação cênica que circulou pelo interior do Estado onde a gente não só colhia informações, mas a gente também pode oferecer oficinas pra essas comunidades dentro do principio de troca, vamos dizer assim. Pra finalizar, dentro de um contexto de globalização, de pós-modernidade, de uma serie de questões que relativizam tanto, tudo. A gente entende que se a gente não se firmar, não fincar nossas raízes num lugar nosso a gente acaba se perdendo dentro de todas essas questões. Então o grupo tem circulado por diversos Estados, tem trocado com profissionais de diversos Estados do país e então justamente por isso que a gente procura estabelecer um contraponto com tanta força quanto.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Interessante. Essa pergunta me leva a reflexão. Que existe, existe. Se não o grupo não existiria, não sobreviveria a todo o seu período de existência: que são 15 anos. Agora, uma das coisas que eu acho que o grupo busca atualmente: é rever, definir, as formas de feitura do seu trabalho. Eu acho que é o artifício, é um grupo de proletários… Então eu acho que a forma do fazer, essa organização coletiva e a reflexão em cima dessa experiência enquanto experiência possível que vai de encontro a um conjunto de mecanismos instaurados, onde você encontra a hierarquização, a verticalização nas relações interpessoais, onde você encontra uma sociedade do individuo, da concorrência… Então acho que o desejo de nadar nesse contra-fluxo, contra essa maré… É uma das coisas, eu acho, que nos mantém juntos, que vai alem do objeto artístico, eu acho que é na própria organização do coletivo. Essa é uma das causas que eu poderia pinçar pra vocês. Agora, outras coisas mais, que vai desde um vínculo afetivo pessoal a um interesse comum por uma determinada estética enfim uma serie de outras coisas. Mas eu acho que o cerne interessante que eu posso apontar da questão agora seria esse.

Teatro do Concreto – Brasília – DF
Representante: Francis Wilker

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

O Teatro do Concreto começou em 2003; até 2007 mais ou menos foi sempre por conta própria, a gente se reunia, não tinha espaço fixo de ensaio, ensaiava onde dava, parcerias com escolas, com faculdades… cada um investia naquilo que podia – uns o tempo e outros alguma grana até pra produção dos espetáculos. Hoje, a gente tem um financiamento do FAC, que é o Fundo de Apoio à Cultura do DF, que foi um projeto que a gente aprovou de manutenção do grupos, e a gente conseguiu aprovar também o Myriam Muniz de circulação do espetáculo, também o Artes Cênicas na Rua agora e um projeto de circulação no FAC também lá do Distrito Federal, que é distrital. Então o grupo tem sobrevivido desse financiamento que é público. Privado, nada, até porque em Brasília isso é super difícil, porque a economia é o funcionalismo público, tem pouquíssimas empresas privadas de grande porte ou que tenham editais específicos lá pro Distrito Federal, é bem difícil. Todos nós do Concreto temos outras atividades profissionais que não são o grupo. Acho que a diferença é que durante muitos anos a gente pagava pra fazer o nosso teatro, hoje talvez a gente não esteja tendo lucro e não possa abrir mão de outros trabalhos, mas a gente já não tem que pagar pra fazer, já foi um passo pra nós super importante. Eu costumo brincar que a gente agora está como classe média…

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Eu acho que o Concreto tem uma especificidade, que nós somos mais de 10 artistas, somos mais ou menos 15 pessoas e cada uma praticamente mora numa cidade satélite diferente, então tem gente do Plano Piloto, do Cruzeiro, de Águas Claras, São Sebastião, Samambaia, Ceilândia, Sobradinho, então o Concreto é o retrato dessa diversidade que é o Distrito Federal, ele não é a cidade tombada e é também, porque ela atravessa todo mundo, mas ele é muito mais que isso. Ele nasce também de uma relação com essas cidades satélites – que eu não gosto de chamar de periferia, mas que não é plano piloto, que não é cidade tombada, que não é a cidade patrimônio. E nasce de uma relação muito forte também de ensino de teatro, de oficina, de dar aula em escola público, então é desse lugar que esse grupo também se coloca e se aponta. Então, dialogar com o Distrito Federal e com a cidade pra nós é político e é estético e tá no nosso trabalho. O primeiro projeto que a gente aprovou foi ano passado, foi o primeiro dinheiro público que entrou no Concreto, foi pra circular com Diário de um Maldito em três cidades satélites. Antes de ir pras cidades satélites, a gente fez um programa de pré-apreciação do espetáculo em escola públicas de ensino médio, então a gente levava um debate sobre qual é a função do artista na sociedade, o que eles tinham de referência de teatro, levávamos algumas imagens do espetáculo pra que fosse discutido com os alunos e aí convidávamos pra assistir o espetáculo, com uma oficina e com entrada gratuita. Eu acho que isso baliza muito o que a gente tem pensado de como estar na cidade, como dialogar com a cidade. E agora a gente aprovou outro projeto também lindo, em que a gente vai circular por 10 asilos do Distrito Federal, com outro trabalho da gente. A idéia também é criar vínculos com as pessoas, a gente quer ser um grupo que pertença a cidade, a gente não quer ficar fechado numa ilha de uma sala de ensaio que não olha pro que tá ao redor. A gente aprovou no final do ano passado o Interações Estéticas também na Funarte, que era residência artística em Pontos de Cultura, e a nossa proposta foi oferecer uma oficina sobre processo colaborativo pra quatro grupos do Distrito Federal, então tinha um grupo de Santa Maria, de outras satélites, então a gente ia pro espaço onde esse grupo trabalhava – que nenhum tinha sede, eles apresentavam uma cena, contavam um pouco como é que eles criavam, aí a gente apresentava uma nossa e compartilhava com eles como é que a gente tava trabalhando essa perspectiva de processo colaborativo e isso resultou num festival de cenas curtas. E, no nosso projeto de manutenção, a gente colocou muitas ações de teatro e como meta a gente colocou: fortalecer o movimento de teatro de grupo local. Então a gente realizou no Cena Contemporânea o primeiro Fórum de Teatro de Grupo do Distrito Federal, que acabou criando uma rede e a gente fez uma publicação que a gente decidiu não fazer só sobre o Concreto, a gente convidou outros dois grupos e isso também é uma forma de dialogar com a cidade. E dois trabalhos que a gente fez… O Teatro do Maldito foi dentro de uma oficina mecânica, a Oficina dos Perdidos, que é um espaço que está sendo desapropriado pelo governo e a gente inclusive também tentou contribuir com essa luta e o outro foi intervenção urbana mesmo nas ruas de Brasília, na rodoviária do plano. Então a gente tenta também atravessar com nosso projeto poético a cidade. E eu acho que isso vai ficar mais radical agora no próximo trabalho.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Eu acho que tem uma perspectiva de trabalho coletivo que é muito forte e um trabalho que expressa também uma consciência social, de entender o lugar do artista como o lugar de alguém também que quer dialogar com o mundo, contribuir pra uma mudança, pra uma reflexão, acho que isso mexe muito com a gente, motiva muito, até por todo mundo ter vindo de experiências e vínculos que foram criados em experiências de ensino de teatro, então eu acho que essa dimensão formativa ela também é muito ressaltada. E acho que esse diálogo com a cidade também é muito forte hoje, no nosso discurso, naquilo que nos une, que nos agrega. E essa vontade de estar junto – principalmente em Brasília que é tudo tão cheio de espaço, tudo muito longe – a gente entendeu que a gente queria ficar junto e que isso era uma força, embora seja muito difícil, porque a cidade, até na arquitetura, ela tem uma coisa assim de separar, de ruas largas, de distâncias longas, é difícil você andar a pé em Brasília como você anda em São Paulo. Então, estar junto é uma luta muito grande, mas também acho que é o que nos mantém.

Grupo Cuíra de Teatro – Belém do Pará – PA
Representante: Karina Janssen

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

O financiamento do Grupo Cuíra e de todos nós é ora por políticas nacionais, como o Prêmio Miriam Muniz, que é uma das poucas políticas nacionais que chegam lá, isso é importante dizer… Tem também um edital local da cidade que não cobre todas as demandas, mas ele existe, e muitos dos nossos projetos são bancados individualmente, os artistas tiram do bolso e bancam seus projetos.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

O Grupo Cuíra de teatro ele é, principalmente, hoje, o espaço alugado por conta própria desse grupo, são as pessoas do grupo que pagam o aluguel, e recebe outras companhias da cidade, tanto para ensaio, quanto para apresentação de espetáculos. Ele se localiza na zona do meretrício de Belém, no baixo prostíbulo, onde existem muitas drogas e muitas mulheres prostitutas no entorno. O grupo já desenvolve vários projetos nesse sentido de envolver a comunidade e dialogar com comunidade e cidade. Um deles, dirigido pela Vlad Lima, chamado Laquê, colocou no palco atrizes, alunas do teatro e mulheres prostitutas da zona, tendo como dramaturgia o depoimento e as histórias de vida das mulheres que estavam no palco, assim como dos moradores ao redor desta zona. Então, o Grupo Cuíra tem esse trabalho de diálogo com a comunidade e é um grupo que está no trânsito com várias outras linguagens de vários outros grupos.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Esta é uma boa pergunta, a gente investe muita grana em psicólogos e terapeutas pra descobrir o que é, afinal, que faz a gente continuar nessa vida. Mas eu tenho a sensação de que a experiência artística nos faz crescer como gente, enfim, como ser humano, em conhecimento mesmo, nos possibilita dialogar com outras cidades, como nós estamos fazendo aqui… Eu acho que é isso que faz a gente continuar fazendo, mas eu não tenho certeza… Eu acho que é uma questão pra se resolver só na terapia.

Cia Dezequilibrados – Rio de Janeiro – RJ
Representante: Letícia Isnard

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

O financiamento não funciona. Na verdade a companhia foi fundada em 1998 e de lá pra cá nosso maior parceiro sempre foi o SESC, que é um recurso muito baixo pra montagem, mais complicado até do que pra circulação, que tem o Palco Giratório, que a gente já participou três vezes e foram experiências maravilhosas, mas patrocínio a gente só teve… Uma vez a gente ganhou o FAT, que é o Fundo de Amparo ao Teatro, que é municipal, a gente ganhou 60 mil pra montar o espetáculo, e ano passado a gente teve nosso primeiro patrocínio de uma empresa privada, que foi o Oi Futuro, e a gente ganhou o Myriam Muniz. Esse ano não ganhamos nada, inclusive foi um ano em que a gente não conseguiu nem circular com repertório, nem fazer coisa nova, porque também ao longo desses 12, 13 anos de companhia, como esses recursos sempre foram insuficientes a gente sempre colocava do bolso, então existe ainda uma dívida interna grande na companhia e a fonte secou, ninguém mais tem dinheiro pra continuar botando, então de agora em diante, a gente optou por só trabalhar tendo o mínimo de estrutura, de condição, tudo bem até a gente não ganhar, mas não ter que botar mais do bolso. Agora, o que a gente fez nesse último ano que a gente teve o patrocínio foi uma coisa muito interessante que acho que tem outras companhias fazendo também: em vez de a gente pegar a verba e reverter numa bolada de cachê pros atores, a gente transforma num salário mensal. Então, se, por exemplo, num patrocínio de 230 mil, eu vou ganhar um cachê de 6 mil, a gente transforma num salário de mil reais durante seis meses, que pelo menos, com isso, a gente consegue garantir algum tipo de estabilidade pra que o integrante possa se programar e se garantir na companhia e ter um mínimo de organização financeira da sua vida.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Eu acho que a gente trabalha muito com criação coletiva de textos, a gente tem acho que 11 peças que a gente já montou ao longo desses anos e acho que uma só é com texto já pronto, o resto todo foi criação coletiva ou até escrito por alguém mas para a companhia, que durante um tempo a gente trabalhou com uma dramaturga, muito a partir das experiências de sala de ensaio e tal. Então, a cidade e o país estão sempre presentes nas peças, acho que de uma maneira muito forte, até porque uma das frentes de pesquisa que é a que mais consolidou o grupo é a relativa ao uso de espaços não-convencionais – o primeiro trabalho era num quarto de um apartamento, era pra oito espectadores por seção, depois a gente foi trabalhar numa boate que era uma casa, pra 30 espectadores por seção, a gente já fez peça pra um espectador, tem muito essa coisa de trabalhar com o indivíduo também, até seguindo na palestra do Lehmann de ontem, acho que a questão política, quando ela não entra no tema da peça, ela entra também na forma de a gente colocar o material em cena e com certeza também na organização do grupo, que é um coletivo em que são cinco atores e um diretor, mas não existe uma hierarquia, a questão de o diretor ser o diretor é apenas uma função, ele não manda mais do que os outros, na verdade quem acaba tendo um poder maior de decisão é o núcleo de produção que é feito por três pessoas, mas isso é recente, porque durante muitos anos era meio que todo mundo produzindo, sempre sobrando mais pra uns do que pra outros, isso também sempre gerou muita crise, mas com isso eu respondo a primeira e a segunda… Existe uma Associação de Grupos e Companhias do Rio (você dá um google tem o site e tem todas as companhias que fazem parte), durante muito tempo minha companhia foi muito ativa na Associação, mas isso é uma coisa meio… A gente dá umas revezadas, durante algum tempo alguns encabeçam mais, depois vão outros pra não sobrecarregar. A Associação foi muito inspirada no que aconteceu aqui em São Paulo do Arte contra a Barbárie, da Cooperativa, e a gente começou a tentar se reunir no Rio, a reunir a classe, e aí, enfim, criamos um documento com demandas, com como a gente achava que deveria ser um edital de cultura, que foi adotado pela gestão do Miguel Falabella na prefeitura do Rio, que foi o FAT, que é o Fundo de Amparo ao Teatro, só que aí tem mil questões, porque ele acabou que cumpriu uma parte do que foi pedido e teve outra parte que era voltada pra subvenção que até hoje não foi contemplada. E esses problema do Rio, que a cultura acaba sendo muito atropelada por outros eventos da cidade, agora a secretária de cultura atual, que é a Jandira Feghali, resolveu fazer um Viradão Cultural, pra copiar aqui o de São Paulo, só que o que a gente viu foi ela usar toda a “rapa do tacho” do dinheiro pra cultura que ainda tinha esse ano pra gastar em uma virada de 24 horas com show de música na periferia, quer dizer, nem contemplava várias linguagens, nem a cidade inteira, então é uma ação muito populista num certo sentido. Então, a Associação é onde a companhia tem tido uma entrada mais de intervenção política, mas ela também tem altos e baixos, tem épocas que tá mais ativa, tem épocas que tá mais desarticulado, que é uma questão complicada no Rio também, é difícil se articular lá. E… Acho que a nossa intervenção em relação à cidade vai muito em função disso, dos espaços em que a gente trabalha.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Olha… é curioso, porque o elemento agregador foi o diretor que é o Ivan Sugahara, ele que conhecia todos que hoje compõem a companhia, a composição atual, que é a dos últimos 8 anos, se deu em dois tempos, no primeiro momento entraram duas atrizes que foram a Ângela Câmara e Cristina Flores, e no segundo momento, pra montagem de um espetáculo específico, entramos eu, o José Karini e o Saulo Rodrigues, hoje a companhia é composta por esses cinco atores mais o diretor. E eu acho que todos, com exceção da Cristina, talvez, todos desde sempre tinham um desejo de trabalhar em companhia, eu já vinha de uma história de companhias de dança, que eu era bailarina antes, então tinha esse desejo, eu sempre acho que coletivo é mais interessante, mais rico e mais forte, apesar de mais trabalhoso, muitas vezes por um lado. A Cris era a única que no começo não tinha muito esse discurso, mas hoje ela defende também o discurso da companhia e eu acho que sempre teve um desejo muito grande de criação de uma linguagem e eu acho também que é numa certa medida um certo porto seguro em relação ao mercado de trabalho, você tem uma referência, você tem um lugar, mesmo que ele também não tenha dinheiro e não tenha estrutura, mas é um núcleo de identidade. Mas eu acho que o que sempre instigou o grupo a permanecer unido foi essa questão de a gente ter essas três frentes de pesquisa muito potentes nos trabalhos, que eram: a ocupação de espaços não-convencionais ou a busca de um uso não convencional do espaço tradicional, ou seja, uma pesquisa em relação à recepção – onde colocar o espectador e como trazê-lo pro teatro? A outra, da dramaturgia que é… Tem horas que a gente fica seco pra trabalhar um texto tradicional e ter um personagem e não uma função dramática, mas é muito rico você poder estar em processos de composição dramatúrgica, acho que pra qualquer ator isso é uma delícia também. E isso tudo também acabou gerando uma pesquisa de trabalho de ator bastante interessante, tanto por uma certa atuação mais intimista, dentro desses espaços mais reduzidos, como dentro dessa questão da dramaturgia também, de você estar trabalhando com um material que você levou, e que foi deglutido pelo processo, mas, enfim, isso também gera uma qualidade específica do trabalho – acho que é isso que une mesmo porque… Dinheiro não é.

Dramática Cia. – Belém do Pará – PA
Representante: Wlad Lima

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

O grupo não tem uma regularidade de financiamento, vez ou outra a gente entra nos editais nacionais ou o edital local – hoje tem um edital do Estado, que é baixo, 20 mil reais, que é proposta dessa gestão, pode desaparecer, não é uma lei de Estado. Na maioria, o grupo de auto-financia, isto é, tiramos do nosso salário, de trabalhos como professor universitário, por exemplo.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Eu vou falar do último trabalho feito pela Dramática: nós trabalhamos uma coisa que chamamos solos de ator, são exercícios de ator em que o ator provocado por um dia da semana – eram sete atores cada um com um dia da semana – tentava entender a sua vida, a sua realidade, a sua cidade naquele dia. Como é Belém dia de domingo, por exemplo? Então tenta ler isso e produz a partir disso que ele coleta: toda a simbologia, todo o ritmo da cidade, o ritmo do corpo e faz o espetáculo. Esse trabalho é um exemplo muito interessante porque tem o diálogo, agora vale pensar assim: eu, como morador da cidade de Belém do Pará, me conecto com várias coisas, várias coisas me atravessam, então eu posso dialogar com o Japão, não é estranho dialogar com o Japão, até porque tem uma comunidade japonesa grande na cidade, mas também porque eu gosto disso, porque isso me chega como informação, enfim… Pode tudo!

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Eu acredito muito que é o seu processo criativo. Acho que mais do que qualquer coisa, quando a gente tá junto, tá criando, a gente tá alargando a criatividade de todos nós, então é muito prazeroso estar junto nesse sentido, porque é uma certeza de uma aprendizagem, de uma vivência melhor. O grupo trabalha sempre processos criativos interessantes, estranhos, provocadores. Agora o grupo não trabalha constantemente, a gente trabalha vez ou outra, porque são pessoas que trabalham muito todos trabalham na área cultural da cidade, mas são pessoas que trabalham muito, então quando a gente se junta, a gente faz sempre algo especial. Para ter uma idéia, nesse projeto dos dias da semana, cinco atores conseguiram chegar ao fim do processo, cada um tem o seu espetáculo, isso é muito bom, porque eu tenho um espetáculo que eu levo comigo, eu apresento, eu vendo, eu faço o que eu quiser com ele. Agora, dois ficaram no meio do caminho, isso é terrível, é cruel, é uma sensação que eu não sei explicar, mas sempre te altera.

Facetas, Mutretas e Outras Histórias – Natal – RN
Representante: Ênio Ewerton de Sá Cavalcanti

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

A gente tá participando de vários editais, a gente é ponto de cultura, a gente foi contemplado com Myriam Muniz ano passado e a gente tem alguns projetos lá dentro como um espaço de experimentação, a gente abriu um bar, que a gente tem uma sede que é rateado com outros grupos que não são de teatro, um é um grupo educacional e o outro é uma ONG feminista que atuam no mesmo espaço que a gente. A gente tá chamado de TECSOL – Território de Educação, Cultural e Economia Solidária, a gente tá transformando esse espaço num espaço que agrega vários projetos sociais, educacionais e culturais. E a gente tá gerindo esse espaço e a gente trabalha nessa perspectiva de editais, projetos. Aí a gente estreou um espetáculo agora que foi contemplado pelo Myriam Muniz e há perspectiva de Festivais com esse espetáculo. Mas é instável o financeiro do grupo porque depende dessa aprovação, depende de muito trabalho, tipo a gente precisa trabalhar muito agora pra daqui a seis meses ter, entendeu? Então a gente vai trabalhando sempre pensando lá na frente, já tentando fechar um trabalho pra 2010, um cronograma, é muito importante fechar um cronograma pra poder ter um resultado financeiro também. E a gente também, vez ou outra, por exemplo, lá no Rio Grande do Norte tem espetáculos de fim de ano e a gente abre espaço pra que o grupo participe, o grupo dá umas férias porque é um cachê legal e os atores dependem… então a gente também faz free lancer, trabalho de poesia, por exemplo. Tanto os atores fazem free lancer como o grupo faz alguns pequenos trabalhos comerciais, comerciais no sentido de que você contratado pra fazer determinado trabalho, como um sarau, ou apresentar uma esquete sobre determinado tema, enfim.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Olha, quando se fala de Nordeste, assim, a gente sempre traz o referencial nordestino pra dentro do grupo, como por ser nordestino a gente já tem o preconceito aí de a gente vir com determinado tipo de trabalho. A gente procura examinar isso, sim, reconhecer isso, nosso trabalho de criação ele se dá no litoral, no interior, a gente vai, faz workshop, conversa, faz um trabalho que procura ver a relação com os aspectos econômicos e sociais. A gente tem um projeto de circulação de espetáculos que a gente procura não só apresentar, mas conhecer a principal atividade econômica do município que a gente tá, e como é que se dá a educação, a comunicação, então a gente procura ao máximo trazer isso a nível de Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, mundo, a gente abre muito essa discussão pra que ela não se feche num estereótipo de um determinado trabalho. A gente tá, por exemplo, examinando agora, por opção do grupo, o Nordeste, a temática do grupo no novo trabalho é o Nordeste, mas no trabalho que a gente estreou agora não é. Mas toda nossa vivência porque nós somos de lá e o espetáculo é impregnado com esse discurso do ator também, das dificuldades que a gente tem lá, dos teatros, de como é difícil estar em cartaz, como é difícil pagar, tem muito menos espetáculos do que aqui. A opção de trabalhar com uma linguagem contemporânea, com alguns formatos da linguagem contemporânea também porque a gente acredita que a cidade precisa estar vivenciando também, talvez o grupo tenha uma função nesse sentido… já que a gente gosta de fazer aquilo, por que não optar, e por mais que aquilo não esteja impregnado da cultura popular nordestina, é uma cultura nordestina por mais que ela tenha um formato contemporâneo, trabalhe uma coisa que vem de fora, enfim. Mas a gente pesquisa, por exemplo, muito da linguagem contemporânea dentro do convencional. A gente acha que a tradição e contemporaneidade estão super ligadas, assim. A tradição ela tem que mudar, se não ela não existe, né?

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Hoje o grupo é uma casa, uma família, no que diz respeito ao artista mesmo, a gente se vê muito mais como artista do que como atores, porque o ator tá ligado ao intérprete. A gente faz o trabalho com pessoas de fora, e dentro do grupo é completamente diferente, assim, dentro do grupo, o que une mais a gente é a possibilidade que o grupo dá de eu estar trabalhando o meu indivíduo ali dentro, de eu estar colocando a minha vontade artística. Por exemplo, a gente tirou o diretor, a gente trabalha com direção em grupo, a direção é coletiva, é assinada pelo grupo, não tem uma pessoa… Talvez esse seja um dos motivos, pra que a gente possa ainda mais falar dentro do grupo, então acho que, no caso do Facetas, o que faz mais a gente estar lá dentro é esse espaço que o grupo deu de você colocar o que você quer e realmente o que vai pro palco é o que o ator, o que as pessoas do grupo estão querendo fazer, estão querendo falar. Virou um espaço muito bom de discussão, de argumentação, de vivência, então esse espaço confortável pra o ator acho que é o mais importante pra todo mundo gostar de estar lá. São três pessoas, né? São quatro, mas três atores, essa quarta pessoa coordena o ponto de cultura, coordena os projetos gerais do grupo. Então é um grupo pequeno, a gente se sente muito em casa, assim. A gente tá há dez anos, desde a escola, o grupo começou no segundo grau e a gente tá junto já há um tempo, desde quando é mais novo que você pensa diferente do que agora…

Companhia Flor e Espinho – Campo Grande – MS
Representante: Anderson Lima

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Acaba sendo por editais, a grande maioria mesmo do financiamento do grupo é edital, seja municipal, estadual ou federal, mas é basicamente isso. Aí existem vários: pra montagem, pra circulação, pra pesquisa. Isso com verba pública, isenção fiscal não, porque na nossa região isso não acontece, as grandes matrizes estão nos grandes centros, então Lei Rouanet nunca existiu pra lá, o estado nunca teve um projeto de captação, aprova, mas não consegue captar, então pra gente não é uma realidade, não existiu. A bilheteria é complicado, acontece na estréia, primeira semana e depois já é complicado, então não dá pra viver… Viver da bilheteria é uma realidade distante. Os artistas vivem do grupo, agora o grupo faz algumas atividades além dos espetáculos, dá oficina, uma série de formações que acabam complementando a grana.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

O grupo desenvolve uma ação política bem forte no Estado, uma das missões do grupo é isso, chegar com um pensamento pertinente à sociedade contemporânea e isso com certeza influencia, está ligado ao que a cidade e o Estado produzem de necessidades. Não que seja uma busca do grupo trabalhar específico regional, não… A gente vê o pensamento que seja pertinente, a gente trabalha com teatro autoral, os textos são feitos em processo colaborativo, vai atrás de alguém pra escrever, mas nós não temos essa ligação de querer pegar algum assunto da cidade, não. Agora, ação política, sim. A gente realiza um Festival, por exemplo, que está sendo um divisor de águas, está conseguindo trazer uma mudança política grande na cena teatral do Estado, com a união dos grupos, uma série de benefícios que veio depois do Festival… a presença no Conselho Municipal de Cultura, aqui no Próximo Ato, então a gente tem essa preocupação, sim, de estar sempre ligado às questões política e contribuindo.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Eu acho que… Não sei se eu saberia responder. É um trabalho, né? Pra gente, o teatro, acima de tudo, é um trabalho. A gente até ouve algumas coisas, como: “ai, é um privilégio trabalhar com teatro”, mas não se imagina que toda profissão tem as dificuldades. Pra gente é um trabalho… E é um trabalho que, claro, dá um prazer enorme em fazer, as pessoas vivem em comunidade, o grupo são pessoas que têm um lado humano, de amizade, vínculo, também muito grande. Fora isso eu acho que seria muito subjetivo falar outra coisa. A gente tem um olhar bem… A gente se debruça bem no efêmero. E tem uma linha de atuação, um teatro mais físico desprovido de muitos recursos tecnológicos, mas a gente tenta não estar rotulando muito, não, a gente tá construindo uma linguagem que está calcada em várias teorias, mas a gente tenta se libertar um pouco disso também.

Grupo Harén de Teatro – Teresina – PI
Representante: Arimatan Martins

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Nosso grupo é uma cooperativa, a gente paga todas as despesas e divide todo o lucro. Das bilheterias, das apresentações, de venda de espetáculos e ultimamente a gente tá trabalhando com projetos pra Lei Rouanet, que são muito poucos aprovados os projetos, e alguns projetos como o Myriam Muniz, que a gente tem ganho vários, já ganhamos 3, e agora mesmo vamos circular em janeiro com um projeto de circulação, difundido pela Funarte; e de patrocínio de festival… tem um Festival Internacional de Língua Portuguesa, que envolve todos os países de língua portuguesa. Mas isso pra manter o grupo, não pra nos manter – a gente não tem salário no grupo. O grupo tá pra fazer 24 anos agora em dezembro, temos intercâmbios com Portugal, já viajamos pelo Brasil já fizemos circuito de festival. Então é um grupo, assim, bastante efetivo e afetivo. Ninguém depende do grupo. Todos nós temos trabalhos fora como professor, enfermeiro, funcionário público, médico, advogado, enfim…

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Isso é o ponto número 1 do nosso trabalho: de resgatar esse homem nordestino brasileiro pro centro da cena, discutir essas questões da linguagem na cultura popular; lógico que nos dias de hoje com todos os aparatos, instrumentos e requintes que a tecnologia e a técnica nos permite. Então nossa formação, apesar de montar autores piauienses, que já montamos quase todos, grandes autores lógico, agora nossa formação ela é do Laban de Londres, do Teatro do Movimento, do Brecht, dessa turma toda, que a literatura do teatro fornece: os russos, os franceses… A gente também não fica atrás desse conhecimento técnico, mas a gente faz questão de manter o grupo com essa perspectiva de uma aproximação pra que não fique mais distante ainda o acesso do público.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Primeiro o amor ao teatro. Segundo a identidade entre nós de descobertas próprias, que o teatro é uma via de linguagem para a vida ideais, a necessidade de resistência de cada um, ideais comuns. Por exemplo, fazer arte, ser feliz, amizade, fazer alguma coisa pelo nosso Estado, pela nossa cultura, são pessoas idealistas ainda… Então muito por aí. E a química entre nós que bateu muito bem, a gente é muito amigo, é quase uma família o grupo. A gente briga muito, se ama muito, constrói muito. Nós somos 20 pessoas. Dessas, acho que 15 são o núcleo do grupo e 10 são do grupo original de 24 anos atrás. Nosso grupo abre oficinas para os jovens por não ter escola de teatro ali. Tem só uma agora, recente. Por ser um grupo formador e a gente vai juntando, agregando essas descobertas novas pra integrar o elenco principal do grupo. Temos muito amigos pelo Brasil e pelo mundo afora e cada dia nosso grupo se firma mais como um grupo importante no Nordeste e no Brasil.

Coletivo de Teatro Imaginário – Porto Velho – RO
Representante: Chicão Santos

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

O nosso coletivo tem uma base familiar, que sou eu, minha esposa, meus filhos e uma estrutura, que agora vai ser ampla, mas a estrutura funciona em baixo da casa da gente. Ali se produz, ali tem uma biblioteca, um espaço pra acesso ao computador, essas coisas, mais atrás tem uma cozinha e atrás tem outro espaço. Agora nós compramos o terreno do lado e vamos poder ampliar essa sede. A grana pra isso vem da nossa capacidade criativa, inventiva de buscar recursos. A gente tem feito um trabalho nesse sentido, a história do Imaginário é muito nova, mas eu tô desde 1978 trabalhando com teatro em Rondônia, sou já um pré-histórico… Mas a gente tem feito muitos trabalhos, associando o teatro a outras possibilidades sociais. Nós estamos com alguns projetos que nós vamos executar agora. Vou falar primeiro de um trabalho recente que nós temos, que se chama As Filhas da Mata, e foi uma pesquisa que nós desenvolvemos a partir da presença feminina na Amazônia, que eu acho que é legal, com a vinda das caribenhas na época da construção da estrada de ferro e também com as nordestinas que foram para os seringais, então nós fizemos este trabalho de pesquisa e ele foi selecionado, agora, para circular no ano que vem pelo Palco Giratório, então nós vamos fazer uma circulação nacional com este trabalho. E, desde 2006, nós desenvolvemos esse trabalho de pesquisa e estudo que é um trabalho constante do Imaginário. E, a partir do ano que vem nós vamos desenvolver um trabalho de interação estética com a arte beradeira, que é a arte que se dá nas margens do Rio Madeira, pra baixo de Porto Velho, nós vamos descer 8 horas de barco e lá nos vamos estabelecer uma relação estética com as mulheres e através da oralidade dessa arte beradeira, nós vamos construir um trabalho lá e vamos levar também As Filhas da Mata pra encerrar este projeto lá que vai durar três meses. E também a gente está fazendo um outro trabalho que é a questão dramática dos personagens das quadrilhas juninas, então nós vamos fazer um trabalho explorando as possibilidades da ação dramática desses personagens. A gente também organiza um festival de rua, a gente tem uma pesquisa de rua, e a gente tem esse projeto do festival, associado a um seminário de integração da Amazônia, o ano que vem será o terceiro ano. No primeiro ano nós reunimos quatro estados, no segundo também, mas no próximo ano nós vamos reunir os nove estados da Amazônia legal, dentro de uma possibilidade de levar várias pessoas, como a Ana Carneiro, que fundou o Tá na Rua, o Narciso, a Nara e outras pessoas de São Paulo que trabalham com teatro de rua e também o mestre Chico Santos, então tem esses grandes encontros que a gente faz nesse festival, que a gente vê a possibilidades do encontro mesmo, porque nós temos uma grande questão na Amazônia, que são as distâncias, tanto geográficas, políticas e de formação também, sociais e culturais. Nós denominamos essas questões desses custos como “custos amazônicos”, que uma bandeira política que nós estamos levantando, e também uma outra questão que eu acho essencial colocar: enquanto nós brasileiros não aceitarmos que nós temos um grande patrimônio da humanidade que é a Amazônia, nós não vamos entender ela como da gente… E possivelmente os americanos venham e tomem da gente, porque quando a gente abre uma discussão sobre essa questão da Amazônia em si e toda a potencialidade que ela tem, as pessoas vêem isso como uma diferença e não como sendo um patrimônio do Brasil. O estado de Rondônia é o único estado que não tem leis de incentivo, nem municipal, nem estadual, o único no Brasil! Agora que está se dando depois de 12 anos a construção de um teatro público, era o único lugar que não tinha um teatro público fechado. A gente tem lá as praças, que foram recuperadas de quatro anos pra cá, que é também o grande teatro que nos temos e a estética também da nossa pesquisa, da relação com a arquitetura da cidade como diálogo para o nosso trabalho. A gente tem participado de muitos editais nacionais, como Myriam Muniz, buscando nesses editais uma forma também de sobrevivência. Mas a gente tem sobrevivido a duras penas pela vontade que a gente tem. E também as condições difíceis nunca atrapalharam nosso processo criativo, que sempre foi balizado pela nossa vontade de fazer e não pela justificativa de não ter.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

A gente tem um trabalho de proximidade muito grande com o Acre, por exemplo, que nós somos vizinhos, então nós temos trabalhado isso na região como movimento integrativo, desde a década de 70 que a gente vem trabalhando essa possibilidade de uma integração amazônica, apesar dessa dificuldade, apesar da discriminação que o país faz com a região. Por exemplo, nos editais há uma discriminação, os valores menores vão pra lá, nós não aceitamos isso, nós queremos discutir essa questão dos “custos amazônicos”, por exemplo, as empresas aéreas não abrem mais linhas pra lá porque tratam a gente como uma periferia. Por exemplo, nós não temos nada de definido na biomedicina, no ensino, enfim em todo o nosso desenvolvimento, que pode trazer pro Brasil um valor agregado, tanto da descoberta de remédios para cura de doenças, a gente não tem também a questão do entendimento de que os saberes populares dos indígenas, dos grandes caciques e pagés, que isso representa pra gente um patrimônio, além da questão simbólica, a questão do imaginário mesmo, do imaterial, então acho que isso tem que ser bem cuidado pelos brasileiros pra que isso seja realmente nosso, se não os outros vão tomar. Eu vou me valer aqui de uma frase: “se a gente não descobrir o Brasil, outro vão descobrir”.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Eu acho que o grande fator do Imaginário e das pessoas estarem próximas do grupo é a vontade de tirar o teatro do lugar-comum. Acho que nós avançamos muito nos últimos anos, Porto Velho cresceu muito e nossos vizinhos também cresceram muito em função da gente fazer essa provocação de tirar o teatro do lugar comum.

Língua de Trapo – Macapá – AP
Representante: Dislei Silva

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

O grupo trabalha com a Federação de Teatro, a maioria dos grupos é financiado através projetos da Federação de Teatro no Amapá e, particularmente, cada grupo tem seu trabalho. Nós, por exemplo, trabalhamos com bilheteria, e no caso específico do Língua de Trapo tem trabalhos que conseguem sustentar o grupo: nós temos um espetáculo que tem 18 anos de sucesso lá, então com esse trabalho a gente consegue subsidiar outras atividades e consegue ajudar na renda dos atores, dos produtores, do pessoal lá com esse espetáculo, tem 18 anos e todo mês ele vai a cartaz duas ou três vezes. O dinheiro da Federação é para projetos que a Federação… Por exemplo, ela encampa todo trabalho que é necessário teatro pro governo, por exemplo, nós participamos de todos os eventos do governo, da prefeitura como aniversário da cidade, natal, semana santa, que são projetos, então encampa todo mundo, nós temos lá a ExpoFeira que a gente coloca teatro na ExpoFeira e beneficia todos os grupos. Então a gente vem trabalhando nesse sentido, fora os outros projetos da Federação, como o Pé na Estrada que é um projeto de circulação dentro do próprio estado e os festivais que a Federação faz. Inclusive agora em março nos vamos ter um festival nacional.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Quanto à questão do trabalho do grupo, na maioria dos grupos a gente basicamente é forçado a fazer alguma coisa de identidade da região, embora no meu grupo específico a gente tenha um trabalho que tem a ver com a região e o resto a gente investiga cultura universal, teatro universal que a gente pudesse sair do Amapá e levar pra qualquer outro canto e as pessoas entendessem, porque geralmente os espetáculos quando ficam muito localizados eles servem como espetáculo didático e geralmente não servem pra você ganhar dinheiro, pra ter bilheteria, então nós nos preocupamos muito com isso. Nós temos, logicamente, dentro do linguajar que a gente usa, as expressões do Amapá, então onde a gente foi, levou nosso espetáculo, a gente manteve esse linguajar, então acho que isso é uma identificação, mas tem grupos lá que trabalham especificamente com a questão cultural do local, com a identificação da região e a gente tá nesse contexto, acho que todo o trabalho dos grupos tá nesse contexto amazônico.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Bom, o que une são lideranças, com certeza lideranças. Cada grupo lá tem uma liderança forte, que é o pilar do grupo. Os grupos… Não adianta você achar que os grupos se sustentariam… Você tem que ter um pilar que é a questão da pessoa que faz a produção, a pessoa que organiza tudo, entendeu? A pessoa que distribui as tarefas e que faz as tarefas serem cumpridas. No meu caso, por exemplo, o trabalho do Língua de Trapo quem faz sou eu, que vai desde o texto até a questão da direção, entendeu? Então é uma coisa que fica difícil porque o grupo já tem 30 anos funcionando nessa perspectiva e olha que nós somos 22 pessoas e a gente consegue manter esse núcleo e a gente amplia quando precisa de elenco, e a gente vai continuando. Tem logicamente as dissidências todas que acontecem de saírem um, dois, aí voltam depois, tem as brigas naturais.

- Mas e se você sai?

Aí complica. Aí eles têm certeza que complica porque… É o grupo… Eu sou o fundador do grupo e tô nessa história a mais de 30 anos, então tem toda essa coisa, mas é difícil sair porque tem toda a questão de respeito ao trabalho. Mas na verdade o fator agregador é a liderança dos grupos, não só no meu como em vários outros tem as figuras principais, você fala: “ó, Grupo Língua de Trapo”, você já sabe que é o Dislei, que sou eu, aí você fala “Companhia Viva de Teatro”, aí você acha o Guiga, então cada grupo tem o nome que é vinculado, você falou no grupo, fala logicamente no nome da pessoa que com certeza se deixar de existir por qualquer razão, o grupo, se não acabar, tem uma queda grave.

Teatro Máquina – Fortaleza/CE
Representante: Joel Monteiro

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

O nosso financiamento assim… O grupo ainda não sobrevive de si, não sobrevive do grupo. Então a receita acaba sendo… Tendo uma demanda razoavelmente pequena. Tem aumentado com o tempo, mas ainda hoje é uma receita pequena. Então pra montagem de espetáculo a gente se sustenta muito em editais municipais e estaduais e pra manutenção de grupo é o que esses editais vão dando de segurança pra gente porque a gente também deixa uma parte pro grupo. E aí cachês de apresentação, cachês de festivais, a gente sempre vai deixando uma reserva pro grupo e o grupo vem se mantendo nisso – essa só a parte administrativa, mas pagamento de pessoal a gente não tem ainda. E agora a gente tá com a sede, a gente tá no mesmo espaço do Grupo Bagaceira, eles já tinham há um ano e meio e a gente entrou agora e por conta disso as despesas vão aumentando e a gente tá indo atrás de outras coisas assim de manutenção de grupo mesmo e de manutenção de pessoal. A Lei Rouanet é uma complicação no Nordeste. Eu acho que em qualquer lugar que não na mão de 3, 4 produtores – não é nem na mão do eixo Rio-São Paulo – são 3, 4 produtores… É muito difícil. A gente consegue aprovar, mas não consegue captar. E alguns produtores de Fortaleza tem aparecido agora com essa proposta de projetos aprovados em Lei de isenção fiscal – porque a gente também tem uma estadual, que é a Lei Jereissati – e com projetos mais preocupados com a manutenção do grupo, têm aparecido agora, a gente tem conversado com eles e isso tá começando por período muito pequeno, manutenção por seis meses no máximo um ano e isso tem começado agora assim… Mas ainda é uma realidade muito diferente. Isso não acontece muito em Fortaleza, não.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Falando assim de um contexto especifico que é o teatro de grupo e falando também de outro contexto especifico que é uma região, uma região sócio-política do Brasil eu acho que a gente tem duas questões aí: que é a questão estética e a questão política. Em relação a questão estética a gente não tem muita relação com a nossa região, com a cultura de nossa região. A gente tem partido de um processo por de uma busca de conceitos mais voltados à poética brechtiana e daí isso não tem muito espaço pra cultura nordestina, isso não dá muita brecha pra cultura nordestina e agora o grupo tem se interessado muito pela dança contemporânea, pela performance e como essas linguagens entram dentro do teatro e como o teatro entra dentro dessas linguagens, mas assim esteticamente não tem uma relação muito intima com a cultura nordestina, com a região nordeste. Politicamente a gente tem uma instância de circulação mais facilitada dentro da região por conta de grupos amigos e também por conta de um movimento chamado “A Lapada” que é um movimento de teatro de grupo que tem a preocupação política e a preocupação estética pra que os grupos possam trocar sua estética e suas políticas também. E a gente tem feitos intercâmbios teóricos e práticos nesse sentido e quando a gente consegue circular, por exemplo pelo interior do estado, a gente também consegue ter uma movimentação dentro da região assim. Pelas capitais da região Nordeste não é tão frequente, mas a gente também consegue por conta da possibilidade desse movimento e aí quando a gente vem pra um evento como esse que acaba conhecendo o trabalho do pessoal da Bahia, do Sergipe, do Piauí, do Maranhão e quando a gente passa também por esses Estados circulando com festivais com mostras a gente consegue se relacionar com eles, entender o que eles estão fazendo principalmente politicamente também e ver o que esta acontecendo em nossa cidade e fazer os links… A gente tem uma sede só que ainda ela não funciona como um espaço, pois estamos chegando nela agora. Ela está funcionando como um pouso pra gente e também ela tá abrigando as reuniões do movimento “todo teatro é político” que é um movimento que tá em ebulição lá em Fortaleza e aí eu acho que a gente acaba construindo uma espécie de publico. A gente… por onde a gente vai passando, por questões de afinidade, a gente vai construindo um publico. Lá em Fortaleza a gente tem um publico, o Grupo Bagaceira também tem um publico, até porque o mercado também é muito pequeno então a gente acaba se relacionando dessa forma mais direta, quem vê teatro geralmente , na nossa cidade, geralmente, são quase sempre as mesmas pessoas, então a nossa relação com a população acaba sendo essa… a relação que a gente tem com o nosso público, que já é um público especifico.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

O grupo foi montado em 2003 pela nossa diretora Fran Teixeira. E aí a Fran tava vindo de SP; terminando o mestrado dela na ECA. E aí a tese de mestrado dela era no ensino da poética brechtiana era sobre trazer a critica dentro da obra brechtiana e aí ela resolveu experimentar praticamente os conceitos que ela tinha estudado no mestrado. E aí montou o grupo, montaram uma adaptação do Quanto Custa o Ferro? Que é um texto do Brecht. E ai depois o grupo foi se interessando por trabalhos menores que a gente chama de esquetes. Lá em Fortaleza a gente tem um campo fértil pra isso porque a gente tem festivais de esquetes. O Grupo Bagaceira é um grupo formado dos Festivais de esquetes, a partir dos Festivais de esquetes e esses festivais são espaços de experimentação mesmo é onde a gente tá livre pra experimentar tudo o que a gente quer. E aí essas experimentações que a gente foi fazendo com esses pequenos trabalhos eles foram definindo a linha que o grupo vem seguindo hoje esteticamente. E teoricamente a pesquisa que a Fran vem desenvolvendo a partir da poética brechtiana também vem acompanhado essa pesquisa teórica do grupo. Eu e o outro ator, o Edivaldo Batista, a gente já tem uma produção teórica acadêmica a partir da pesquisa da Fran, que também passa pela pesquisa do grupo, e a pesquisa da Fran acaba sendo o cerne do grupo, mas aí agora a gente tá estendendo isso pra pesquisas individuais e como isso se insere dentro do que o grupo vem produzindo. As peças didáticas do Brecht tem sido um ponto de partida pelo o que elas oferecem de aspecto performativo e é aí que entra performance, que entra a dança contemporânea, entra o teatro pós-dramático e a pesquisa do grupo acaba partindo disso, a partir da poética brechtiana no que ela seve a gente não como conceito – a gente não está muito preocupado com o aspecto conceitual brechtiano mas no que ele pode oferecer pra gente enquanto forma de teatro. Como os elementos que ele usa conceitualmente como, por exemplo, a repetição que ele usa pra que a pessoa perceba várias vezes e perceba outra vez a mesma cena e pense naquilo ali, a gente usa a repetição como forma, a gente tem espetáculo que é só a exaustão da repetição, do gesto. A gente usa mais como forma do que como conceito. E aí isso tem sido a principal linha de pesquisa do grupo, a partir da pesquisa da Fran as nossas pesquisas vão se desenvolvendo a partir da poética brechtiana. Não tendo um ranço teórico com a estética brechtiana mas o que ela pode oferecer pra gente. E ai a gente entra em outras coisas… A gente acaba utilizando elementos… O Leonce e Lena, por exemplo, nosso segundo espetáculo, é um texto de um dramaturgo alemão Georg Büchner, um autor muito importante pro Brecht, é um autor do romantismo alemão, mas a gente usa o texto como pretexto para uma encenação de jogo. O que o Brecht coloca como jogo e repetição a gente usa como forma. O espetáculo parece um jogo, a marcação do cenário é um campo de futebol, os atores usam patins, usam elementos esportivos. Então a gente usa todos os conceitos que ele tem a intenção de usar teoricamente a gente usa como forma, como estética mesmo (…) pra falar dos mais diversos temas. Não tem nenhum tema específico. A gente fala do que a gente tá querendo fazer, do que a gente tá querendo experimentar. Por exemplo, o grupo agora tá querendo experimentar a exploração gestual e a gente tem pensado em usar um texto do Tchekhov, que é um texto bastante verborrágico, mas que tem muito pano pra manga pra construção gestual e aí a gente acaba quebrando as coisas assim: o que se faria convencionalmente como palavra a gente vai fazer como gesto, não que o texto seja suprimido, o texto não vai ser suprimido, mas tem uma construção gestual que é o ponto de partido do espetáculo, que geralmente não seria.

Grupo do Palhaço Tenorino – Rio Branco – AC
Representante: Dinho Gonçalves

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Na marra, com amigos, dinheiro do próprio bolso, alguns editais. Rio Branco foi a primeira cidade que fez a Conferência Municipal de Cultura, que o Brasil todo está fazendo pra poder ir pra Conferência Nacional de Cultural. Então nós temos Lei Estadual de Incentivo, Lei Municipal de Incentivo e Fundo Municipal de Cultura, que não é a melhor coisa do mundo, mas ajuda os grupos locais. E também Leis federais, inclusive este ano nós ganhamos o Myriam Muniz.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Eventualmente, sim. Por exemplo, tenho uma peça de teatro que fala sobre o uso irracional da água e nós estamos na Amazônia, com quase toda a água do mundo lá. E outros grupos fazem peças sobre isso. Agora, em relação a circulação, uma coisa muito interessante é que nós pra podermos ir num município como Cruzeiro do Sul, pra eu ir hoje lá apresentar minha peça, tem que ser de avião, porque não tem outro jeito, ou a pé, mas ninguém vai carregar cenário na lama durante 60 dias pra apresentar a peça. Mas mesmo assim, quando a gente monta espetáculo a gente sempre leva nos municípios mais próximos ou onde tem asfalto. O Estado tem 22 municípios, nós levamos para 10, 11 ali próximos da capital e vai reinaugurar um teatro no Juruá, aí a gente também foi convidado pra reinaugurar, nós vamos fazer interior do Estado através de outros projetos aprovados em outras leis.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Tesão, vontade de fazer teatro e gostar de fazer teatro. Basicamente isso.

Santa Estação Cia de Teatro – Porto Alegre – RS
Representantes: Ana Carolina Moreno

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Nós participamos de um projeto que a gente conseguiu que se transformasse em lei, que é o Projeto Usina das Artes, que é o projeto de ocupação da Usina do Gasômetro, e aí nós temos um espaço que a prefeitura subsidia um valor mínimo – é irrisório, assim – porque a gente tem que fazer algumas programações durante o ano, é uma programação gratuita por mês, temporada, algumas coisinhas assim, então a prefeitura dá um valor que é irrisório, mas que pelo menos a gente consegue fazer a manutenção desse espaço. E aí, depois, a gente se financia através de projetos. Em Porto Alegre tem o Fumproarte, que é um fundo pra montagem de espetáculos, então nos espetáculo geralmente a gente consegue financiamento desse fundo, estamos indo pro segundo espetáculo financiado pelo fundo e agora a gente ganhou o Myriam Muniz, mas o que a gente mais consegue fazer é vender espetáculo, temporada lá não há condições, então é com venda espetáculos mais pro interior do Rio Grande do Sul, tá acontecendo um movimento muito legal de circulação dentro do RS, seja pelo SESC, seja por outras produtoras. Tá acontecendo isso, mas continua-se não podendo viver de teatro ainda.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Eu acho que não tem como não estar, a gente acaba falando muito sobre o que acontece em volta da gente. Brincam sobre o nosso grupo que a gente lida com a estética do frio, porque como a gente trabalha com teatro físico e os espetáculos geralmente são todos partiturizados, a brincadeira é que a gente lida com a estética do frio. Mas a gente tem esse espaço na Usina do Gasômetro, onde aos sábados e domingos lota, todas as pessoas, todas as periferias vão pra Usina do Gasômetro pra tomar um chimarrão, ver o pôr-do-sol que é lindo, então a gente acaba lidando… Por exemplo, nós temos uma apresentação gratuita todo mês e aí é bem legal, porque a gente desce, porque apesar do projeto já ter cinco anos, as pessoas ainda não se acostumaram a entrar de verdade na Usina do Gasômetro, elas ainda usam a Usina do Gasômetro como banheiro, porque ela ficou muito tempo parada, então a gente desce já de figurino e tudo mais e vai buscar essas pessoas que talvez nunca assistiram teatro na vida e isso é muito legal. As pessoas estão acostumadas a ficar só vendo o pôr-do-sol, ela não imaginam que elas podem ver o pôr-do-sol e 2 minutos depois podem entrar e assistir o espetáculo. Então isso é muito legal, acho que a gente está tendo uma política de formação de platéia muito legal mesmo. Eu já vi pessoas que foram no espetáculo gratuito indo depois na temporada paga, por exemplo, isso é muito legal, uma formação de platéia bem interessante.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Ontem a gente tava discutindo isso no espaço aberto. É tão complicado denominar o que nos une. Sim, tem uma estética parecida, a gente trabalha com teatro físico, já tem que ter um gostar disso que é diferente. Mas, o que nos une talvez seja essa vontade de dizer algo, porque é isso, que eu tava falando ontem, é o nosso espaço, não adianta, a gente não pode ter discurso, porque discurso fica pra político, pra filósofo, lalalala, a nossa forma de dizer é em cima do palco com o corpo, com o movimento, de uma outra forma, então, talvez, seja isso que nos une. Tem um carinho, sim, é mentira se disser que não existe carinho de amizade, de gostar de estar junto, sim, existe, mas eu acho que é isso tem a questão da estética que no meu caso é o teatro físico e essa vontade de dizer alguma coisa e tentar mudar de alguma forma algumas realidades, acho que é mais isso. Claro, óbvio, todo mundo do grupo sonha também em poder um dia viver só disso, mas eu acho que a gente pode caminhar muito e é uma coisa que a gente vem entendendo que é essa questão de que a gente fala que a gente não vive de teatro, mas a gente também não dá o gás suficiente de produção, por exemplo, pra que a gente possa viver disso. Então é uma coisa que a gente vem falando muito e eu acho que a gente pode estar caminhando pra isso, pra tentar ver isso e trabalhar isso de uma forma diferente.

Coletivo Sinestesia – Teresina – PI
Representante: Clodomir Junior

Por email

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Atualmente não possuímos nenhum patrocínio, estamos sendo financiados com dinheiro proveniente dos próprios integrantes do grupo.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Nas nossas intervenções sempre nos adaptamos aos fatores que permeiam nossa sociedade, temas como o calor da cidade de Teresina, ideologia das pessoas, elementos sociais constantemente estão presentes no nosso trabalho. Buscamos interação com o público.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Compartilhamos de uma forte linha ideológica de como abordamos as temáticas interessantes para o grupo que é a linguagem contemporânea de teatro. Procuramos ser originais, inusitados, inesperados. Somos um coletivo que tenta adquirir ao longo do tempo uma evolução em conjunto, crescemos à medida das nossas discussões e aperfeiçoamentos.

Cia. de Teatro de Stravaganza – Porto Alegre – RS
Representante: Adriane Mottola

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

A Stravaganza é um grupo de Porto Alegre que já tem 21 anos. A gente não tem patrocínio, mas talvez até devido o tempo de vida, nós geralmente temos os projetos patrocinados, não é assim uma grande maravilha, mas dá pra criar um pouco, não totalmente incentivado, mas pelo menos a gente consegue trazer os espetáculos, fazer oficinas, com um pouco de apoio. Nós temos lá um fundo de apoio à produção artística que se chama FUMPROARTE e também a gente concorre nesses prêmios como Myriam Muniz. Geralmente é incentivo público mesmo. Alguns atores fazem outros trabalhos além do grupo, ninguém faz nada que não tenha nada a ver, tem gente que dá aula, tem pessoas que trabalham em eventos, como o Porto Alegre em Cena, eventos de teatro, ou fazem produção, por exemplo, da parte cênica da Feira do Livro. Nosso grupo, como não é patrocinado, vive desses projetos e da venda de espetáculos e a gente tem seis peças em repertório, então nem todas as pessoas estão em todas as peças, então é diferenciada a forma como as pessoas recebem também. Tem um núcleo de cinco pessoas e outras pessoas… Na verdade, não é tão flutuante porque a gente se encontra toda semana, mas evidente que esse núcleo que está em todos os espetáculos e em tudo o que acontece sempre, ele tem mais possibilidade de sobreviver do grupo do que os outros, mas também às vezes os outros são pessoas que recém estão chegando, é uma companhia bastante aberta.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

A gente tem uma sede em uma região central da cidade, até perto de outros teatros, um bairro de classe média, mas casualmente do lado da nossa sede tem uma vila em que a prefeitura construiu casas. É um espaço bastante interessante, são pessoas que ganharam… é… Não são casas deles, mas eles podem morar ali por, sei lá, 30 anos e depois não sei como é que fica. Mas é claro que essas casas populares no começo tem uma família em cada casa, daqui a pouco já tem cinco! É sempre assim que acontece. Então, a nossa relação com o bairro, sim, a gente procura divulgar tudo o que acontece, mas a nossa relação maior é com as crianças ali da vila mesmo. Porque elas, seja o espetáculo adulto ou infantil, elas assistem, elas estão sempre lá, elas querem entrar, é uma loucura. Não é um compromisso, nós não assumimos isso como compromisso, mas a gente tem seções em que elas vão brincar lá dentro, a gente faz oficinas… Nós não temos um horário, mas como elas entram, assistem ensaios, voltam no outro dia, então tem uma relação… Elas adoram o espaço. A nossa relação é assim, de não ter um trabalho contínuo, mas de acolher sempre e fazendo atividades diversas, às vezes a gente pega os instrumentos, começa a tocar, elas tocam também. Tem dos mais pequenos, de 5 ou 6 anos até 12, 13 anos. E juntas, vão juntas, a irmã maior com um menininho. E claro a gente faz apresentações, às vezes, especiais pra eles. A gente também tem o projeto de trabalhar mais seriamente, até agora nós estamos desenvolvendo um projeto Myriam Muniz que tem um trabalho de oficinas mesmo mais elaborado. Agora quanto aos espetáculos, a gente até trabalha bastante sobre a cidade, sobre o urbano, mas a gente constrói os espetáculos sobre as vivências das pessoas que integram o grupo, então não é uma coisa tão clara, são as percepções daquelas várias pessoas que integram aquele grupo sobre a vida urbana.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Eu acho que é porque tem dentro desse grupo uma liberdade de poder estar fora dele o tempo todo se quiser, de sair, de voltar… Acho que é isso, a liberdade de poder se expressar, dize o que quer dizer ali dentro, mas também liberdade de sair, se afastar um tempo, voltar, é um pouco o que mantém essas pessoas juntas. Sim, além daqueles objetivos comuns que têm as pessoas que trabalham num grupo, de querer dizer algumas coisas, de ter alguns objetivos como artistas, de acreditar na linguagem que o grupo foi criando.

Cia Tapete Criações Cênicas – São Luis – MA
Representante: Robson Diniz

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Por sorte e diferentemente da maioria das companhias da cidade, nós temos uma sede, isso é muito favorável e não dá pra imaginar como seria não tendo esse espaço, onde a gente está freqüentemente dando continuidade a nossa pesquisa e, sobretudo, tentando criar coisas possíveis pra realmente viver de teatro. A sede era do governo, é uma casarão antigo e que foi cedido, mas que nada garante que a gente vai continuar lá, porque de repente eles podem resolver mandar embora, sem argumentos. Assim, existe um crédito, a companhia é uma referência na cidade e isso é um peso muito grande pra reivindicar e fazer valer o direito de permanência porque a gente produz constante. E tem muitos outros casarões abandonados, por exemplo, que outros companheiros ainda não podem ter acesso, não fazem uso. E aí a gente vive uma luta constante, todo mundo vive de arte – não especificamente de teatro, nem especificamente da companhia porque isso realmente é muito difícil, mas a gente vem buscando mesmo arduamente, é um desejo, uma utopia, mas é o que a gente quer muito efetivar e a gente tem se dedicado muito pra isso, buscando por vários meios, captação de recursos, ser contemplado em editais que favoreça esse suporte financeiro, porque realmente é muito difícil, ainda mais numa cidade pequena como São Luis, onde tudo é muito difícil, está em processo, em desenvolvimento, a nível cultural, a nível de turismo, então é muito complicado, tem muitas questões que são implicadoras nesse processo, mas a companhia trabalha profissionalmente nesse sentido buscando realmente todos os meios possíveis, Rouanet, editais a nível nacional, no Estado não tem, é muito eventual, em casos muitos específicos. Bilheteria é bem difícil, quando faz a temporada, por exemplo, a gente acaba custeando, apostando, mas correndo o risco de não ter o retorno e é realmente muito difícil porque tem um valor máximo possível pra nossa platéia, que seria em torno de dez reais, meia para estudante. E é muito difícil. E aí, obviamente, pra alguns projetos, alguns trabalhos específicos, se cria estratégias de parcerias com grupos pra garantir pelo menos o custeio das despesas investidas.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

A Tapete vem procurando a partir das próprias necessidades da companhia, criar estratégias e mecanismos que dêem suporte pro movimento, pra classe como um todo, por exemplo, a gente tem alguns eventos que estão se tornando anual, tem sido muito difícil porque poucas companhias têm uma sede, têm esse trabalho continuado e por conta disso também acontece que muitas companhias… por exemplo, nós não temos um piso pra cachê pra determinadas apresentações e essas companhias que se reúnem pra fazer essas montagens eventuais e não têm um trabalho continuado, elas, por exemplo, se propõem a fazer espetáculos com valores muito baixos e fazem com que pra gente que tem essa dedicação pelo trabalho seja exorbitante, seja surreal cobrar determinado valor por um cachê e tem várias questões por trás. Tem sido uma luta nossa fazer com que os grupos se articulem e entendam a necessidade de juntos fazer com que os contratantes, seja empresas privadas ou mesmo lojas, possam compreender que existem várias questões que precisam ser levada em consideração. E em relação ao espaço, nossa sede fica bem no centro histórico, então sobretudo por conta dessa busca de apoio nos mais diversos meios… de conseguirmos ser contemplados em um projeto de manutenção de grupo, a gente vem criando com muita freqüência trabalhos possíveis de serem apresentados na rua, a gente na verdade sempre apresenta na rua, criando uma dinâmica… Tanto que nossa sala de treino, nossa sede, tem servido pra outras companhias apresentarem trabalhos, cobrando bilheteria a custo baixo, pra realmente dinamizar pra tornar não só o nosso espaço mais freqüentado e mais dinâmico, como também o próprio centro histórico onde a sede está inserida.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Eu acho que uma coisa bem determinante é que – sobretudo por conta da nossa pesquisa – a gente vem procurando a valorização e a preservação da nossa identidade. No que diz respeito a nossa pesquisa a gente bebe em vários mestres, várias pessoas, mas a nossa base vem dali: do que nós temos, do que nós somos. E isso tem nos ajudado a entender quem nós somos e o que pretendemos, o que buscamos. Eu acho que isso é um fator bem peculiar da companhia no sentido da valorização da nossa identidade cultural.

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz – Porto Alegre – RS
Representante: Tânia Farias e Marta Haas

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Tânia Farias: Essa era a pergunta que vocês queriam que a resposta fosse sintética? É que é um grupo que não é novo, né? Tem 31 anos. Então já fez de muitas formas, já vendeu pão de queijo, já vendeu livrinho pra fazer uma peça de teatro, pra pagar o aluguel da sede. Passava a madrugada inteira vendendo pão de queijo, no outro dia de manhã tinha ensaio. E fazia suas produções, Fez um trabalho profissional durante 31 anos e o primeiro dinheiro veio com 27, 28 anos de grupo. Então, eles traduziam coisas do Arrabal, do Artaud e publicavam os livrinhos numa produção bem caseira e vendiam nos bares de noite. Teve vários livros, teve um livro que era uma coletânea de poemas da Geração Beat… Tô falando isso só porque foram estratégias de sobrevivência e de fazer o trabalho. Acho que o Ói Nóis tem uma característica que talvez diferencie dos outros grupos que é… a primeira preocupação do Ói Nóis – para o bem ou para o mau – não é garantir a sobrevivência dos atuadores, isso não é a primeira coisa, então as pessoas fazem outras coisas pra viver, pra pagar seu aluguel, tananam, e trabalham no Ói Nóis. Quando acontece como aconteceu nos últimos anos, as pessoas que estão diretamente envolvidas com o trabalho do grupo e que dedicam então horas e horas de trabalho pra manter todo o projeto existindo, elas passaram a ter uma grana pra viver. Mas que também… assim como tem, acabou, acabou, a pessoa vai fazer outra coisa e vai continuar dando seu melhor tempo pra fazer o trabalho no Ói Nóis. Então a questão da grana no Ói Nóis é… é um trabalho profissional porque sempre foi o melhor tempo que se tinha pra ensaiar é esse… é esse… então o melhor tempo. E sempre ensaiou muito, sempre pesquisou muito… um espetáculo nunca ficou pronto em três meses, isso nunca existiu no Ói Nóis, sempre se ficou muito tempo pesquisando pra fazer um trabalho. No entanto, não tá ligado profissionalismo a essa idéia de: “ah então, tu te mantém com seu trabalho”. Não. Não é assim até hoje. Hoje tá. Hoje a gente tem patrocínio, as pessoas tem grana, claro, que aí elas podem se dedicar integralmente ao grupo, mas isso não é sempre e isso não é a prioridade. Porque a gente mantém um espaço pra trabalhar que é um espaço que também é uma escola de teatro e isso é muito importante pro trabalho do grupo. Então a primeira coisa que se faz é garantir a sobrevivência desse espaço, porque ele também é a sobrevivência deste tipo de trabalho nessa independência no que dizer, no como dizer, no que nós queremos fazer, pra ensaiar na hora que nós pudermos ensaiar, porque são pessoas de muitos lugares que fazem o trabalho no Ói Nóis, tem que poder juntar todo mundo. Então, primeiro, desde o momento em que deixou de ser uma ditadura, voltamos a ser um Estado democrático, aí o Ói Nóis passa a disputar verba pública, volta a entrar em editais, essas coisas todas. Enquanto a gente ainda tava sob o regime da ditadura, não se disputava essa verba, pra não referendar esse Estado. Então, não se entrava nesse tipo de coisa, de tentar aquela grana pra ocupar aquele teatro, não, a gente buscava fora disso. E a partir do momento em que rolou a redemocratização tudo isso, aí o Ói Nóis vai discutir a história… então, agora nós podemos entrar? Vamos? O grupo decide que sim, que deve disputar. E aí é que ele começa a fazer isso, mas você pode ver que ao longo da história do Brasil, nesses últimos 30 anos que a gente vai falar da existência do Ói Nóis, não existe uma política pública efetiva pro teatro, então sempre foi essas coisas bem esporádicas que teve. E hoje tem muito mais do que tinha antes. Então hoje a gente procura garantir dentro do esquema do grupo que é coletivo, que tenham pessoas que possam, por exemplo, abriu edital, faz projeto, abriu edital, faz projeto. Teve um momento em de discutir pra ver se a gente ia ou não fazer projeto pra disputar esses recursos das leis de incentivo. O Ói Nóis passou muito tempo sem entrar na lei de incentivo porque sempre foi crítico desde o surgimento. Sempre expôs isso, por achar que é sacana esse esquema todo. Aí tem um momento que o Ói Nóis discute internamente e decide que… na verdade, foi até assim, ó… foi uma pessoa que disse: olha, tem uma estatal aí, vocês têm um trabalho que é completamente voltado pra comunidade de Porto Alegre, então se vocês entrassem na LIC, vocês teriam chance. E foi um cara que tava naquele momento no governo, o governo era petista, o cara veio dizer isso pra nós: “Entrem com o projeto que vocês têm condições de…”. Enfim, nunca teve esse negócio que ele falou, mas a gente acabou entrando. Esse momento dá origem a uma discussão interna no grupo se a gente ia ou não disputar. E aí a conclusão a que a gente chegou é que: esse dinheiro é público, esse Estado democrático é que garante que essa Lei seja assim como ela é, né? Ela existe e o governo Lula tá fazendo a mesma coisa. O Lula não mudou nada. Continuamos com a Lei Rouanet, esta merda, e não existe nenhuma coisa efetiva que dê espaço pro trabalho que não tem mercado porque não quer ter mercado, porque não é mercadoria… não existe. No governo do operário não existe isso. Ele continua tendo a Lei Rouanet. E isso é dinheiro público. Aí chega um momento que tu começa a ver que é importante… se tu acredita que o teu trabalho tem uma dimensão pública e que ele volta de alguma forma pra tua comunidade, não disputar esse dinheiro que é público, é quase dizer: não, tudo bem, dá só pro Roberto Carlos, tá ótimo, o povo precisa que ele faça show na Serra lá no Rio Grande do Sul… precisa… então faz isso… a Ivete Sangalo precisa… e aí a gente resolveu que não, que a gente ia tentar. Só que, claro, a gente começou a escrever os projetos do Ói Nóis. O primeiro projeto que o Ói Nóis consegue uma graninha da Lei Rouanet – não é da Rouanet, é da LIC – é o projeto da escola popular do Ói Nóis, é um projeto que o Ói Nóis já fazia. Então, o projeto que o Ói Nóis inscreve é sempre um projeto que é muito a cara do Ói Nóis, nós queremos fazer uma escola de teatro popular, nós fazemos um trabalho de formação que é popular – popular no sentido de facilitação do acesso e nessa idéia de que vai estar falando de algo que possa interessar a uma maior parte. Isso interessa pra alguma empresa? Pra algum marketing de empresa? A gente não inscreveu achando que alguma empresa ia se interessar, que o marketing ia achar que isso era “mó barato”, a gente pensou só que só vai nos interessar também ter esse recurso pra fazer alguma coisa que nos interesse fazer. Então a gente não se preocupou com o que nós vamos fazer… “ai, tem que ser isso, porque isso vai vender”. Não. sempre foi o trabalho do Ói Nóis, tanto que a manutenção que o Ói Nóis ganhou da Petrobras, pra o Ói Nóis a manutenção é fazer as sete oficinas no bairro que a gente faz sem grana nenhuma e que, então, tendo a Petrobras, a gente fez com as pessoas recebendo uma grana, tendo algum recurso pra se quisesse fazer um exercício, comprar pano pra fazer um figurino, tu teria. Isso é manutenção do Ói Nóis… apresentar os espetáculos na periferia… isso é manutenção do Ói Nóis. Esse é o projeto do Ói Nóis, é tão importante quanto fazer o trabalho criativo, ir fazer essas oficinas. E isso o Ói Nóis faz antes da era do ONGismo, entendeu? Não é… “Ah, contrapartida social, porque agora dá dinheiro contrapartida social, então agora…”. Não. O Ói Nóis faz isso há muito tempo. Os caras que tinham grana davam dinheiro pra caxinha pro cara que ia dar a oficina poder ter grana pra passagem, porque como não se tinha recurso pra pessoa sobreviver, às vezes a pessoa não tinha dinheiro pra passagem. Então o grupo tentava fazer alguma coisa pra dar o dinheiro pra pessoa poder ir pra Vila Goretti dar oficina porque nós queríamos que tivesse uma oficina no bairro, não é porque alguém ia achar bonito, porque pra nós é importante, ideologicamente é importante. Olha, agora a gente faz isso, a não ser que a gente não tenha perna pra fazer a gente se inscreve em tudo quanto é edital, em todos, todos. Porque, como a gente teve patrocínio da Petrobras, vai ficar no imaginário das pessoas que o Ói Nóis tem patrocínio da Petrobras, e o Ói Nóis não tem patrocínio da Petrobras, entendeu? A gente tenta se inscrever em todos. E muitas vezes a gente não ganha porque: “não, já tem dinheiro…” e não, nós não temos dinheiro, então a gente se inscreve em todos. Lá existe um fundo que chama FUMPROARTE, mas que é assim tu ganha agora e só daqui uns cinco, seis anos tu vai conseguir ganhar de novo, porque é uma loucura, porque é uma grana bem pequena pra toda a produção de todas as áreas. Então tu disputa com cinema que já capta direto desse fundo 40% dos recursos.

Marta Haas: Mas, inclusive, a gente ganhou pra fazer as apresentações nos bairros que a gente tá fazendo em várias regiões de Porto Alegre, a gente ganhou.

Tânia: Agora. Mas fazia anos que o Ói Nóis não ganhava. Anos…

Marta: E tá fazendo já as apresentações pra ganhar a verba daqui a… sei lá quantos meses…

Tânia: E agora tá um momento… se a gente tivesse com mais alguma coisa a gente tava fudido. Porque a gente ganhou o Myriam Muniz pra fazer uma montagem nova, um espetáculo de teatro de rua, com um texto do Ariel Dorfman, que é uma alusão a um país que teve ditadura militar e ele fala de um povoado onde todos os homens foram assassinados… foram “sumidos”, na verdade… sumiram com todos os homens, só ficaram as mulheres, o espetáculo chama Viúvas. E é um momento desse país em que o discurso já não é mais “vai lá e mata”, já é o “gente, vamos esquecer o passado, vamos botar uma pedra em cima disso, vamos curar as feridas”. E as mulheres não têm mais seus maridos, não têm mais seus filhos e eles dizendo pra elas: “vamos acabar com isso, o discurso é do diálogo”, sabe aquele discurso bem pau no cú? Esse.

Marta: É aquela coisa: “a gente esquece a desobediência de vocês e vocês esquecem a nossa resposta rigorosa a essa desobediência”.

Tânia: Mas é bem esse discurso. E aí há algum tempo a gente vinha tentando… já tinha perdido alguns Myriam Muniz com essa peça e agora ganhou. E a gente ganhou esse edital, ganhou uma viagem da BR Distribuidora e esse lá de Porto Alegre. Então, a gente ganhou dois editais de circulação. Ah, e teve também o de rua. Nós vamos fazer os assentamentos do MST com o edital Artes Cênicas na Rua. Só no Rio Grande do Sul?

Marta: É, é. Porque pra sair do Estado não daria pra ir em 12 cidades, 6 assentamentos.

Tânia: A gente faz assim, a cidade onde tem o assentamento e o assentamento. Duas apresentações. E é bem difícil pra nós fazer isso de ir pro interior lá, porque tem alguns lugares que é bem longe e é caro ir, né? A gente precisa pagar o caminhão, mais…

O grupo não respondeu às perguntas dois e três porque a entrevista foi interrompida.

Grupo Vilavox – Salvador – Bahia
Cláudio Machado e Gordo Neto

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Cláudio Machado: É uma pergunta… Na verdade, a gente hoje tá trabalhando sem uma estrutura financeira fixa. O que acontece é que de vez em quando, aquela velha história de sempre, o grupo consegue passar num edital, enfim, também busca através da realização de oficinas na cidade também extrair daí algum dinheiro, mas a gente ainda não tem uma estrutura que mantenha os seis integrantes do grupo de forma constante. Porque bilheteria, de fato, ainda não rola. Na Bahia a gente tem muitos editais públicos do Estado, acho que os principais são os que o estado promove mesmo, mas, além disso, tem os federais e os festivais.

Gordo Neto: A gente ganhou o Myriam Muniz em 2006 e montou um espetáculo, viajou com Caravana Funarte com esse mesmo espetáculo, são dois exemplos de editais federais.

Cláudio: Os editais Estaduais são muitos, mas tem o edital de manutenção de grupos que foi criado há pouco tempo, mas tem sempre o de montagem…

Gordo: Basicamente no estado, tem montagem, circulação pelo estado da Bahia, manutenção de grupo que foi uma chamada pública em 2007 e vai se transformar num edital agora em 2009, ou seja, 2008 não teve – vai lançar ainda esse ano. E você tem editais transversais, por exemplo, ocupação do Pelourinho com espetáculo de rua, tem alguns outros que o teatro pode estar.

Cláudio: E de teatro, por exemplo, que é pra uma única apresentação realizada num teatro do estado.

Gordo: E a prefeitura voltou, depois de muitos anos parado, com uma Lei de Incentivo, com um valor global anual ridículo, que não tem absolutamente nenhum significado. Olhe, eu posso estar sendo leviano, mas eu tenho certeza absoluta que não passa de 500 mil reais. O Fomento de São Paulo, por exemplo, você pode inscrever, pelo que eu soube, um projeto de até 600 mil reais. Então, você imagina, a manutenção da gente, por exemplo, em 2007 foi 80 mil pra um projeto de oito meses. Agora a gente já aumentou bastante isso, mas o maior valor é 180 mil até um ano, então estamos melhorando um pouquinho.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Gordo: A gente circulou praticamente nada, e eu estou falando isso, também assim… o Vilavox, esse grupo que é de 2001, a gente só fez uma circulação por cidades do Nordeste, seis cidades, entre elas, uma no interior da Bahia e cinco em cidades do Nordeste entre capitais e outras cidades do interior. A relação da gente com a cidade, com Salvador, não tem muita, porque a cidade de Salvador não se relaciona, os grupos não tem o costume de fazer intercâmbio, de fazer eventos em conjunto, então a gente tem pouca troca na cidade e isso é um grande problema. A gente tentou, por exemplo, com a manutenção insinuar um pouco isso, conseguiu fazer uma coisinha ou outra, mas foi muito mais até pra fora do que dentro, então a gente levou o Vertigem, o Sérgio e o Beto pra dar uma oficina, levou o diretor musical do Galpão, o Latão foi pra lá, a gente aproveitou e eles deram uma oficina, fizemos 16 leituras dramáticas, convidando atores de outros grupos ou atores “avulsos”, por assim dizer. Então isso é pra vocês perceberem que é um movimento que a gente tem e que eu tenho a impressão de que esse movimento se deu porque eu tive uma relação anterior justamente com o teatro feito pelo Brasil todo e que isso me fez pensar que isso era uma falta tremenda dentro da cidade.

Cláudio: Só pra complementar, eu acho que tem uma questão do trabalho que é… a gente faz parte do Teatro Vila Velha, a gente é um dos grupos residentes do Teatro Vila Velha, onde se produz um teatro não-comercial, acho que como expressão do grupo na cidade eu acho que tem um pouco essa força de estar lá produzindo um teatro que não tem o menor compromisso financeiro, de ter uma renda, a gente tem compromisso com a política, a gente tem um discurso muito mais por esse viés, do que uma pegada mais comercial.

Gordo: A presença da região na obra, eu particularmente acho que não tem muito. O penúltimo espetáculo montado, O Canteiro de Rosa, é baseado em contos do Guimarães e Guimarães inevitavelmente tem uma relação com sertão, pega ali Minas Gerais, Bahia, Goiás, talvez, então tem uma coisinha ali de alguma parte da Bahia, mas a gente não é, por exemplo, como o Bando, o Bando de Teatro Olodum, que é do mesmo teatro, eles fazem um teatro que reflete…

Claúdio: …os pensamentos e a situação social local…

Gordo: …as questões do negro e tal e, digamos, com uma pegada mais, por exemplo, com muito tambor, com muita música mais “baiana”, por assim dizer. Então, a gente não tem isso, a gente não está se relacionando com a cidade nem muito fisicamente e nem muito nos temas ou nos propósitos de encenação que a gente tem hoje.

Cláudio: Eu acho que não é uma preocupação do grupo, esse, de fato, não é um foco. Talvez, claro, outras pessoas de outros lugares assistindo ao grupo vão identificar muito mais Bahia nos espetáculos do grupo do que a gente imagina, mas de fato essa não é uma preocupação, não é um foco do trabalho.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Gordo: Ó… a gente tá em crise, como muitos também devem estar, exatamente nesse sentido de tentar entender o que é esse elemento agregador, nós somos um grupo muito heterogêneo, inclusive de vontades e desejos, e eu acho que isso ainda é muito discutido. Tem um elemento que a gente elegeu – não sei se é isso, mas enfim – a gente meio que elegeu como uma coisa que acompanha a gente e que, de fato, na publicação – a única que a gente tem – o tema é esse, nos espetáculos a gente acha que ela ta presente em todos, que é a musicalidade em cena. Como o grupo nasceu como um coro performático, inevitavelmente a música teve uma presença, mas absolutamente distinta: você tem um espetáculo com música ao vivo, com uma banda de rock tocando praticamente o tempo todo, você tem um Guimarães em que a música ta muito mais no texto e tem canções também, mas cantadas só com voz, enfim, a gente pegou isso, elegeu isso e acho que não é sacanagem nossa, tem alguma coisa que eu acho que dá essa liga. E tem uma segunda coisa que é ter três atores desses seis que estão desde o começo, e a gente ter um diretor musical em todos os espetáculos que a gente montou, que é um cara muito forte. Esse diretor musical, o Jarbas, a mão dele é muito forte nos espetáculos que ele faz com a gente e com qualquer outro, então acho que o que dá a liga da gente é isso.

Cia. Vitória Régia – Manaus – AM
Representante: Diego Batista

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Basicamente a companhia não tem nenhum recurso como um patrocinador ou alguém que invista, mas a gente consegue captar recursos de editais públicos do Estado e nacionais, como da Funarte. Tem o PROARTE lá do Estado, que é o único que está tendo agora, mas nós não temos Lei de fomento, nem incentivo municipal, nem estadual. A bilheteria em Manaus é muito complicado, porque não funciona. O governo tem um plano em que ele compra os espetáculos dos grupos e os grupos apresentam com a bilheteria gratuita, então se formou um público não pagante há muito tempo em Manaus. Então se um grupo local estréia um espetáculo e quer cobrar bilheteria é muito difícil, mas quem vem de fora, ganha bilheteria. E é muito raro ficar em temporada de um mês, dois meses. O que acontece é alguém que tem um espaço alternativo apresenta seu espetáculo ou viaja, sai do Estado… Mas lá não.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

O grupo tem uma posição política bem forte quanto à questões de políticas públicas de que tanto se fala. É um dos grupos mais ativos no Estado, tem vinte e cinco anos em atividade no Estado, de montagem de espetáculo, de permanecer em circulação, a gente vai pros interiores, apresenta, é um grupo que não consegue ficar quieto, questiona, tem um posicionamento político contra o Estado, contra a gestão pública, em geral, não só o Estado, mas a gente tem esse posicionamento de questionar e brigar junto aos órgãos. Isso também aparece na obra, já teve um espetáculo que era só questionamento político, tem um maluco na cidade que escreve, o Sérgio Cardoso, que escreveu um texto que se chama Caruso jamais cantou aqui, que fala sobre a possível ida de Caruso a Manaus pra inauguração do teatro e da ida de Claudia Cardinari, também e isso nunca existiu. E dentro disso ele criou uma atmosfera pra falar sobre a questão política do Estado e do momento cultural que a cidade vivia em 2005, que foi quando a gente montou esse espetáculo. Tinha uma metáfora da cidade que era o Teatro de la Zone, mas que tinha um mandador, apontando que a gente vive meio que uma ditadura cultural, por conta de não poder ocupar os espaços que temos e o espetáculo trabalhava isso diretamente, era bem questionador.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

A gente tem essa questão política, mas o fazer teatral já é um modo de agregar, mas eu vejo como um grupo que tem um ideal, é um teatro muito ideológico, pela pessoa que o coordena e pelas pessoas que integram. A gente fala: “o grupo tem esse ideal, quem quiser agregar, seguir junto com essa idéia do grupo, tá dentro”. Mas a gente tem esses posicionamentos políticos e defende eles. E trazer as questões dos interiores que são muito distantes, a gente tem a questão da geografia que lá é complicada demais, mas a gente tem esse fator de tentar disseminar o teatro, de popularizar, de levar a oportunidade das pessoas verem teatro, o nosso teatro de grupo.

Grupo Experimental de Teatro Vivarte – Rio Branco – AC
Representante: Maria Rita Costa Silva

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Há dez anos a gente trabalha junto e nós optamos por teatro de rua. A gente recorre a editais, lá a gente tem a Lei de Incentivo Estadual e Municipal, tem o Fundo Municipal de Cultura e tem alguns editais que de vez enquanto a gente concorre e às vezes ganha algum prêmio, como da Funarte.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

O nosso trabalho é mais voltado para as questões do imaginário amazônico mesmo. Por exemplo, a gente ganhou o prêmio Caravana Funarte, em 2008, e fomos para uma cidade bem distante no estado do Acre, subimos o rio durante seis dias de barco, nunca nenhum grupo tinha ido lá. Agora a gente aprovou o edital Artes Cênicas na Rua e vamos levar nosso espetáculo em uma cidade em que também nunca foi nenhum grupo de teatro, é Santa Rosa, fica na divisa com o Peru. Nós vamos chegar lá e de lá vamos pegar um barco em que vamos viajar seis dias também de barco pra chegar numa cidade muito próxima da tribo Axininca, que vai contribuir para o nosso trabalho de pesquisa do imaginário amazônico que a gente faz também nessas viagens.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Nossa opção é levar a arte onde o povo não tem acesso, essa é a nossa grande filosofia de trabalho.

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