Reverberação

Por Paulo Bio Toledo

“o meu cérebro é uma cicatriz”

Heiner Müller dizia que o terceiro mundo são “ilhas de desordem”. Espaços, dentro do jogo de relações comerciais de escala global, cujas contradições – homem desprovido de pele com os músculos e artérias gritando em carne viva – representariam a única possibilidade, ainda, de esperança. Uma esperança repleta de dor e medo, de espanto. Um novo que viria depois do caos, que se faria por sobre as ruínas.
Dimiter Gotscheff adaptou seu Hamletmáquina no Brasil, com atores brasileiros – Brasil em que deixamos o lodo do subdesenvolvimento. Vivemos o intermédio. O vácuo da ascensão econômica. O pós-operatório da incisão cirúrgica que tentou nos arrancar o tumor do atraso, a custa de quilos e quilos de anestésicos, hipnóticos e antiinflamatórios.

Mas as contradições estilhaçam nossos olhos.

2009 completou os 20 anos da implosão da pilha de concreto, spray e arame farpado que dividia Berlin e fomentava imaginários e dualismos. Expôs, frente a frente, os dois irmãos, cruéis e sanguinários, separados na infância e criados em lares de arquitetura antagônica. Deflagrou um novo mundo, uno, sem bandeiras, sem estruturas... Sem história. O escritor alemão oriental, Volker Braun repete por dias a fio: “o que nunca tive me foi tirado”. O que nunca tive me foi tirado. Hamlet entre dois mundos. Hamlet sufocado pela esperança que se petrifica já dentro de suas narinas. Hamlet torturado pelas toneladas de fast-foods recicláveis; acelerado pelas anfetaminas da mão-de-obra africana.

“O meu drama, se ainda tivesse lugar, realizar-se-ia na época da revolta [...] encontro-me no cheiro de suor da multidão e jogo pedras em policiais, soldados, tanques, vidros à prova de bala. [...] eu que estou atrás do vidro blindado. Agitado pelo medo e pelo desprezo, vejo-me na multidão que se aproxima, minha boca espumando, agitando o meu punho contra mim mesmo”

A história é feita de cadáveres, de um amontoado de entulhos, decomposição, caos. De vinganças. Electras.
Quando a peça começa as luzes da platéia estão acessas, o teatro revela seu maquinário, suas paredes de concreto, seus mecanismos de ilusão. “O relógio que era teu coração”. Entra no palco Dimiter Gotscheff, búlgaro, morador das duas Alemanhas, diretor do Deutsches Theater. Só então as luzes se apagam, só então o pano de fundo cobre as máquinas e a parede de concreto do teatro.
Cada palavra será dita com os olhos, com as veias. Cada palavra será repetida sem catarse. Todos os sons, em alemão e português, são queimados na pele. Não há espaço para o entretenimento, não há caminhos para o prazer, não há fôlego para os aplausos. Só há palavras. Cruas, duras, estáticas, enormes e pesadas. Contendo cada segundo do Séc. XX. Cada morte, cada massacre, cada guerra, cada regime. Cada retrato. Contendo Ofélias e Electras. O espírito da insubmissão, e os traumas do massacre. De Cassandra a Ulrike Meinhof.

O Mestre de Cerimônias ri, diverte-se.

Hamletmáquina implora, segurando sua faca de carniceiro, alguns segundos de pensamento; o assassinato da arte sublime, o fuzilamento da “felicidade da submissão”. Implora e estoura. Deixando fragmentos de dúvida. Deixando-nos as sós com nosso mundo...

...que se desfaz na Letargia amorfa das democracias.
Mas Ofélia soletra:
“vou para rua, vestida em meu sangue”

Entre lágrimas, soletra:
“Vou para rua, vestida em meu sangue”

E já sem teatro, fundida ao concreto:
“Para as metrópoles do mundo. Em nome das vítimas. Rejeito todo o sêmen que recebi. Renego o mundo que pari.”

Sair do teatro com os passos desfigurados. Com as horas submersas. Ouvindo a dor dilacerando meus órgãos. Aguardando o espanto, que precede o novo.
O estopim do caos.

 

21 detidos em Heliópolis; 82 dias de ocupação da PM em Paraisópolis [...]

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